Crítica | Paisagem na Neblina

Não existem fronteiras entre a Grécia e a Alemanha. O país de Homero possui divisas com Turquia e Bulgária. Mas não com a terra de Goethe. Unir os dois países é uma tarefa que parece impossível ou improvável. Para a sétima arte, isso é possível. Sergei Eisenstein propunha que o veículo cinematográfico deveria se comportar de maneira criativa, fugindo das obviedades. Uma dessas maneiras foi batizada por ele como “geografia criativa”: a arte de comprimir fronteiras e aproximar dois espaços distantes entre si. Portanto, para o cinema, criar fronteiras entre os gregos e os alemães é uma tarefa, em tese, simples. Em Paisagem na Neblina (1988), Theo Angelopoulos se utiliza do conceito eisensteiniano para construir sua própria Europa. 

É sabido que, no contexto pós-maio de 1968, Angelopoulos é um dos cineastas europeus mais relevantes. Sua capacidade lírica/poética está evidenciada ao longo de suas obras. Paisagem na Neblina é, certamente, um dos filmes coming of age mais importantes da história do cinema depois de Os Incompreendidos, de François Truffaut. Aqui, dois irmão gregos, no auge da infância, partem em uma efusiva jornada para encontrar seu pai ausente que, supostamente, vive na Alemanha. 

Evidentemente, a questão temática da passagem da infância para a juventude é o cerne do filme. Contudo, não há de se ignorar o porquê do uso da geografia criativa de Angelopoulos em sua película. Dentro do contexto sócio-político da Europa nos anos 1980 e início da década de 1990, é impossível deixar de lado a importância da aproximação entre duas nações cujas fronteiras são distintas.

A aproximação dos dois países que, no filme, se comunicam através da língua grega, funciona como a união das duas nações. Os anos 1980 foram de fundamental importância para o fortalecimento da União Europeia. Tendo a Grécia como décimo integrante do grupo europeu, Paisagem na Neblina lida de maneira magistral com a temática da dissipação das fronteira. O mais impressionante: a Alemanha, cercada e fechada pelo Muro de Berlim, é ponto chave da narrativa. Nela, os dois irmãos entram no país, algo que, dadas as circunstâncias do período no qual o filme foi produzido, é capaz de simbolizar a conexão dos países europeus, facilitada pela fortificação da União Europeia. 

Agora, observando o filme por um diferente escopo, vê-se que Angelopoulos lida, à sua maneira observativa, de modo muito peculiar com o tema do coming of age. Ao contrário de obras como Cría Cuervos (Carlos Saura, 1975) e O Espírito da Colmeia (Victor Erice, 1974), que inserem o espectador de maneira incisiva no universo dos personagens, Paisagem na Neblina opta por uma linguagem típica do diretor grego. Como visto em A Eternidade e Um Dia, Theo Angelopoulos conduz sua mise en scène por meio do distanciamento entre o espectador e os personagens. Utilizando-se da poética do plano geral, apenas mostra os protagonistas de modo uniforme, sem contar com possíveis juízos de valores. 

Outro elemento clássico da filmografia de Angelopoulos é uma unidade estético-narrativa intraplano. Ou seja: cada plano conta uma história dentro isolada, que inserida em um contexto maior cria uma conjunção de novas interpretações. Tais recursos são fundamentais para estabelecer a estética do diretor. Tratando com esmero cada um de seus planos, o realizador grego coloca, dentro da totalidade de sua obra, um cuidado extremo com todos os elementos fílmicos. 

Por desenvolver a poética da observação de maneira muito pessoal, não se deve confundir os planos masters de Theo Angelopoulos com os de cineastas de cunho realista, como Michelangelo Frammartino – cineasta apoiado no acaso e aleatoriedade como elementos de construção narrativa. O diretor grego usa milimetricamente cada um dos elementos da mise en scène que estão ao seu alcance: desde as calculadas panorâmicas até à cuidados câmara sobre o ombro.

Paisagem na Neblina pode ser considerado uma enorme metáfora da vida. Desde o nascimento, representado pela saída do país natal, até a descoberta das camadas mais obscuras da existência. Uma maravilha visual e narrativa. Tanto seus personagens, quanto seus longos e bem articulados planos compõem um universo fantástico e único. Uma jornada sobre a perda da inocência, o descobrimento do mundo, a transição da infância para a juventude e as desilusões que a vida cria para todos. A busca por um pai aparentemente desconhecido e o abandono de uma mãe nunca apresentada, é um reflexo da complexidade das relações parentais durante a vida pré-adolescente. 

Paisagem na Neblina (Τοπίο στην ομίχλη) – França, Grécia e Itália, 1988
Direção: Theo Angelopoulos
Roteiro: Theo Angelopoulos, Tonino Guerra e Éric Heumann
Elenco: Michalis Zeke, Tania Palaiologou, Stratos Tzortzoglou, Eva Kotsamanidou, Aliki Georgiouli, Ilias Logothetis, Vangelis Kazan, Stratos Pahis, Mihalis Giannatos
Duração: 127 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.