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Crítica | Paixão (2012)

por Leonardo Campos
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Deliciosamente sensual e divisor de opiniões no campo da crítica e do público. Assim é Paixão, suspense com altas doses de erotismo, lançado por Brian De Palma em 2012, refilmagem do francês Crime de Amor, drama mais contido que a releitura do cineasta que mais uma vez, emula traços significativos do cinema de Alfred Hitchcock para entregar uma narrativa ousada, esteticamente deslumbrante e cheia dos costumeiros pontos de virada comuns aos textos que o realizador geralmente escreve e dirige. Desta vez, Natalie Carter, roteirista do “original”, colabora com os diálogos do material dramático que resgata as bases do texto francês, mas insere um monte de referências e escolhas narrativas que tornam Paixão uma retomada autêntica de algo já contado antes, mas de um jeito mais ameno. Em sua versão, a obsessão ganha contornos mais intensos, combustível para o cineasta retratar disputas de egos e personagens acossadas pelo cotidiano de uma multinacional, espaço cheio de armadilhas, reviravoltas, rivalidades e mulheres mergulhadas numa atmosfera de ambiguidade mesclada por sadismo e violência. Mais uma vez, o roteiro tal qual conhecemos e gostamos é o que menos importa. O foco é ‘como” Brian De Palma elabora os mecanismos narrativos para contar a sua história.

Ao longo dos 105 minutos de Paixão, conhecemos a ambígua relação entre Christine Stanford (Rachel McAdams) e Isabelle James (Noomi Rapace), mulheres que integram uma empresa de publicidade multinacional. Trajadas pelos adequados figurinos de Karen Muller Serreau, as personagens esbanjam aspectos visuais em tela, conteúdo que delineia muito bem os seus perfis e necessidades dramáticas. Enquanto Stanford surge constantemente em suas roupas e maquiagem vibrantes, James é a opacidade em pessoa. A primeira é uma manipuladora nata. Ela mexe com os seus funcionários como se fossem peças de um jogo sádico para o seu prazer. Alta executiva e diretora de criação da multinacional onde parte da narrativa se desenvolve, Christine é o foco da obsessão de Isabelle, diretora de arte que desenvolve uma campanha para smartphones e busca de alguma forma se destacar neste ambiente de trabalho tóxico. A crise se estabelece quando a chefe rouba uma de suas ideias brilhantes e fica com os créditos para si mesma. Além disso, ao iniciar um caso com o amante de Isabelle, Christine desafia os sentimentos da subordinada muito além da rasteira na relação profissional.

É o tipo de roteiro que deixa claro a necessidade de retaliação, a boa e velha vingança que tanto amamos na literatura, no cinema e nas séries. Mas em Paixão, Brian De Palma brinca com a manipulação da sétima arte a cada instante. Se Dália Negra pecou pelos excessos na quantidade de reviravoltas, aqui parece que as coisas são ainda mais frenéticas. Nada, absolutamente nada é o que parece ser. Somos levados por um espiral constante de possibilidades que se dissipam, num conjunto brusco de pontos de virada que lembram bastante o atmosférico Síndrome de Caim, produção com raízes fincadas no rizomático legado de Alfred Hitchcock. Cansada das atitudes de sua gestora, Isabelle adentra num espiral de loucura que também nos carrega, em cenas que mesclam momentos de realidade e de flerte com dimensões oníricas atordoantes. O cineasta coloca em perspectiva os seus temas habituais, tais como a obsessão, o voyeurismo, a mulher como objeto, a fixação patológica e esteticamente, traços do cinema noir com um trabalho excelente de direção de fotografia, assinado por José Luis Alcaine, numa passagem sofisticada para o âmbito do virtuosismo estético no cinema digital, algo comum na era analógica do diretor.

Propositalmente cafona e novelesco, Paixão traz Brian De Palma em diálogo com imagens de conferências de Skype, bem como câmeras de segurança, de aparelhos celulares e de luxuosas máquinas fotográficas oriundas da multinacional de publicidade, um espaço para disseminação do cinismo e da dissimulação que tomam toda a narrativa. É a sua representação do voyeurismo na era da portabilidade, tendo Alfred Hitchcock e desta vez, o clássico Janela Indiscreta, como ponto de partida para o costumeiro exercício de metalinguagem no desenvolvimento da trama. Enquanto as personagens caminham rumo ao desfecho trágico que se desenha desde os primeiros momentos, o design de produção de Cornelia Ott capricha na ambientação dos espaços, em especial, na direção de arte repleta de espelhos e elementos que reforçam a natureza kitsch do texto dramático de Brian De Palma para o argumento do francês Crime de Amor. Tudo isso, captado pela direção de fotografia já mencionada, elegante e adequada, editada com maestria ao passo que o cineasta gerencia a montagem e solicita o uso de split-screen, recurso basilar da linguagem cinematográfica, isto é, a famosa divisão da tela.

É nesta opção narrativa que Paixão demonstra para o espectador que estamos diante de um espetáculo de representação que não se cansa de estabelecer reviravoltas para nos enganar o tempo inteiro. É um filme para se esquecer elementos básicos da dramaturgia clássica, tais como atos perfeitos, evolução de personagem e motivações explicadas em pormenores. Esteta, Brian De Palma se preocupa muito mais com o exercício da linguagem do cinema, deixando de lado qualquer aspecto de verossimilhança em prol da forma. Isso torna o filme uma narrativa diferente, incomoda para quem está domesticado com os padrões narrativos habituais e não consegue se adequar aos moldes diferenciados e burlescos do cineasta ao contar as suas histórias. Além do split-screen, a montagem também investe em certeiros usos de raccords, aplicados quando as personagens trocam olhares e deixam pistas sobre o devido lugar de cada um dentro do enredo que nos é apresentado. Numa velocidade absurda, o filme desconstrói aquilo que constrói abruptamente, nos colocando numa deliciosa montanha russa de excessos que reforçam o brilhantismo do esmero estético do cineasta, realizador de um cinema hipnótico.

Focado em distúrbios de personalidade, diálogos que às vezes são estabelecidos com a sua própria cinematografia e reencenação de muitas passagens já brilhantes em sua primeira incursão, Paixão é um filme para poucos, tamanha a brusca curva de reviravoltas do meio para o final e os abusos de Brian De Palma no que diz respeito ao processo de suspensão da descrença. Alucinações, sonhos embaralhados com a realidade, associações narrativas com Psciose e Um Corpo Que Cai, além da conexão com o processo de limitação do campo de visão ao personagem-chave, como ocorre com James Stewart em Janela Indiscreta. Em seu constante processo de manipulação das emoções da plateia, ele insere doses generosas de dramaticidade em Dani (Karoline Herfurth), personagem que parece uma mera coadjuvante, mas que possui função narrativa muito maior que o imaginado inicialmente. Dirk (Paul Anderson) é o amante utilizado como reforço para o filme ampliar a toxicidade dos conflitos entre as protagonistas acossadas por suas ânsias, mulheres tão obcecadas quanto o cineasta em sua retomada aos temas de sempre, tendo o sexo, a violência e a paranoia como combustíveis basilares para a ação. Ignorado uns e louvado por outros, Paixão é um “autêntico e polêmico Brian De Palma”.

Paixão (Passion) — EUA, 2012
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma, Natalie Carter, Alain Corneau
Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Dominic Raacke, Paul Anderson, Benjamin Sadler, Rainer Bock
Duração: 100 min.

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