Crítica | Paixão Assassina

Paixão Assassina é uma versão vulgar e absurda de Atração Fatal. Dessa vez, no entanto, a algoz da narrativa não está tão interessada apenas no marido alheio, mas na recuperação da sua família, abandonada por ela mesma durante um surto psicótico três anos antes do sumiço. O que fazer quando seu marido já te esqueceu e recomeçou uma nova vida, com outra mulher, dona do arquétipo da boazinha e gentil madrasta? Gritar, espernear e quebrar coisas não resolve. A protagonista infernal, personagem da veterana Jamie Lee Curtis, vai transformar a vida de todos os envolvidos nesta chocante e deliciosa história num verdadeiro caos.

A produção é do tipo “filme ruim que amamos”. O interesse em resgatá-la veio de uma retrospectiva recente dos filmes da franquia Pânico. No primeiro, durante uma cena com debates metalinguísticos entre os personagens, o cartaz promocional da produção aparece na videolocadora onde o nerd Randy trabalha. Tal como sabemos, a direção de arte e seus adereços não trabalham de maneira aleatória e a referência exposta não possui nada coincidência. Lembrei de já ter assistido ao filme e conferido tais absurdos, boquiaberto, mas era uma lembrança distante, recuperada na era do serviço de streaming e das mídias digitais, recursos da indústria no constante resgate e manutenção da nossa memória cultural em atualização.

Dirigido pelo canadense Yves Simoneau, cineasta que teve como inspiração o roteiro da dupla formada por Barry Schneider e Richard Hawley, tradução intersemiótica do romance homônimo de Bernard Taylor, Paixão Assassina, lançado em 1993, segue a linha das mulheres sensuais que transformam a vida das pessoas que gravitam em torno da sua existência numa verdadeira calamidade. Situada em Los Angeles, a trama versa sobre Jude (Curtis), uma mulher bem distante do arquétipo de heroína e protetora de sua cria. Ao contrário, ela é uma criatura desequilibrada que há três anos abandonou o marido e os filhos sem nenhuma explicação plausível.

Surge, de maneira repentina, disposta a recuperar o casamento que apenas em sua mente obsessiva, permanece com alguma fagulha de chance no que tange ao retorno. São falsas esperanças, pois Robert (Peter Gallagher) agora está caidinho por Callie (Joanne Whalley-Kilmer), a assistente do diretor da escola onde seus filhos estudam. Ela é uma mulher doce, gentil, educada, vestida sempre com seus tons claros e opacos, discretos, o oposto de Jude, mulher que se comporta de maneira libertina, sempre muito maquiada, com tons berrantes, a fumar furiosamente o seu cigarro e verbalizar palavrões.  Não é preciso ser vidente para visualizar que Jude transformará a vida de Callie, de Robert e de seus filhos num calvário.

Disposta a conseguir o que tanto deseja, ela coloca a integridade física e psicológica dos seus filhos na latrina. Não há limites para a personagem obcecada, trabalhada de maneira extremamente caricata pelo roteiro, o que nos impede de ao menos ter o mínimo de compaixão. Nem a sua mãe, Lydia (Vanessa Redgrave), consegue ter piedade e confiar na filha, uma presença que pelos olhares e insinuações da experiente matriarca, representa a certeza de ter concebido um ser maligno. O elenco, como já exposto, traz ótimas presenças, mas a obviedade da história e a maneira como a narrativa é construída anula qualquer possibilidade de consideramos Paixão Assassina um filme para ser relembrado com o seu devido respeito. Sem condições, apesar de algumas passagens razoáveis. De volta aos filhos de Jude, Kes (Luke Edwards) é o mais manipulado, personagem responsável por protagonizar algumas cenas bem polêmicas.

Insatisfeito com a condição atual de sua família, o jovem já demonstra ser um problema nos primeiros momentos do filme, em sua aula de biologia. Ao ter como tarefa a dissecação de um anfíbio, o menino desfere golpes repletos de ira no animal já morto, como se descontasse algo na criatura. Com a ajuda da mãe, ele é manipulado a fazer o mal e afastar Callie da vida de seu pai. Numa determinada passagem, enquanto observa a sua mãe tomando banho, ela o chama para conversar e mostra a marca do parto, segundo ela, uma cicatriz que ela sempre tocou para lembrar da existência de seu filho querido. Ela inclusive pede que ele toque e explica que durante o seu parto, Kes demorou dois dias para nascer, numa prova cabal de seu interesse em permanecer atrelado ao corpo de sua mãe, “num laço eterno”.

Com começo convencional, meio já esperado e desfecho cheio de absurdos num penhasco, Paixão Assassina pede demais a nossa suspensão de qualquer verossimilhança, afinal, acredita ser cinema e por isso não precisa de realismo para justificar determinadas escolhas narrativas. Mas é complicado quando tudo fica absurdo e exagerado demais. O bem vence o mal, o tradicional põe o excêntrico em seu devido lugar e as coisas entram em sua devida ordem. Ao assumir a direção de fotografia, Elliot Davis trouxe ao filme alguns enquadramentos bem próximos da estética publicitária, interessantes e não menos artísticos que os padrões clássicos, tal como o design de produção de David Bomba e os figurinos de Deena Appel, parecidos com campanhas de perfumes com sua expressão visual carregada de sensualidade.

Paixão Assassina (Mother’s Boy/Estados Unidos, 1994)
Direção: Yves Simoneau
Roteiro: Barry Schneider, Richard Hawley
Elenco: Colin Ward, Jamie Lee Curtis, Joanne Whalley-Kilmer, Joey Zimmerman, Joss Ackland, Luke Edwards, Peter Gallagher, Vanessa Redgrave
Duração: 96 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.