Crítica | Paixão Obsessiva

Há algo de masoquista ao nos debruçarmos como espectadores de Paixão Obsessiva, suspense sobre um dos temas mais batidos da indústria hollywoodiana: as “mulheres obcecadas”. Com rostos famosos no elenco, a produção sequer se justifica pelo time de atores que passam por momentos vexatórios ao longo de suas carreiras. Visualmente básico, dramaturgicamente estéril e contextualmente injustificável enquanto reflexão social sobre a mulher na contemporaneidade, o suspense dirigido por Denise Di Novi é tão ruim que chega a ser bom. Paradoxal, não? Versarei sobre esta questão adiante.

Em tempos de discussões sobre as relações de poder entre homens e mulheres numa sociedade cada vez mais opressora, apesar de alguns avanços “ali” e “aqui”, Paixão Obsessiva se apresenta como um retrocesso. As personagens femininas, dirigidas e roteirizadas por mulheres, pasmem, surgem numa posição inadequada, subjugadas pelo masculino, numa repetição de clichês e estereótipos irritantes. Na tentativa de criar tensão e uma narrativa psicologicamente profunda sobre “fêmeas obcecadas por seus machos”, a cineasta faz rir quando deveríamos sentir pavor, num suspense onde as válvulas do humor involuntário são acionadas constantemente.

Vamos, então, ao enredo. Julia Banks (Rosario Dawson) é uma jornalista bem sucedida que vive na ferveção dos embalos de São Francisco, mas que decide mudar de vida, indo morar em outra cidade com o seu marido, isto é, ser uma dona de casa. David (Geoff Stults) pede que ela esteja preparada para a nova convivência, pois a mudança trará constantemente a sua filha Lily (Isabella Kai Rice), fruto de seu relacionamento anterior, para a dinâmica da família. O problema é que a garotinha não “anda sozinha”, mas acompanhada pela loira Tessa (Katherine Heighl), uma mulher frustrada pelo casamento fracassado com David.

O resultado desta produção é o que já vimos em numerosos filmes do mesmo tipo. A antiga esposa traça um plano infernal que tornará a vida de Julia um pesadelo sem precedentes. O que diferencia esta narrativa de outras é o alto teor de reviravoltas bizarras que deixariam até mesmo Syd Field confuso. O desenrolar das situações beira o bizarro, com destaque para a construção do personagem de Heighl, uma espécie de Barbie assassina psicótica que visualmente lembra as loiras de Hitchcock, mas que ao contrário das loiras incautas do mestre do suspense, encontra-se “a beira de um ataque de nervos”, “enraivecida na fúria” sem sexo. Tessa não aceita a vida bem sucedida com a nova esposa de David. Ela é invejosa e cheia de ressentimentos. Mistura indigesta de Atração Fatal com Instinto Selvagem, a antagonista de Paixão Obsessiva não é nada fatal, tampouco selvagem, mas um pastiche de todos os filmes ruins do subgênero “mulheres obcecadas”.

A direção do filme é mediana, preocupada milimetricamente com a tensão. Talvez o maior problema seja o roteiro, assinado pela dupla formada por Christina Hodson e David Leslie Johnson, um material dramatúrgico que pode ser pensado como retrocesso, haja vista a posição em que coloca as mulheres. Como se não bastasse tratar de uma editora bem sucedida que abdica dos seus sonhos por conta de um homem, há também a arena de gladiadoras por lutam por um pedaço de carne e de nervo do macho alfa, David, homem que encarna mal todos os clichês desse tipo de filme.

A polícia, como sempre, surge com a sua nobre incompetência. Sem conseguir enxergar os males da antiga companheira, David se estabelece como uma marionete até os momentos finais, numa narrativa conduzida por enquadramentos questionáveis e trilha desnecessária, repleta de clichês que não mudam em nada o avanço da trama.

Deslocado e sem uma gota de reflexão com base na abordagem polêmica sobre relacionamentos abusivos entre homens e mulheres, Paixão Obsessiva tenta aprofundar ao retratar o passado de Tessa, erguido com base na tortura psicológica de sua mãe, além de tentar alargar as fronteiras narrativas com um homem do mal que marcou o passado da vítima desta história, Julia, mas ambas as investidas não somam nada ao produto que já é ruim ao contar a história do presente, pior ainda quando busca aprofundar em tramas passadas para engrossar o caldo narrativo. O resultado é um desastre em quase todos os aspectos. Em suma, o filme é o que podemos chamar de “prazer com culpa”. Consumimos sabendo a ruindade do produto.

Paixão Obsessiva — (Unforgettable) Estados Unidos, 2002.
Direção: Denise Di Novi
Roteiro:  Christina Hodson, David Leslie Johnson
Elenco:  Katherine Heigl, Alex Quijano, Alex Staggs, Aline Elasmar, Cheryl Ladd, Geoff Stults, Isabella Kai Rice, James Augustus Lee, Jayson Blair, Katelyn Kay, Kincaid Walker, Lauren Rose Lewis, Leslie A. Hughes, Marissa D’Onofrio, Mitch Silpa, Robert Wisdom, Robin Hardy, Rosario Dawson, Simon Kassianides, Whitney Cummings
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.