Crítica | Paixão Sem Limite

Muito antes de Fixação, Alicia Silverstone marcou presença em sua estreia no cinema a interpretar mais uma das integrantes de um longo dossiê sobre mulheres psicóticas e obcecadas no cinema. Inspirado pela onda de Atração Fatal no final dos anos 1980, Paixão Sem Limite embarca no mesmo ritmo, mas com algumas diferenças, tanto estética quanto narrativas. Ao tratar de um tema polêmico, isto é, a relação voyeur repleta de desejo entre uma adolescente de 16 anos e um jornalista de 28, a trama expõe ao espectador bons momentos, mas no geral, perde o impacto por conta dos momentos pouco verossímeis e dos exageros em busca do “choque” diante das plateias.

Dirigido por Alan Shapiro, também responsável pelo roteiro, Paixão Sem Limite apresenta uma interessante metáfora em seu desenvolvimento, mesmo que a condução narrativa seja cheia de inconsistências e falta de verossimilhança, além de um arsenal de cenas emuladas de produções anteriores sobre o assunto. Em determinado momento, a personagem juvenil de Alicia Silverstone, tomada pelo ciúme corrosivo, aborda um interesse amoroso do protagonista e expõe uma pequena aula sobre as vespas, insetos que estão próximos da moça e serão utilizados para uma ação nada agradável contra uma vítima mais adiante.

Amy (Jennifer Rubin) é uma colega de trabalho que se envolve com Nick e causa um furor interior na jovem. Durante um churrasco, enquanto catava alguns gravetos num local próximo ao ambiente de comemoração, Amy é surpreendida por Darian. Ela aponta um enxame de vespas que pode atacar a qualquer momento, caso se sinta ameaçado. Importantes para o controle biológico, as vespas são insetos predadores naturais que eliminam diversas pragas, mas atacam humanos quando a mínima sensação de ameaça paira no ar. Seria Darian uma vespa maldita?

Noutro momento, ela reclama que é desconfia “que as pessoas a consideram um monstro”, pois a sua única amizade bem próxima é com uma garota vizinha filha da melhor amiga de sua mãe. Praticante de hipismo, ela está adiantada dois anos nos estudos escolares, o que a impede de fazer amizades com pessoas que tenham a sua faixa etária, bem como ideias e atitudes. É de se pensar se a garota é apenas uma antagonista do mal ou vítima das circunstâncias. As coisas no entanto não começam tão sombrias assim, ao contrário, vão evoluindo das luzes para as trevas.

O primeiro ato estabelece um clima de tranquilidade. Nick Eliot (Cary Elwes) é um jornalista bem sucedido em seu trabalho que acabou de mudar de cidade. Logo na abertura observamos a sua chegada animada, o lirismo no qual o design de som de Graeme Revell impõe, repleto de sons de aves e outras peculiaridades da natureza, um ambiente aparentemente próspero para alguém em busca de uma paisagem bucólica, versão urbanizada, mas calma de uma obra árcade. O que diferencia este clima é a presença de uma jovem que está bem longe de ser uma versão estadunidense da inatingível Marília de Dirceu.

Revelada com seus patins e jeans insinuante, Darian Forrester (Alicia Silverstone) parece o arquétipo da boa e doce garota adolescente americana, mas está muito mais próxima da Alice de Nelson Rodrigues, adolescente avançada do conto Diabólica, parte da coletânea A Vida Como Ela É, também similar ao personagem desenvolvido por Mel Lisboa na série Presença de Anita. A única diferença entre todas as comparações é que Nick, em momento algum, manterá um relacionamento com a jovem, ao contrário, ele se esquiva de todas as investidas, mesmo diante do enfeitiçador olhar e postura insistente da jovem lasciva e de caráter duvidoso.

Desta maneira é de se esperar que as pessoas que estejam próximas de Nick comecem a sofrer acidentes inexplicáveis. Será a garota agindo como uma psicopata assassina? Tudo indica que sim. Os pais da jovem sequer imaginam. Nick, esquivo constantemente, adentra numa rede de horror depois que Darian começa a atrapalhar a sua vida profissional, ao atentar contra o seu trabalho, deletando coisas do computador, dando cabo de fotografias, etc. Com acesso ao ambiente alugado pelo jornalista na chegada à cidade, isto é, a casa de aluguel da família da garota, Darian promove espetáculos de “birra” e violência por ter sido esnobada pelo vizinho. Indo mais a fundo em seu projeto de destruição, ela o acusa de estupro, situação que ocasionará novos rumos para o desfecho da narrativa.

Para contar a sua história, o cineasta Alan Shapiro teve apoio da direção de fotografia de Bruce Surtees, adequada ao enredo, sempre preocupada em tratar a luz de maneira a equilibrar suspense e surpresa, além de se movimentar pelos ambientes revelando detalhes bem específicos do design de produção de Michael S. Bolton, profissional que teve em sua equipe a cenografia de Paul Joyal e a direção de arte de Eric Fraser, eficientes na construção do quarto de Darian, dando-lhe um tom pueril, juvenil e inocente, o contrário da personalidade da jovem, bem como o ambiente de trabalho de Nick, revelador do lado trabalhador e compenetrado do personagem.

Outro detalhe técnico bastante relevante é a trilha sonora de Paixão Sem Limite, presente constantemente na condução dos personagens e de seus atos. O título original “The Crush”, termo popular há alguns anos no linguajar brasileiro, trata de paixões adolescentes, desejo por alguém fora de seu alcance ou até mesmo “tara”, algo potencializado ao passo que a narrativa avança, numa demonstração do abismo psicológico que toma a garota com força avassaladora. A tradução chega próximo ao esquema interpretativo do filme, sendo até mais adequado que o suave termo da versão original.

Ao longo de seus 89 minutos, Alicia Silverstone desenvolve bem o seu personagem, dando conta do papel que lhe foi atribuído, substituída por uma dublê nas cenas de nudez, haja vista ser menor de idade na ocasião das filmagens. Ela dosa bem o lado “ordinário” com o angelical, principalmente numa cena em que toca divinamente piano na festa ofertada pelos pais aos amigos e contatos de trabalho. Graças aos figurinos de Sharon Purdy, a garota versa entre o pudico e o sensual, mesclando estilos que delineiam o seu perfil psicológico perturbado.

Paixão Sem Limites — (The Crush) Estados Unidos, 1993.
Direção: Alan Shapiro
Roteiro:  Alan Shapiro
Elenco: Alicia Silverstone, Cary Elwes,  Jennifer Rubin, Amber Benson, Kurtwood Smith, Matthew Walker, Deborah Hancock, Sheila Paterson
Duração: 89 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.