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Crítica | Palavra de Roteirista, de Lucas Paraizo

por Leonardo Campos
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Há um numeroso conjunto de publicações sobre os exercícios de um roteirista durante o cumprimento de sua tarefa numa produção audiovisual. Quase todos são semelhantes, geralmente guiados por uma linha reflexiva que geralmente oferta aos leitores uma lista de dicas aos que estão em busca de enfrentar o desafio intelectual e desenvolver uma história para cinema. Há, no entanto, um diferencial de Palavra de Roteirista, de Lucas Paraizo. Diferente do processo mais em prática, isto é, publicar o texto verbal para depois transformá-lo em imagens, o livro em questão é a descrição completa dos depoimentos selecionados para o documentário O Roteirista, material também gerenciado por Paraizo.

Formado em Jornalismo pela PUC-Rio, instituição que hoje é um de seus espaços de atuação profissional, o autor carioca é um dos contratados da Rede Globo e já assinou séries como Amores Roubados, Sob Pressão, além dos filmes Gabriel e a Montanha, Aos Teus Olhos, etc. Formado em Cinema pela Universidade de Cuba, Lucas Paraizo estudou cinema na Espanha e traz em sua bagagem referências cinematográficas e literárias que fizeram parte de sua formação cultural. Ao estudar e atuar em Jornalismo ele percebeu que as narrativas eram contadas com muita pressa, sem o devido aprofundamento para compreensão. Nesse quesito, há um depoimento bem interessante do autor e que amarra o parágrafo biográfico de maneira bem elucidativa: “a dramaturgia é o ponto de convergência de minha vida”.

Com depoimentos de roteiristas experientes que entendem as leis do mercado, o processo criativo e outros temas que delinearemos com maior ênfase adiante, o livro é um rico material para interessados em cinema, em especial, aos que desejam exercer a função de roteirista. Com linguagem leve, respostas sem elucubrações desnecessárias e profundidade que designa seriedade na proposta de dar maior ênfase aos seres humanos por detrás de cada história contada ao público, Palavra de Roteirista demonstra ser uma satisfatória jornada pelo campo da dramaturgia no Brasil, oportunidade para pensarmos nossas práticas intelectuais e o fortalecimento do campo dos roteiristas, haja vista o interesse exclusivo de algumas instituições e profissionais pelo manancial de regras propostas pelos manuais de Syd Field e Robert McKee.

Essa observação, por sinal, não pretende desvalorizar o material estrangeiro citado anteriormente, mas apenas fazer repensar que não é a única solução para os interessados em criar narrativas. Ato I, Ato II, Ato III, pinça, ponto de virada, etc. Será que todo filme precisa mesmo ser assim para funcionar bem? Ou será que tais regras criou um público viciado em narrativas engessadas e previsíveis? Os manuais são comentados ao longo do livro, sendo apenas uma das partes de um feixe de temas férteis para o debate acerca da crescente cinematografia brasileira.

Com projeto editorial de Manuela Ribeiro para a capa e a diagramação, projeto que torna a leitura do livro ainda mais atraente, Palavra de Roteirista é um livro que se propõe a explicar ao público que um profissional dessa área não se forma em poucos meses. Não basta fazer uma oficina e sair por ai acreditando que domina a gramática do Cinema e da TV. Como professor de Cinema e Audiovisual, já apontei aos ouvintes em diversas ocasiões (palestras, oficinas, sala de aula) que é importante aprender os primeiros passos, ganhar “base”, para depois se arriscar no mercado. Isso não impede, portanto, o exercício da prática contínua, tendo em vista amadurecer a escrita.

Ao longo do elucidativo prefácio, a cineasta Flávia Castro questiona o leitor com a seguinte pergunta: o que esperar de um livro sobre 21 roteiristas que dividem a sua experiência com o público? A resposta, caro leitor, está em cada linha desta reflexão que pretende reforçar para você o quão importante é Palavra de Roteirista, uma publicação que sai do confortável lugar comum e das regras engessadas do que pode ou não pode funcionar em um filme. “Vivo” e vibrante, com depoimentos que nos deixam numa sensação de proximidade com os roteiristas entrevistados, o livro de Lucas Paraizo é um acerto, tal como as inserções do roteirista em diversas séries e filmes brasileiros dos últimos anos.

Palavra de Roteirista (Brasil, 2011)
Autor: Lucas Paraizo
Editora no Brasil: Senac
Páginas: 436

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1 comentário

Junior Oliveira 19 de fevereiro de 2019 - 15:30

Olá, Leonardo! Não sabia que você dava aula de cinema, bem interessante. Você acredita que uma formação na área possibilita um melhor acesso à produtoras ou a própria industria?

Te pergunto porque, vendo de fora, não sinto que há uma expansão da escrita cinematográfica em curso no Brasil. Há, sim, um cinema autoral no país se destacando em festivais (mas que infelizmente nem sempre são lançados comercialmente — mas isso já é outro assunto).

Confesso que já entrei em contato com produtoras na expectativa de ter um roteiro analisado por eles. Um bom número me respondeu, aliás, e forneceram algumas dicas importantes. Mas, não sei, parece ser um “clube” difícil de fazer parte.

Um abraço!

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