Crítica | Palavra e Utopia

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Nem todos os anos que passam se vivem: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los.

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, em 1608 e morreu em Salvador, em 1697. Sua trajetória religiosa é bastante conhecida e lembrada aqui no Brasil, dada a íntima ligação do padre com a então colônia de Portugal e as ideias bastante à frente de seu tempo que iria defender, como o questionamento da escravidão, das relações violentas entre os governadores gerais e os índios e as relações administrativas (de cunho social e, por tabela, também religioso) entre o Império e a Colônia.

Quando dirigiu Palavra e Utopia, em 2000, o cineasta Manoel de Oliveira estava prestes a completar 92 anos de idade, e em diversas entrevistas atestou que este filme era um exercício onde a maturidade encontrava a simplicidade e tentava fazer muito com o mínimo possível. De fato, Palavra e Utopia é um filme que une o caráter da severidade religiosa com uma técnica simples, guiada por planos-sequência, por pouca movimentação de câmera, grande contemplação e muitos, muitos discursos e sermões, o que torna o filme bastante lento (mais lento do que aquilo que normalmente esperamos de Oliveira), comprometendo um bocado a nossa experiência.

O roteiro, também de Oliveira, parte da cidade de Coimbra, em 1663, quando o padre Antônio Vieira tem uma audiência com o Tribunal do Santo Ofício. Esta será apenas uma de suas muitas batalhas contra a máquina e a politicagem eclesiástica portuguesa, diante da qual Vieira não tinha medo ou pudores para falar e criticar. Três grandes blocos narrativos formam o filme, o primeiro e mais fraco deles sobre a juventude que o homem passou no Brasil. Neste estágio, o religioso é interpretado por Ricardo Trêpa (neto de Oliveira), que faz um trabalho correto, mas não memorável, do primeiro sucesso de Antônio Vieira no púlpito. Já aí podemos ver uma força nos discursos que está mascarada pela inexperiência da idade e que, pouco a pouco, virá à tona, especialmente nas fases da vida do personagem à qual dão vida os atores Luís Miguel Cintra e principalmente Lima Duarte, que entrega uma soberba performance, com algumas cenas de pregação de sermões que nos movem imensamente.

Em meio ao vagar do tempo, o espectador não só entende as ideias (e o princípio delas) defendidas por Antônio Vieira, mas também tem uma boa pesquisa histórica que acompanha os passos do padre ao longo da vida. A amizade dele com o rei D. João IV, sua proibição pelo Tribunal de falar em público, seu refúgio em Roma, o favor do Papa para com ele, o papel de confessor da Rainha Cristina da Suécia, seu retorno a Portugal e depois ao Brasil, tudo isso está no filme como passagens marcantes da vida de um homem que enfrentou obstáculos dentro de seu meio de fé e também da sociedade de seu tempo, que o via com pensamentos perigosos para a nação e para a Santa Madre Igreja. Como se vê, a defesa dos oprimidos, mandamento e prática do próprio Cristo, não é apenas um estranho tabu em nossos tempos. Dentro da própria igreja e já no século XVII, notava-se os que viam “grande ameça” nos discursos de defesa de índios e negros por um religioso.

Além da já citada lentidão incomum da película, pesa consideravelmente a edição pouco dinâmica, com passagens de tempo marcadas por textos na tela e ligações de blocos que desprendem o espectador de uma sequência e não o compensa no bloco seguinte, pelo menos não inicialmente. Palavra e Utopia é um longa que tem ares documentais (figurinos, direção de arte, fotografia e idiomas falados são excelentes exemplos de um correto e exigente contexto histórico), representando Antônio Vieira com grande cuidado e respeito, principalmente na terceira fase de sua vida, a mais apaixonada e intensa em suas defesas teológicas e sociais. Um daqueles filmes cujos problemas não conseguem tirar muita coisa da grandeza que se vê em tela. Amém por isso.

Palavra e Utopia (Espanha, Itália, França, Brasil, Portugal, 2000)
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Lima Duarte, Luís Miguel Cintra, Ricardo Trêpa, Miguel Guilherme, Leonor Silveira, Renato De Carmine, Diogo Dória, Paulo Matos, António Reis, Canto e Castro, José Pinto, José Manuel Mendes, Rogério Vieira, João Bénard da Costa, Ronaldo Bonacchi
Duração: 130 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.