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Crítica | Palavras que Borbulham como Refrigerante

por Kevin Rick
6598 views (a partir de agosto de 2020)

Palavras que Borbulham como Refrigerante (um título que parece ridículo em um primeiro momento, mas que casa muito bem com a história do filme) é seu típico anime slice of life – um termo bonitinho para um gênero que é basicamente melodrama adolescente japonês. A narrativa acompanha o romance de dois jovens inseguros que procuram se expressar através de redes sociais. O rapaz tem problemas para se comunicar verbalmente, então busca no haiku – uma espécie de poesia japonesa, mais objetiva, menor e cotidiana – uma forma de manifestar suas emoções, as postando no Twitter. Já a moça tem um complexo de aparência com seus dentes “avantajados” e o uso de aparelhos, então sempre usa uma máscara, além de esconder suas vulnerabilidades através de vlogs para seus milhares de seguidores.

Soa como uma premissa meio bobinha, e de certa forma ela realmente é, mas é interessante notar o quão realista é o enredo. Falar em público, usar aparelho, ter espinhas, entre outras adversidades normais do nosso crescimento, podem ser, e majoritariamente são, monstros durante a adolescência. O primeiro ato do filme é um bom retrato do impacto da falta de confiança na juventude, com o romance da dupla sendo desenvolvido por um olhar introspectivo de seus respectivos dramas.

A animação acaba falando mais alto do que os personagens quietos no começo da obra. O mundo vibrante e colorido que retrata o universo fantasioso tecnológico criado pela protagonista feminina, como nos enquadramentos de tela de celular, assim como exteriorizam o viés poético do protagonista e seus haikus – percebam como suas cenas se constroem com o silêncio e o olhar de detalhes que serão partes das suas criações escritas. Também gosto bastante como o visual exterioriza as inseguranças dos personagens, como nos enquadramentos do quarto do rapaz que passam esse sentimento de enclausurado, da mesma forma com ela e as várias sequências que a vemos pela tela do celular. São personagens presos por seus dramas e suas respectivas válvulas de escape, e quando estão juntos, normalmente os vemos caminhando em um plano aberto entre jardins e o pôr do sol; libertos. É um coming of age piegas? Certamente. Contudo, a narrativa clichê é elevada pelo deslumbramento visual, além das boas sacadas de vincular o haiku e a tecnologia com a imagem.

Infelizmente, da metade pra frente a obra começa a se perder. Todo o progresso contemplativo da dupla é explicado através de uma montagem acelerada. O filme sempre teve o fator piegas, mas rapidamente perde sua construção íntima para dar espaço ao segundo ato de “caça ao tesouro”. Os personagens descobrem que um senhorzinho que auxiliam está a procura de um disco perdido da sua falecida esposa, e toda a narrativa é deslocada para a aventura apática. Existe uma mudança de abordagem abrupta no filme, preferindo não se aprofundar no romance ou conflitos dos personagens, para manter o viés de história fofa com a inserção de outro romance piegas.

Dessa forma, o interessante retrato das inseguranças é resignado às superficialidades dos personagens que viram caricaturas de si mesmos pela falta de tempo dado ao desenvolvimento da sua relação a partir do meio do filme. Até mesmo a animação se torna mundana e carece da criatividade, das cores vivas e do senso de movimentação do primeiro ato. Palavras que Borbulham como Refrigerante se inicia como um romance formulaico visualmente lindo com potencial narrativo para o drama de insegurança, mas decide se manter em uma embalagem supérflua com a dramaturgia cafona – especialmente o desfecho que preza pelo sentimentalismo pobre. Ainda é charmoso, fofo e bonitinho, mas termina vazio e esquecível.

Palavras que Borbulham como Refrigerante (Cider no You ni Kotoba ga Wakiagaru) – Japão, 22 de julho 2021
Diretor: Kyohei Ishiguro
Roteiro: Dai Satô
Elenco: Somegorô Ichikawa, Hana Sugisaki, Victoria Grace, Megumi Han, Natsuki Hanae, Kikuko Inoue, Yuuki Luna, Ivan Mok, Sumire Morohoshi, Megumi Nakajima, Ratana, Yuichiro Umehara, Kôichi Yamadera
Duração: 87 min.

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