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Crítica | Palmer (2021)

por Ritter Fan
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Não tenho e nunca tive o menor interesse em Justin Timberlake, o cantor, mas, curiosamente, desde que o vi como Sean Parker em A Rede Social, em 2010, reputo-o como um dos mais interessantes e promissores casos de ponte entre carreira musical e cinematográfica e Palmer, um filme que não se arrisca muito, mas entrega todo o tempo de câmera possível para ele, mostra bem o que ele é capaz de fazer. Dirigido por Fisher Stevens, ator que migrou para a direção, mas que está apenas em seu terceiro longa de ficção, tendo dirigido diversos documentários, e com um roteiro de Cheryl Guerriero, também em seu terceiro trabalho, o drama é construído em cima de uma estrutura clichê que sabe apertar todos os botões sentimentais corretos e que funciona como uma espécie de manual simplificado anti-preconceito de gênero.

Timberlake vive o personagem-título que, após 12 anos na prisão, sai em condicional e retorna para a casa de sua avó, que o criara desde adolescente, em Sylvain, Louisiana. Completamente sem rumo, Palmer encontra propósito ao afeiçoar-se por um garoto de sete anos que mora com a mãe drogada em um trailer ao lado de sua casa. Sam, interpretado por Ryder Allen em sua estreia cinematográfica, sofre todo tipo de bullying por gostar de brincar com bonecas, de assistir animações “para” meninas e por vestir-se de maneira diferente, ou seja, uma criança “fora dos conformes” que a sociedade espera, especialmente em uma cidadezinha do sul dos EUA como a que vive. É aquela boa e velha história de almas problemáticas que encontram apoio e força uma na outra, um dos sustentáculos narrativos da Sétima Arte.

Apesar de a vida pregressa de Palmer ser trabalhada no roteiro de maneira competente, o que realmente importa é seu presente, basicamente o mesmo que esperamos de um ex-condenado em filmes e na realidade, sendo alvo de todo o preconceito da população ao seu redor e mal conseguindo emprego de subsistência. Mas essa caracterização básica é apenas a infraestrutura sobre a qual Timberlake constrói seu personagem por intermédio de um trabalho muito convincente do ator em passar emoções reprimidas e em lutar contra si mesmo por diversas vezes, seja para entender quem exatamente é o pequeno Sam, seja para não fazer besteira e violar sua condicional. O pequeno Allen também mostra futuro em um papel difícil de fazer, mas que ele consegue com uma enorme naturalidade, além de estabelecer química imediata com Timberlake.

Mas, como disse, o filme não ousa, não se entrega, não tenta ser mais duro do que o mínimo necessário para passar sua mensagem. Isso não é exatamente um problema terrível, pois tenho consciência de que foi uma escolha deliberada da roteirista e do diretor, mantendo todo o apelo dramático do longa, mas sem realmente mergulhar no problema da violência e do preconceito, de certa forma suavizando as situações e tratando muita coisa off camera para talvez atingir o maior público possível. Vejo esse caminho como o mais fácil, sem dúvida, mas, diante do tema tratado no que se refere ao garoto e considerando o quanto há de preconceito sobre isso ainda no mundo, Palmer tenta dar baby steps para não ferir muitas suscetibilidades, funcionando como uma aula introdutória à questão, pelo menos como uma forma de reconhecer que sim, isso existe e virar o rosto para ela ou negá-la teimosamente não a fará desaparecer.

No entanto, a escolha de se trilhar apenas pela superfície da proposta cobra seu preço e o mais caro deles é resultar em um filme que troca complexidade por água com açúcar com o objetivo de tirar lágrimas do espectador e que, mesmo não entregando respostas de bandeja sobre Sam, encaixa uma conveniência atrás da outra para tornar tudo bem mais digerível do que talvez devesse ser, quase que resvalando na seara do conto de fadas. E justamente por isso, ou seja, pela narrativa ser muito simplificada, Stevens não consegue manter cadência narrativa que justifique a duração do longa que teria se beneficiado de uma progressão um pouco mais acelerada que queimasse quase toda a gordura que vem em seguida à conexão de pai e filho que Timberlake e Allen tão bem estabelecem.

Palmer tem, claro, o grande mérito de abrir espaço para excelentes atuações dos dois atores principais, com especial destaque para Timberlake e sua capacidade não exatamente camaleônica, pois ele não é um artista tão completo assim ainda, mas capaz de convencer em sua evolução de ex-condenado sem futuro em um homem capaz de qualquer coisa por um garoto tão ou mais perdido do que ele. Não é todo mundo que consegue carregar um filme nas costas e o ator mostra que não tem medo algum de pegar no pesado e fazer mais pelo roteiro do que o roteiro faz por seu personagem.

Palmer (EUA, 29 de janeiro de 2021)
Direção: Fisher Stevens
Roteiro: Cheryl Guerriero
Elenco: Justin Timberlake, Ryder Allen, Alisha Wainwright, June Squibb, Juno Temple, Jesse C. Boyd, J.D. Evermore, Lance E. Nichols, Dean Winters, Jay Florsheim
Duração: 110 min.

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