Crítica | Pânico 3 (Trilha Sonora Original)

Longe do clima estudantil dos filmes anteriores, Pânico 3 pegue a estrada para Hollywood. A produção, dirigida mais uma vez por Wes Craven, sem a presença do roteirista Kevin Williamson, embarca na metalinguagem para nos apresentar os bastidores de A Punhalada 3, o filme dentro do filme, sucesso comercial que suga os traumas dos personagens para transformá-los em produto ficcional. Cotton Weaver, agora apresentador de talk show, tornou-se uma celebridade depois dos acontecimentos de Pânico 2 e o trio principal segue a sua vida tentando se adequar ao que chamamos de normalidade.

Sidney agora mora distante, solitária, atende vítimas de traumas por telefone, num serviço de apoio. Gale segue com suas palestras e Dewey, conhecedor do que aconteceu em Woodsboro, trabalha para o estúdio e fornece dicas técnicas para a realização de A Punhalada. Novos crimes começam a ocorrer e alguém desejar saber o paradeiro de Sidney. É quando os conflitos internos externos de seus personagens começam a se espalhar como um rizoma pela narrativa, conduzida musicalmente mais uma vez pela textura percussiva de Marco Beltrami, repleta de inserções com gritos oriundos de sopros em instrumentos de madeira, dentre outras estratégias de composição musical, tendo a banda de rock Creed como produtora executiva da trilha sonora com faixas de rock alternativo, nu metal e metal alternativo, subgêneros que regem o conteúdo da produção.

Beltrami para unhar os instrumentos em busca de uma música agressiva que tenha como resultado, o estabelecimento de uma atmosfera agressiva e tensa para o que se pensava ser o desfecho definitivo para a franquia. A manipulação da música orquestrada com os aparatos eletrônicos foram as marcas registradas das trilhas anteriores, algo que também esteve marcado ao longo do terceiro filme, condução sonora que ganhou novos toques: o piano estava presente, mas foi manipulado e “distorcido”, além dos interessantes efeitos de sinos tubulares. “Pies as Terror” e “Home Sweet Home”, orquestradas com a presença de vocais duais, feminino e masculino, respectivamente, trazem para a textura percussiva a temática irmãos em conflitos. É um trabalho simbólico interessante. Em “On The Set”, sentimos a presença de Trouble in Woodsboro, além de noutros trechos, as presenças notáveis de emulações de Bernard Hermann e Hans Zimmer.

Há, também, no campo da produção, os nomes de Steve Lerner, Joel Marker, Randy Spendlove e Ed Gerrard. Ao longo de suas 15 faixas, Pânico 3 – Trilha Sonora Original avança para o campo sonoro mais “pesado”. A presença do nu metal é bem notável. Subgênero do heavy metal, o estilo é conhecido pela presença dos sintetizadores, teclado, bateria, baixo, vocal, guitarra de sete cordas, instrumento que permite alcance de tons mais graves, numa sonoridade que também traz uma fusão musical que mescla elementos do hip hop. O metal alternativo, outra ramificação do heavy metal produz arranjos com guitarra, baixo, bateria e vocais com letras pouco convencionais e ritmo experimental, cheio de técnicas “extravagantes”.

Do rock alternativo, já sabemos que há a presença de sons distorcidos das guitarras e postura composicional que busca distanciar-se do que é produzido pelo mainstream. São essas características que dão forma aos versos de What If (Creed), Wait and Bleed (Slipknot), Suffocate (Finger Eleven), Spiders (System Of a Down), Automatic (American Pearl), Fall (Sevendust), Time Bomb (Gosdmack), Tyler’s Song (Coal Chamber), So Real (Static-X), Crowded Elevator (Incubus), Debonaire (Dope), Sunburn (Fuel), Get On, Get Off (Powerman 5000), Wanna’ Be Martyr (Full Devil Jacket), Dissention (Orgy), Crawl (Staind), Click Click (Ear2000) e Is This The End (Creed).

Creed foi uma banda de pós-grunge que esteve em atividade entre os anos 1993 e 2004, com um hiato até o reencontro entre 2009 e 2012. Com Scott Stapp no vocal, Mark Tremonti na guitarra, Scott Phillips na bateria e teclado e Brian Marshall no baixo, os envolvidos colaboraram com a produção do álbum na inserção de suas faixas, além de produzir videoclipes com os personagens em situações remissivas ao filme. What If parece uma canção de Roman, irmão de Sidney, a justificar a sua vingança. “E se?”, questiona o refrão, numa faixa que traz versos como “eu sei que não devo guardar o ódio dentro de minha mente”, “por que o que consome seus pensamentos controla a sua mente”.

Em Is This The End, os vocais do Creed, acompanhados pelo arranjo do metal alternativo, expõem versos como “a raiva em meus olhos pode ser comparada com o olho do sol”. São faixas bem pontuais e expressivas no que tange aos eixos temáticos de Pânico 3. O retorno de Red Right Hand, de Nick Cave and The Bad Seeds foi uma boa escolha, apesar da faixa não ter sido inclusa no álbum. Spiders, do prestigiado System Of a Down, versa sobre “sonhos retorcidos na cabeça”, música que coaduna com Suffocate, da banda Finger Eleven, cacofônica ao repetir constantemente que “está para sufocar, coberto pelo que não pode respirar”.

Na capa, a máscara de Ghostface aparece, ameaçadora, num padrão diferente dos álbuns anteriores. O encarte evita as cenas do filme para apresentar uma pequena foto e ficha técnica de cada grupo musical participante do processo. Há os notáveis agradecimentos e uma imagem do elenco numa montagem fixada na área que fica abaixo da mídia. Ademais, o design de Ed Gerrard mescla o vermelho e o preto, simbólicos da violência e do luto que permeiam a narrativa. Após 10 anos, Marco Beltrami retornaria ao novo evento “Pânico”, o quarto filme da franquia, acompanhado pelo diretor, roteirista e elenco principal: um banquete cinematográfico.

Pânico 3 – (Trilha Sonora Original)
Artista: Marco Beltrami, Creed
País: Estados Unidos
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: rock alternativo, textura percussiva, nu metal, metal alternativo

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.