Crítica | Pânico no Mar (2005)

Ataques de tubarões são acontecimentos constantemente atenuados no bojo da cultura da mídia. As pessoas gostam de contemplar a dor, a violência e o medo do que seu público consumidor muitas vezes desconhece. Recentemente, num breve intervalo, a mídia divulgou um ataque de tubarão na Austrália que ocorreu numa praia segura, indicada para banhos, próximo de uma barreira de corais. Noutro caso, num passeio de barco, turistas que acessaram o mar foram atacados e um deles perdeu a perna. O cinema urra de prazer diante desses relatos, materiais potencialmente poderosos para a realização de filmes, tal como faz Pânico no Mar, de 2005.

O fenômeno das praias não é algo novo, mas sabemos que a humanidade cada vez mais tem ampliado as suas atividades de cunho recreativo, o que constantemente expõe que os animais estão cada vez mais ameaçados em seus espaços físicos. Pânico no Mar não reflete nada disso, aliás, seu roteiro pouco reflete alguma coisa, mas o encadeamento dos fatos nos leva a fazer tais associações. A abertura é emblemática: quatro mulheres, donas de casa, desesperadas por descanso e férias, banham-se em suas boias e joias em plena praia, numa região aparentemente profunda, antes do ataque ceifá-las de maneira bem humorada.

Elas provavelmente esqueceram que mesmo sendo o litoral uma linha costeira dos centros urbanos ou de locais bem habitados, o oceano é basicamente como a floresta, espaço de beleza e sobrevivência das espécies selvagens. Sob a direção de Paul Shapiro, guiado pelo roteiro de James LaRosa, Pânico no Mar foi produzido exclusivamente para a televisão, com imagens captadas entre a África do Sul e os Estados Unidos. Ao longo de seus 88 minutos, a aventura de horror não muda em nada no que diz respeito ao esquema dos filmes de tubarões que atacam, dentre tantos, jovens incautos.

Desta vez temos Danielle (Shannon Lucio), jovem que mente para os pais e diz que deslocou-se para determinado local nas férias, quando na verdade está com as amigas na Flórida. Não há minúcias na explanação dos motivos da mentira, mas o que se percebe é que ela e suas amigas Karen (Bianca Lislansky) e Alicia (Genevieve Howard) querem se divertir bastante, principalmente após o primeiro dia de chegada, já rodeado de rapazes interessantes em puro flerte, em especial Shane (Riley Smith), estudante de engenharia que se tornará interesse da protagonista.

Entre uma bebida e outra, acompanhada de danças sensuais e jovens quase nuas, Danielle decide visitar o seu irmão Charlie (Wayne Thornley), responsável pela tarefa de alerta em relação aos possíveis ataques de tubarões na região. Como a base dramática nós já conhecemos, o óbvio se estabelece: Danielle e seus amigos, bem como todos os demais jovens da região, numa época de pura diversão, sequer levam à sério o alerta e divertem-se nas águas refrescantes das praias que apresentam o perigo logo adiante: tubarões sedentos por destroçar corpos humanos.

Para piorar, uma infame festa num barco já foi organizada e muitos jovens, alcoolizados e despreparados para situações desafiadoras, se tornarão vítimas de um pesadelo criado por Niel Wray, supervisor de efeitos visuais da produção, isto é, os tubarões velozes, famintos e agressivos. Basicamente, Pânico no Mar, tal como as demais cópias de baixo orçamento posteriores ao clássico de Spielberg adentram a seara da estética camp. São realizadores conscientes da ruindade diante do interesse de fazer algo extraordinário.

Com diálogos limitados, desempenhos dramáticos sem qualquer bom momento e excessos que nos mostram uma tentativa de chocar pela falta de conteúdo, a produção naufraga diante de sua condução bizarra. A direção de fotografia de Michael Alan Brielery faz o básico, com breves imagens subaquáticas, algumas que parecem ter sido de fotógrafos mergulhadores, material comprado e utilizado na mesa de edição. A condução sonora de Danny Lux é pouco interessante, até passa pouco perceptível tamanha a sua inexpressividade. Os tubarões, sem dúvida alguma, mereciam um tratamento melhor nesse filme.

Pânico no Mar (Spring Break Shark Attack/África do Sul/Estados Unidos, 2005)
Direção: Paul Shapiro
Roteiro: James LaRosa
Elenco:Bianca Lishansky, Bryan Brown, Genevieve Howard, Justin Baldoni, Kathy Baker, Riley Smith, Shannon Lucio, Warren McAslan, Wayne Harrison, Wayne Thornley
Duração: 88 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.