Crítica | Pânico (Trilha Sonora Original)

Fenômeno de crítica e de público quando lançado, Pânico trouxe oxigenação aos filmes de terror. Após duas décadas de lançamento, o filme que se tornou uma interessante franquia deu origem ao novo slasher, subgênero que ganhou revitalização e depois de tantas produções que copiavam a sua fórmula exaustivamente, entrou num processo de saturação por volta de 2001, um ano depois da exibição do suposto último episódio da franquia, Pânico 3, história retomada em 2001, num filme comemorativo com Ghostface na era da maior democratização dos elementos da cibercultura. Há também duas séries televisivas com produção executiva de seu idealizador cinematográfico, Wes Craven, programa veiculado pela MTV que adentrou no limbo e ganhou em 2019 a sua terceira temporada, renovada, com estilo visual semelhante aos filmes, mas escolhas dramáticas diferentes, algo que causou certo estranhamento do público acostumado a ver sempre as coisas com o mesmo olhar, sem aderir ao desapego.

Na ocasião, diante do interesse atual por um antagonista criado em 1996, eis que surge a necessidade de entendermos um pouco mais sobre o universo, agora sob o ponto de vista de suas trilhas sonoras. Lançada pelo selo Warner B., a trilha sonora original de Pânico possui 46 minutos e trinta segundos de duração. Alysson Wellis assinou a coordenação geral do álbum, profissional que trouxe a dupla Jeffrey Kimball e Beth Rosenblatt para assumir o posto de produtores executivos de um álbum que traz canções com traços do rock alternativo, gênero que flerta com os vocais acompanhados de guitarras, bateria e uso do teclado como instrumentos mais significativos, originados das ressonâncias mixadas do punk rock, pós-punk, new wave, college rock e hardcore punk. As distorções provenientes do uso especifico da guitarra seguem o caminho das letras transgressoras e ácidas, geralmente com críticas ao sistema em altas doses de ironia, mesmo nas composições mais simples.

A trilha sonora possui 11 faixas. Como destaque, selecionei Don’t Fear (The Reaper), cover de Gus Black para o sucesso da banda Blue Oyster Cult; Youth of America, da banda Birdbrain; e School’s Out, cover da banda The Last Hard Men para a famosa canção de Alice Cooper, de 1982. Faixas como Whisper To a Scream e Whisper, do grupo musical Soho e de Catherine, respectivamente, são presenças relevantes, mas sem a mesma função narrativa que as quatro faixas selecionadas. Enquanto Whisper trata de questões como a dor e a solidão, o estilo new wave empregado no cover da banda The Icicles Works, realizado pelo grupo Soho na faixa Whisper To a Scream, reforçam o estilo geral da trilha, principalmente em versos como “noite, envia o sol afastado”, numa alegoria interessante para o medo da noite sombria de Woodsboro, cidade interiorana tomada por crimes hediondos.

Interessante é observar que em Pânico, Ghostface não se importa muito com isso, pois alguns assassinatos ocorrem em plena luz do dia. Em Youth of America, o estilo pós-grunge se faz presente para ritmar versos como “faça uma oração pela juventude da América”. Com tom menos intenso que o grunge padrão, a faixa mescla as guitarras elétricas e acústicas numa canção que flerta com as necessidades dramáticas dos personagens da trama, diante de seus conflitos internos, dentre eles, o medo da morte e a insegurança. A sensação da escola como um espaço infernal é algo que fica delineado na trajetória de Sidney Prescott: a sua mãe adúltera assassinada bruscamente é algo que a persegue constantemente, traço dramático presente na textura das faixas instrumentais de Marco Beltrami e nas letras de School’s Out e Don’t Fear (The Reaper). No primeiro caso, a faixa cover da famosa música de Alice Cooper reflete o inferno do ambiente escolar, local considerado sufocante, canção que ganha uma espécie de desdobramento na faixa do grupo Nick Cave and The Bad Seeds, constantemente a expressar o imperativo “Não Tenha Medo do Ceifador”.

No caso de School’s Out, temos a presença do rock mais pesado que o tradicional, regidos por meio de solos acompanhados de riffs que refletem o comportamento transgressor da letra, uma espécie de ode ao sentimento de liberdade, pois como refletem alguns versos, “bem, nós não temos aula”, “a escola foi explodida em pedaços” e “nós não temos inocência”. Em Don’t Fear (The Reaper), adentramos numa atmosfera musical que inspirou e serviu de inspiração para um processo intenso de trocas simbólicas entre as artes. Trocando em miúdos: a faixa inspirou Stephen King a escrever A Dança da Morte, livro transformado em minissérie televisiva. A canção, por sua vez, inspirou-se no estilo literário de King, além de ter traços de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, escritores que influenciaram de modo geral as composições da banda. O verso “Vamos baby, não tenha medo do ceifador” se impõe como irônico, pois toca de maneira discreta em segundo plano, no momento em que Sidney discute relação com Billy, namorado que apesar das suspeitas, ainda não havia apresentado de vez o seu lado monstruoso e desequilibrado.

A faixa é conhecida por seu uso constante do cowbell, instrumento de percussão de som cilíndrico e que nos remete ao idiofone (da mesma família sonora), utilizado para acentuar o ritmo e obter alturas distintas ao longo da execução musical. Outro destaque é Read Right Hand, composta e conduzida por Nick Cave and The Bad Seeds. Faixa também significativa, a sua análise é delineada na crítica ao álbum Pânico 2 – Trilha Sonora Original, pois também se encontra no material sonoro da sequência de 1997. Feita a análise deste conjunto de faixas, vamos agora ao processo de reflexão da composição musical de Marco Beltrami, responsável pelas texturas das trilhas dos quatro filmes da franquia.

Em entrevistas e informações de bastidores, Beltrami narra que em 1996, ainda era um músico com pouca experiência, apesar de formação teórica bastante firme. Wes Craven o convidou depois da indicação de uma pessoa da produção. O cineasta, juntamente com o editor Patrick Lussier apresentaram os 13 minutos iniciais do filme e solicitaram que o músico compusesse com base no trecho, dando-lhe dicas de como alterar picos musicais na intenção de quebrar as expectativas do público já experiente com os clichês dos filmes de terror, reinventados ao longo da estrutura da produção. Desta maneira, Beltrami seguiu com o material e deu continuidade ao processo criativo, primeiro passo para uma parceria longa em outras realizações, tais como Voo Noturno, Amaldiçoados, A Sétima Alma e Pânico 4, último filme de Wes Craven, realizado em 2011, ano de lançamento da versão deluxe da trilha, com a partitura completa, num conjunto de faixas que alcançam 63 minutos de duração.

Entre o gênero slasher, filmes de vampiros e outras monstruosidades, Beltrami também orquestrou Águas Rasas e teve como um dos últimos trabalhos, a poderosa condução sonora de Um Lugar Silencioso. Para Pânico, o músico trouxe traços do Western, dando ao detetive Dewey um acompanhamento de guitarra com outros instrumentos que justapostos, sonoramente nos remete ao estilo de Ennio Moricone. Em Trouble in Woodsboro (Sidney’s Lament), grande destaque instrumental presente nos quatro filmes, Beltrami emprega um tom profundamente triste para representar musicalmente a final girl da franquia. Um arranjo elaborado juntamente com um coral feminino expressa a dor e o sofrimento da personagem de passado sombrio que a persegue constantemente.

É um tema que cria uma atmosfera de assombro, com ritmo cuidadosamente empregado para estabelecer a catarse de Sidney diante das constantes perdas: a morte de sua mãe, o namorado psicopata, a desconfiança diante das pessoas mais próximas, enfim, “o seu caráter de vítima”, como bem expõe a sua assistente em Pânico 4. No geral, a trilha instrumental segue o seu estilo, “inventado” durante o estabelecimento profissional da sua função: textura percussiva gerada por violinos, instrumentos de sopro, tambores de baixo e camadas sonoras com sobressaltos, tendo em vista alcançar a tensão representada visualmente nas cenas dos filmes em que atua como regente.

De origem ítalo-americana, Beltrami tem Mestrado em Composição Musical pela Yale School of Music, além de experiências com Philip Glass e aulas com um dos mestres da condução sonora estadunidense, Jerry Goldsmith, de quem o compositor foi aluno. Com formação na Brown School, as experiências musicais de Beltrami ganharam extenso campo de atuação, tendo inclusive duas indicações ao Oscar por trabalhos que fugiam do gênero mais comum em seu portfólio, isto é, o terror e os filmes de ação. Guillermo del Toro, John Moore e James Mangold são alguns dos cineastas com quem estabeleceu parceria, bem como trabalhos para a televisão, em especial, episódios da série Lúcifer, Six e The Twilight Zone, indo além das produções com Wes Craven. As pontuais contribuições na franquia Pânico, por sua vez, são alguns dos seus trabalhos mais expressivos e retomados quando fornece depoimentos sobre o seu processo criativo.

No que tange aos aspectos visuais do álbum, a sua apresentação é pouco expressiva. A capa foi criada com base em uma das imagens dos cartazes originais, utilizada no Brasil na ocasião do lançamento em VHS. Robin Glowski, responsável pela direção de arte do álbum trouxe um encarte com pequenas fotos que revelam cenas marcantes do filme, mas sem maiores informações de bastidores e o mais importante, dados acerca da ficha técnica com mais detalhamentos, pois alguns, tais como o responsável por essa reflexão, gostariam de ter acesso às informações de composição, produção e distribuição do produto com maiores detalhes. Mas isso não importa muito quando o que temos disponível é a condução sonora de um filme repleto de camadas interpretativas que vão além da básica consideração de renascimento do slasher nos anos 1990. Pânico é mais que a revitalização de um gênero e a sua trilha sonora coesa e coerente reforçam o grau de comprometimento dos realizadores em entregar ao público um exímio exercício da linguagem cinematográfica.

Pânico – (Trilha Sonora Original)
Artista: Marco Beltrami
País: Estados Unidos
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: rock alternativo, textura percussiva

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.