Crítica | Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 1

estrelas 5,0

Lutar pelo reino sempre foi o centro das preocupações de T’Challa ao longo de sua carreira política, seja como rei de Wakanda, seja como nomeado ao título hereditário e cerimonial do Pantera Negra. Leitores que de repente caírem em um novo título do personagem talvez não percebam ou não conheçam a importância que este território possui. Ou como as coisas que acontecem neste país têm impacto imediato fora de suas fronteiras, já que estamos falando da nação tecnologicamente e cientificamente mais avançada da Marvel. Um ataque direto ou grandes complicações em sua política interna com certeza terão ramificações. E dentre os muitos pesos levados em consideração pelo protagonista, este não passa despercebido.

A contratação do querido (e aclamado) autor e jornalista Ta-Nehisi Coates pela Marvel, em 2016, para escrever o novo título solo do Pantera Negra (o último fora encerrado em 2012), foi uma jogada de marketing e ao mesmo tempo de bom senso na escolha de um escritor de peso para dar nuances geopolíticas e sociológicas modernas a Wakanda e a seu rei, acompanhando as transformações conjunturais da primeira década e meia do século XXI. E Coates não perde tempo. Já na primeira edição do arco temos uma luta no Grande Monte de vibranium que dá início a um imenso descontentamento nacional. Nos eventos paralelos ou subsequentes, destacam-se as Dora Milaje (guarda real feminina de elite) — especialmente Aneka e Ayo –; a Rainha-Mãe e madrasta de T’Challa, Ramonda; o filósofo Changamire; a Reveladora Zenzi (natural da pobre República Democrática de Niganda, ao sul de Wakanda); e o Xamã Tetu.

De todos os questionamentos anteriormente colocados diante do trono de T’Challa — dentre os mais lembrados, aqueles expostos em A Fúria do Pantera ou na minissérie de 1988 escrita por Peter B. Gillis –, estes apresentados em Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 1 são os que mais áreas da organização social de um país conseguem alcançar. Em apenas quatro edições, o autor elenca a ação burocrática do Grande Conselho, a visita de T’Challa a diversos pontos de ataque de homens-bomba, vandalismo ou descontrole emocional/físico gerado pelas “revelações” de Zenzi, ainda sobrando espaço para a noção de revolução da população, que aos poucos vê a salvação nas mãos daqueles que prometem um governo de “mão de ferro”.

plano critico geografia de Wakanda pantera negra uma nação sob nossos pés

A geografia de Wakanda e sua posição naturalmente privilegiada em relação a defesa de fronteiras, exceto na abertura ao sul, com Niganda. NOTA: cada grande cidade (“birnin”) do mapa recebe o nome de um Pantera Negra famoso.

Se antes desse momento delicado a discussão quase filosófica sobre o que legitima a presença de alguém em um cargo político de grande porte já superava as expectativas, é com a aparição dos elementos místicos que tudo fica ainda mais complexo e o roteiro joga mais ideias para serem debatidas. Aí não poderia faltar a mão de um desenhista que soubesse capturar a realidade de uma nação desenvolvida em ciência e tecnologia mas que ao mesmo tempo tem seus próprios mitos e forças incontroláveis que parecem se voltar contra o poder estabelecido. E Brian Stelfreeze desenha esta dualidade entre “antigo e novo” muito bem, sendo igualado em excelência por Laura Martin, que exibe as cores de Wakanda como se estivéssemos assistindo a um filme, tornando a passagem já bastante suave do roteiro visualmente inspiradora.

Stelfreeze não cai na armadilha de inventar coisas para o visual do Pantera. Sua concepção para o personagem é limpa, apresentando elementos de nova tecnologia em alguns quadros, mas nada além disso. Em seu lápis, o manto ganha uma imponência maior, sendo um pouco mais agressivo, mas a simplicidade é a palavra de ordem. Em contrapartida, Wakanda é tratada com honras de uma grande nação, tendo não só a sua parte fortemente urbanizada mostrada pela arte, mas também as pequenas cidades, os lugares afastados, a região de fronteira. Inspirado em tribos Masai, em antigos guerreiros Zulu e rebeldes modernos, encontrados em grupos dissidentes de países africanos em guerra civil, o artista criou uma identidade plural interna e externa para o país, retratando com o máximo de cuidado o seu território e as pessoas e grupos organizados que nele habitam.

Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 1 é um estudo de exercício de poder. O arco fala sobre as dificuldades de administração de um país onde uma realidade de História Oral e pensamento mitológico tradicional se costuram a uma realidade de explosão científico-tecnológica. O texto coloca em perspectiva a capacidade de um rei governar após seu país ter sido atacado inúmeras vezes, situações que tanto sofrimento infligiu à sua população. Todo mundo busca por respostas imediatas, e aqui, quem der o primeiro passo para desacreditar e massacrar o inimigo, tem a vantagem de impressionar ou enraivecer ainda mais o povo. Ta-Nehisi Coates ensina como fazer um excelente Cisma em uma história em quadrinhos. Um estupendo início de uma nova fase para o Pantera Negra.

Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 1 (Black Panther Vol.6 #1 – 4: A Nation Under Our Feet) — EUA, junho a agosto de 2016
No Brasil:
Panini, 2017
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Brian Stelfreeze
Cores: Laura Martin
Letras: VC’s Joe Sabino
Capas: Brian Stelfreeze
Editoria: Wil Moss, Chris Robinson, Tom Brevoort
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.