Crítica | Pantera Negra: A Presa do Pantera

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Quando assumiu as rédeas da série Panther’s Prey, Don McGregor não era um estranho em relação aos assuntos de Wakanda. O autor fora responsável pela obra-prima A Fúria do Pantera (1973 – 1975), pela boa saga Pantera Negra Contra o Klan (1976) e pela excelente A Busca do Pantera (1989), que mostrava T’Challa em busca de sua mãe Ramonda, em plena África do Sul sob o Apartheid. Quase um ano depois de finalizada a aventura sul-africana, chegava às bancas um novo capítulo da saga de T’Challa sob a pena de McGregor. Desta vez, em uma jornada que inicialmente era para ser sobre o casamento do soberano, mas que acabou… digamos… se perdendo parcialmente.

Composta por 4 edições de 50 páginas cada uma, com larga exposição literária (uma marca do autor que, quando bem feita, produz excelentes frutos), A Presa do Pantera é uma espécie de “conclusão” ou ajustes finais de contas do Pantera Negra contra alguns fantasmas e dilemas do passado, considerando tanto a história de seu país quanto as questões de sua vida pessoal — leia-se, o fato de ele estar solteiro e não ter tido, até o momento, um herdeiro para o trono, fator que preocupa o seu braço-direito na condução do governo. A grandiosa arte e finalização assinadas por Dwayne Turner deixam, já nas primeiras páginas, todos esses dilemas ainda maiores do que possam parecer e o artista aqui não está dominado por certos exageros que observamos em algumas de suas produções.

Nesta série, Turner cria belíssimas pinturas de página inteira, mergulhando os quadros numa base de desenho e cores (a cargo de Steve MattssonBrad VancataTodd Klein, em diferentes edições), um modelo de diagramação bastante recorrente nas aventuras do Pantera anteriormente guiadas por Don McGregor, com todos os espaços preenchidos, sempre que possível. Na edição número quatro, porém, o artista (e também o roteirista) dá um grande número de passos atrás, principalmente na arte-final e na diagramação. No texto, o desvio ligado ao personagem Solomon Prey, que tão fortemente atrapalhou a segunda edição, volta com força e impede que a história seja encerrada com toda a grandeza que merecia e que imaginávamos no início.

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Visões de Wakanda: região do palácio e exploração de vibranium no Grande Monte.

Das quatro edições que compõem a série, as melhores são a primeira e a terceira. Nelas, McGregor segue a sua abordagem de uma história principal entrecortada por blocos de acontecimentos menores, mostrando outros espaços e fazendo outros personagens orbitarem o Pantera. Como cada um dos dramas é desenvolvido para fazer parte de um todo, afunilando-se até desaguarem em uma narrativa principal, tecerei comentários individuais sobre cada uma dessas camadas, para facilitar a análise, começando pela apresentação de Solomon Prey, vilão cuja intenção não é explicitada logo de cara. Sua presença inicial, quando enigmática, é a mais interessante. Há um enorme potencial para ele, que ainda traz alguns contatos do passado do Pantera e referências às histórias da Jungle Action. Infelizmente, seu destaque não faz jus à promessa, e nem digo isso em relação ao problema por ele representado (o tráfico de drogas em Wakanda) mas porque a preparação que roteiro e arte fazem deles, com direito a aves pré-históricas de um vale misterioso do país, implantação de asas e claro ódio a T’Challa, são grandiosos demais para, no fim, ele ‘apenas’ ser um traficante mal influenciado.

Derivado disso, temos a conclusão do arco de Kantu, uma das melhores coisas da série e uma das histórias mais tristes em torno do Pantera. Nós conhecemos Kantu quando T’Challa o salvou de um desembestado rinoceronte negro, na Jungle Action #9. Depois, Kantu salvou a vida de T’Challa, na Jungle Action #17, quando o herói lutava contra Killmonger, algo que deu ao menino a fama de “herói local”. Aqui o reencontramos, já homem, e em uma situação que nos deixa realmente tristes. Eu tive sentimentos mistos em relação ao tratamento muito permissivo que o roteiro dá ao Pantera quando ouve os impropérios do Kantu viciado, mas por outro lado, entendi a intenção do autor com isso, algo que ele chega a trazer à tona em alguns poucos quadros, como controle da ira.

Por fim, temos a trama para a qual toda essa série foi pensada: o casamento de T’Challa. E é aqui que encontramos o principal elemento de falha em A Presa do Pantera. Primeiro, o autor faz uma edição inteira com forte dose de erotismo e com diálogos absolutamente fascinantes ente T’Challa e Monica Lynne, a americana que já tivera um caso com dele e que ele pretende pedir em casamento. Toda a terceira edição tem uma forma imensa, tanto na apresentação de Monica, quanto nos possíveis problemas que o casamento dela com T’Challa poderia ter. E depois de todo o circo levantado no campo amoroso e no campo social, chegamos à 4ª edição, a mais fraca da série, onde Don McGregor realmente tem dificuldade para fechar a saga.

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Kantu e Monica Lynne, dois personagens de destaque na série.

Mesmo que a relação do casamento seja finalizada de maneira muito fraca, ela não se compara ao embate final entre o Pantera Negra, Solomon Prey, Tanzika e seus minions. A representação visual funciona a maior parte do tempo nessa edição (já disse antes que os desenhos dão alguns passos atrás aqui e a diagramação, antes tão eficiente, perde bastante), engajando o leitor através da grandiosidade dos desenhos. Mas os diálogos em torno da luta, os caminhos para a finalização do problema, a presença de Venomm (vocês acham que a intenção do autor foi sugerir que ele é um parceiro amoroso de Taku ou aquilo é só amizade mesmo?), a dubiedade incômoda das núpcias e o encerramento do arco de Prey e Tanzika são algumas das coisas que não funcionam totalmente e ficam naquele dilema de ter alguns quadros em alta e todo o restante em baixa.

A intenção dessa minissérie é muito boa e as revistas um e três são maravilhosas, mas a segunda e principalmente a quarta possuem sérios problemas de condução, fazendo de A Presa do Pantera mais uma baita caçada do soberano de Wakanda pela justiça e pelo amor, só que dessa vez, sem muito brilhantismo em sua total composição.

Panther’s Prey (EUA, setembro de 1990 a março de 1991)
Roteiro: Don McGregor
Arte: Dwayne Turner
Arte-final: Dwayne Turner
Cores: Steve Mattsson, Brad Vancata, Todd Klein
Letras: Tim Harkins, Michael Higgins
Capas: Dwayne Turner
Editoria: Terry Kavanagh, Kelly Corvese, Mark Powers
200 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.