Crítica | Pantera Negra Contra o Klan

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Depois de finalizada a saga A Fúria do Pantera, na Jungle Action #18, o roteirista Don McGregor iniciou o arco Pantera Negra Contra o Klan, com uma visita de T’Challa aos Estados Unidos, ao lado de Monica Lynne. Sua irmã Angela morrera há pouco tempo, até onde se sabe, cometendo suicídio. Em muitos aspectos, esta saga foi prejudicada pelo breve fôlego que teve na Marvel, pois a editora cancelaria o título na edição #24, terminando de maneira enigmática e insatisfatória a investigação sobre o que de fato aconteceu com Angela (fica claro que sua morte não fio suicídio) e a investigação sobre a nova vertente do Klan que passa a perseguir a família Lynne e o Pantera Negra. Sem contar a pergunta não respondida sobre o enigmático grupo The Dragon’s Circle.

Estabelecido que o principal inimigo deste arco foi, na verdade, a falta de tempo para desenvolvê-lo melhor, é preciso dizer que também existem erros de McGregor que nos incomodam bastante e que emperram ou diminuem a narrativa, especialmente quando entram em cena comparações com Wakanda e momentos bizarros de nacionalismo, algo que em sua primeira saga funcionou muitíssimo bem, mas que aqui vem com um tom forçado, quase gratuito, começando com Monica sugerindo que a violência não era comum nos Estados Unidos (?) e terminando com uma tentativa de colocar a nação americana na defensiva apenas porque existem “maus americanos”. Essa postura do roteirista é desnecessária, uma vez que o texto se ergue com personagens interessantes (e brancos) como Kevin Trublood ou o Xerife Roderick Tate, cujas atitudes tiraria qualquer tipo de dúvida que um leitor com problemas de interpretação pudesse ter em relação às intenções do roteiro.

Genericamente, estamos falando de um drama policial marcado por um grupo supremacista (um ramo em ascensão da Ku Klux Klan) e um outro ajuntamento de pessoas que se vestem de maneira semelhante aos supremacistas, mas aparentemente não são iguais, porque permitem negros e latinos em sua formação. Vendo por este lado, percebemos que o texto de McGregor é bastante inteligente ao mostrar possibilidades e criar intrigas que devem ser exploradas ao longo das edições. É uma pena que a nossa visão geral do texto fique só na parte de apresentação de personagens e nas críticas iniciais, algumas inclusive bastante pertinentes, ressaltando o encanto que essas organizações ideológicas têm sobre os cidadãos e também a propensão que certas sociedades possuem de punir sem investigar, tomando como base apenas o ódio inicial e a impressão de que “o criminoso” deve “pagar pelo que fez”, sendo que a maioria dos algozes não fazem a menor ideia de qual foi o crime e não possuem provas para condenar o acusado. Não é à toa que a obra-prima Consciências Mortas (1943) é citada no roteiro. E esta é uma das feridas ainda abertas em muitas sociedades ao redor do mundo.

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Uma das melhores lutas de todo o arco.

No decorrer do texto, os únicos momentos de fato incômodos aparecem na edição #22, Death Riders on the Horizon, quando uma história do passado da família Lynne é narrada pela mãe de Monica e o Pantera Negra é imaginado lutando contra a KKK no ano de 1876; e na apresentação de Wind Eagle, que vem com uma promessa de vingança, claramente a serviço do misterioso grupo The Dragon’s Circle, mas não há tempo para que o personagem seja minimamente palatável para o leitor, o que claramente atrapalha parte da edição, ainda mais porque se trata de um momento onde a investigação sobre a morte de Angela Lynne parece avançar consideravelmente e alguns poderosos começam a ser incomodados. A introdução rápida de um personagem e uma resolução Deus Ex Machina para como o Pantera Negra se livra do moinho em nada ajudam.

O grande consolo, porém, é acompanharmos o inacreditável projeto artístico de Billy Graham (artista principal do arco), Rich Buckler e Keith Pollard com finalização de Bob McLeod e Jim Mooney para o título. Mesmo se o roteiro de McGregor tivesse muito mais erros do que tem e a história geral aqui fosse ruim (o que não é, ela só tem problemas), a trama provavelmente ainda estaria na lista de “histórias notáveis” do Pantera Negra apenas pelos desenhos. A representação visual de personagens, seus movimentos, os cenários, as emocionantes cenas de luta e a diagramação inovadora fazem desse arco um espetáculo visual rico e muito interessante de se ver. O único senão que faço neste ponto é que os artistas se recusaram a tirar o uniforme do Pantera, forçando o coitado do T’Challa vestir o manto até fazendo compras do Supermercado. Claramente, um exagero.

Reimprimindo uma edição da Demolidor Vol.1 na revista #23 e encerrando tanto a jornada solo do Pantera Negra quanto a Jungle Action na edição #24, a Marvel barrou a oportunidade de talvez mais uma grande saga do soberano de Wakanda ganhar vida. O projeto narrativo deixado aqui só seria retomado três anos depois, pelas mãos de Ed HanniganJerry Bingham na Marvel Premiere, que realizaram, a seu modo, a luta final do Pantera Negra contra o Klan.

Jungle Action Vol.2 #19 a 24 (EUA, janeiro a novembro de 1976) 
Roteiro: Don McGregor
Arte: Billy Graham, Rich Buckler, Keith Pollard
Arte-final: Bob McLeod, Jim Mooney, Keith Pollard
Cores: Petra Goldberg, Phil Rachelson, Hugh Paley, Al Wenzel
Letras: Denise Wohl, Harry Blumfield, Irv Watanabe, Shelly Leferman
Capas: Gil Kane, Dan Adkins, Irv Watanabe, Rich Buckler, Danny Crespi, John Romita, Frank Giacoia, Gil Kane
Editoria: Marv Wolfman, Archie Goodwin
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.