Crítica | Pantera Negra e a Gangue: Nós Somos as Ruas

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Em Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 2, em pleno motim em Wakanda, nós conhecemos A GANGUE (The Crew, no original) o grupo formado por Pantera Negra, Luke Cage, Misty, Dobra e Tempestade. Na ocasião, a participação do grupo não pareceu a melhor escolha para a resolução de um problema em andamento, mas lá estava a equipe, fazendo o trabalho que tinham que fazer. Aqui, em Nós Somos as Ruas, temos a origem da Gangue e de como o passado de cada um de seus membros influenciou na forma como se uniram para lutar, atraídos por uma causa há muito colocada em discussão, especialmente para T’Challa, rei da nação negra não conquistada e mais isolada (e rica, e tecnologicamente avançada) do mundo.

Quem lê essa história após assistir Pantera Negra (2018), tem uma base teórica bastante interessante para compreender certas ideias nas entrelinhas, ou alguns diálogos. No filme, questionamentos de Killmonger sobre como é que Wakanda teve a coragem de permanecer isolada e alheia aos problemas do mundo, enquanto seus irmãos eram escravizados e morriam aos milhares, vítimas de racismo, aparecem estruturalmente nessa minissérie, chamando a todos para lutar. Será que esses heróis ficaram tão encantados seus poderes, possibilidades e coisas que viram em algumas batalhas, esquecendo-se de que problemas étnicos vão muito além de uma questão sociológica e de relações humanas que “precisam de tempo e políticas públicas” para acontecerem? Alguns séculos de História não despertaram esses heróis para isto? As perguntas são muito boas e colocadas em tempos e lugares diferentes do roteiro, inclusive em um cenário político, na Conferência de Bandung, Indonésia, no ano de 1955. O problema é que estão espalhadas demais. E daí vem o pior erro dessa minissérie. Nós não entendemos qual é o seu foco.

A saga começa de uma maneira estranha para a formação de um grupo “nos dias atuais”. A primeira ação se passa no Bronx, em 1957. Então conhecemos o grupo The Crusade e seus membros The Lynx (Ezra Keith, que terá grande peso na minissérie), Gates, Gloss, Flare e Brawl. Quando o gancho para o presente ocorre, diante de uma manifestação popular, nos deparamos com a menos simpática e mais mal escrita personagem de toda a minissérie, Misty Knight, cujas provocações e lado extremamente legalista a tornam cada vez mais intragável (e isso não tem nada a ver com o fato de ela ser policial!). Do encontro com Ororo (aqui, ainda chamada de “Blue”) e das conversas entre as duas heroínas até a reunião de todo o time, temos muito mais flashbacks do que o necessário, todos eles mostrando um passado que poderia ser objetivamente colocado em uma única edição para mostrar como a morte de Ezra Keith e a vida do personagem estão relacionadas ao problema que A Gangue precisa enfrentar.

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Apesar da mudança e das parcerias entre artistas no decorrer das edições, temos uma boa unidade visual ao longo da minissérie, com o passado sempre mostrado em tons de marrom e pontuais momentos com cores quentes, e o presente sempre pintado de azul e cinza, marcando o momento depressivo para todos os heróis. Nesse ambiente, T’Challa é o mais descolado em termos de “sentir na pele os problemas americanos” que estão em pauta, mas ele tem uma ligação familiar com Ezra Keith, através de seu pai, então faz sentido que se engaje na causa, cantando Frank Ocean e reafirmando aqui e ali que é um rei, algo que certamente não foi Ta-Nehisi Coates que escreveu, pois o autor foi quem representou T’Challa relativizando o seu papel como monarca no Volume 6 das aventuras do Pantera Negra, logo, não faz sentido essa presença do título nas conversas.

No decorrer da trama, descobrimos que a Hydra é um inimigo longevo da comunidade negra do Harlem, e que vem cultivando, ao longo das décadas, pensamentos e soldados para levar o local ao cenário em que está, no momento em que a minissérie acontece. Mas como já citei, não há foco na narrativa para sustentar essa abordagem. As constantes idas e vindas do presente para o passado nos confundem quanto ao seu propósito e acabam por se tornar uma distração, sem ter uma participação mais sólida no fim da trama, abocanhada por esses retornos para o The Crusade e a criação de um plano que nunca fica verdadeiramente claro. A narrativa termina com a primeira formação e “missão” da Gangue, mas a nossa impressão é que acabamos de ler seis edições de prelúdio para alguma saga que ainda está para acontecer. Isso diz bastante coisa sobre a construção geral de Nós Somos as Ruas. Um maior foco do roteiro deixaria tudo às claras e os problemas levantados acabariam tendo uma representação e conceitos a serem discutidos de modo mais interessante. Que façam isso na próxima missão.

Black Panther and the Crew: We Are The Streets #1 – 6 (EUA, junho a outubro de 2017)
Roteiro: Ta-Nehisi Coates, Yona Harvey
Arte: Butch Guice, Mack Chater, Stephen Thompson
Arte-final: Scott Hanna, Mack Chater, Stephen Thompson
Cores: Dan Brown, Paul Mounts
Letras: Joe Sabino
Capas: John Cassaday, Laura Martin, Paul Mounts
Editoria: Tom Brevoort, Wil Moss, Charles Beacham
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.