Crítica | Pantera Negra: O Cliente

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Iniciada em 1998, dez anos depois da última empreitada solo do Pantera na Marvel, a série de Christopher Priest se tornaria uma das mais longevas do personagem. Até então, o Pantera tivera dois títulos em volumes próprios (a Era Kirby, funcionando como Vol.1 e a minissérie de Gillis e Cowan, funcionando como Vol.2) e duas fases em outros volumes, um na Jungle Action e outra na Marvel Comics Presents. Ou seja, Priest chegava para escrever um título com uma promessa de liberdade e contrato maior com a Marvel, mas tinha um material anterior não exatamente bem organizado em termos de rituais e configurações da História de Wakanda para reviver e para utilizar como trampolim, criando, a partir de então, a sua própria mitologia.

A primeira coisa que a gente presta atenção em O Cliente, arco de abertura desta fase, é a maneira extremamente divertida e experimental que Priest usa para narrar sua história. O leitor precisa ter um pouco de paciência e esperar que a leitura prossiga até a edição #5, Lord of the Damned, para entender o que o autor resolveu fazer com um enredo ao mesclar distintas temporalidades e espaços. Aqui entra em cena Everett K. Ross, personagem criado por Priest na Ka-Zar #17: Misery, publicada meses antes deste novo título do Pantera chegar às bancas. Ross é um funcionário do Departamento de Estado Americano, cujo trabalho é escoltar diplomatas ou líderes estrangeiros. Nesta saga, acompanhamos um longo relatório de Ross para sua chefe Nicole “Nikki” Adams, dando conta de como sua vida mudou completamente no dia em que ele foi designado para acompanhar o rei T’Challa, de Wakanda, que chegara aos Estados Unidos para uma “rápida visita”.

Existe um pouco de metalinguagem e ironia na estrutura do roteiro, com falsa recapitulação dos “eventos anteriores” e bagunças de organização do relato de Ross, que constantemente esconde coisas ou conta coisas fora de ordem, sendo esta a parte que exigirá a paciência do leitor, porque a ideia é muito boa, mas não se mostra totalmente fluída à primeira vista. Aos poucos, porém, esse relato vai se organizando como um quebra-cabeça e revela uma longa noite de ações do Pantera + duas Dora Milaje (com sua primeira aparição nos quadrinhos), colhendo informações durante a investigação da morte de uma garota com quem T’Challa tirara foto para ilustrar a campanha de uma ONG apoiada por Wakanda. Existe uma relação muito pessoal do herói com o fato e ele descobre que há uma rede de lavagem de dinheiro e corrupção na instituição, portanto, a ida aos Estados Unidos não é aleatória ou desnecessária e o roteiro consegue nos passar muito bem essa visão. O problema é a justificativa real para isto ter acontecido.

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Pantera Negra com um pouquinho de raiva, investigando alguém.

A arte muito semelhante a uma pintura em óleo de Mark Texeira (e a versão mais simples, porém não menos interessante de Vince Evans, na edição 5) realça a impressão exótica que já temos dos acontecimentos do arco. Infelizmente, os quadros sequenciais de Ross com Mephisto — e a hilária deixa cômica das calças do personagem — aparecem numa escala menor e a arte-final de traços mais grossos e soltos atrapalha um pouco a contemplação total dos desenhos, dando uma impressão de rabisco muito maior do que era para ter, já que estamos falando de Mephisto. Aos poucos a história vai ganhando cores até chegar na revista que finaliza o arco (mas não a saga), com muitas cenas em Wakanda, que exige uma quantidade maior de quadros limpos e tons de marrom e amarelo. Entre a boa narrativa, bom humor e bom projeto visual de O Cliente, fica difícil para o leitor admitir que existe um gigantesco elefante branco na história. Mas ele existe. E temos que admitir isso mais cedo ou mais tarde.

A entrada do Doutor Reverendo Michael Ibn al-Hajj Achebe em cena nos coloca em plena atenção. Ele é o corpo estranho da aventura e, apensar da cruel e hilária apresentação, é quase inacreditável que o autor o tenha colocado no enredo como o deflagrador de um grande esquema de assassinatos, convencimento da cúpula política Wakanda e o que aparenta ser um Golpe de Estado. Talvez por ser coisa demais em pouco tempo ou pelo fato de termos em altíssima conta a proteção e estrutura do país, considerando ou não a ajuda de Mephisto, não dá para aceitar que alguém tenha ascendido ao poder de tal maneira em Wakanda. O final, com a situação de Ramonda, a Rainha-Mãe e a sugestão dada para o destino de T’Challa, também não melhoram as coisas.

Priest começa o seu famoso run à frente do Pantera Negra de uma maneira quase inteiramente aplaudível. Dividindo a atenção do Pantera em dois ambientes e colocando em cena o “dilema do rei” versus “o dilema de um ser humano”, o autor dá uma cor diferente ao personagem, mostrando que há muito mais em T’Challa do que “apenas” a sua força, espírito, riqueza e majestade. É pena que existam distrações demais nesse caminho e que se interponha nessa jornada uma guinada política à distância que não funciona muito bem, dada a complexidade da estrutura política que é abocanhada sem mais nem menos por um estranho — a despeito de qualquer justificativa de plano prévio do indivíduo. No entanto, a leitura do arco diverte e a sequência de eventos promete bons frutos para o futuro.

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Um gato entre os pombos.

NOTA: vai aqui uma observação feita pelo vândalo Ritter Fan na minha crítica, enquanto ela estava em rascunho. Devo dizer que concordo com ele (apesar do claro recalque de vandalizar o meu texto, só porque não domina o pulo do gato na hora de pegar as críticas). Disse ele: “nunca entendi o sentido de um uniforme preto desses, completamente camuflado e preparado para a noite, com detalhes em DOURADOS… ridículo… só faltou uma tanga de oncinha.“. Mas vejam, existe uma explicação para o famigerado dourado nessa versão do uniforme. É um charme para o gatão aí. Afinal de contas o cara é rei. Tem que ostentar um pouco, certo?

Pantera Negra: O Cliente (Black Panther Vol.3 #1 – 5: The Client) — EUA, novembro de 1998 a março de 1999
Roteiro: Christopher Priest
Arte: Mark Texeira (1 a 4), Vince Evans (5)
Cores: Brian Haberlin, Avalon
Letras: Richard Starkings, Siobhan Hanna, Comicraft
Capas: Mark Texeira, Joe Quesada, Bruce Timm
Editoria: Joe Quesada, Jimmy Palmiotti
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.