Crítica | Pantera Negra: O Império Intergalático de Wakanda – Parte 1

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Não demorou muito para que Ta-Nehisi Coates, roteirista que fez uma elogiada entrada nos quadrinhos ao criar, para o Pantera Negra, a saga Uma Nação Sob Nossos Pés, utilizasse os elementos de afrofuturismo que tão fortemente se viu em Wakanda e levasse a grande nação africana para o Espaço. Já na origem do herói, e depois na fase de Jack Kirby à frente da revista do Pantera, a relação entre ficção científica e os símbolos das mais diversas culturas e nações africanas apareceram na arte e nos roteiros, muitas vezes apenas como um fator de impulsionamento de conflitos, mas estavam lá. Nesta presenta saga, intitulada O Império Intergalático de Wakanda vemos apresentado esse futuro distante, o ápice do domínio tecnológico de Wakanda sob uma imensa camada de mistérios.

Na primeira edição da saga e, para ser sincero, mesmo ao final desse primeiro arco, na sexta edição, o leitor fica perdido — no bom sentido –, clamando por respostas: como eles chegaram onde estão? Certos personagens são realmente quem dizem que são? Como esse Império chegou a este ponto? Por que a diferença de status social tão grande entre eles? Essas perguntas, no entanto, não atrapalham em nada o aproveitamento da história, que além de ser muito boa, funciona basicamente em dois níveis; primeiro, com um mistério ligado à recuperação das memórias de um certo escravo tido como “o eleito de Bast”; segundo, com a constante ação que essa luta dos dominados contra os dominadores traz à tona.

Embora seja difícil estabelecer uma linha do tempo aqui — mas sabemos que as sementes dessa exploração espacial para a nação de T’Challa tinham sido plantadas lá nos Novos Vingadores de Jonathan Hickman –, temos a informação de que um grupo de wakandanos foram enviados para um canto remoto da Galáxia, onde, longe de casa, instituíram uma colônia, prosperaram e começaram a desenvolver um nível bélico e de auto-defesa imensos, o que levou esse Império para um ponto de conquistas através de diversos planetas (rapidamente me passou Dreadstar pela cabeça), produto de um Estado militarizado com escravização de espécies nas minas de vibranium. A versão fanática e corrompida de valores que T’Chaka e T’Challa e Shuri estabeleceram em seus reinados como prioridades e política externa de Wakanda.

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O Imperador do futuro em uma conversa com os Orixás.

Qualquer leitor com o mínimo de conhecimento de atualidades irá perceber que Coates está tocando em um ponto delicado para os americanos, o que certamente gerou ondas de vozes revoltosas, inclusive aqui no Brasil. O autor aponta para a indústria das armas e o que o belicismo a todo custo pode gerar. No decorrer da história, é impossível não fazer alusões a Star Wars, especialmente pela forma como uma facção rebelde é colocada na trama e como a relação entre governo, homens de armas, escravos (que têm suas memórias apagadas e são chamados de Sem-Nome) e revoltosos é desenvolvida pelo texto e como a mensagem de esperança e luta por um futuro melhor, com um esperado líder, se destacam nas crônicas das muitas espécies e nações desse Império Intergalático de Wakanda.

A ação aqui é muito bem capturada pela arte de Daniel Acuña, sendo um espetáculo à parte, porque seu estilo de nuances aquareladas é condizente com o ambiente representado, especialmente nos momentos de grandes grupos num mesmo quadro, batalhas de facções armadas ou explosão de naves. As cores também possuem um papel muito importante, porque abraçam totalmente o espírito de luta, de retirada ou preparação que a série desenvolve. Na última edição do arco, porém, há uma diferença nessa abordagem, porque os desenhos ficam a cargo de  Jen Bartel e a temática central da história igualmente muda, entregando para nós um pouco do passado do atual Imperador e de como algumas coisas se sucederam até chegar onde estão. Ainda não são dadas as respostas para as principais perguntas, mas pelo menos nos fazem entender algumas motivações e algumas temporalidades.

Mentiras ancestrais, apagamento da memória, divulgação de falsas informações, escravização do próprio povo, cultura belicista de auto-defesa, legitimação da escravidão por um discurso pseudo-sociológico, presos políticos… Estes são alguns dos elementos que vemos ser desenvolvidos nesse arco, que mesmo tropeçando ao segurar demais algumas cenas de ação com um sentido quase nulo para a trama geral, entrega em todas as seis mensais histórias acima da média. Em tempo, uma pergunta propícia a se fazer é a seguinte: será que o M’Kraan Crystal lá de X-Men #107 foi quebrado em pequenos pedaços e, de alguma forma, tem um papel importante na ligação de T’Challa com esse futuro?

Black Panther Vol.7 #1 a 6: The Intergalactic Empire of Wakanda – Part 1 (EUA, 23 de maio a 28 de novembro de 2018)
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Daniel Acuña / Jen Bartel (edição #6)
Arte-final: Daniel Acuña / Jen Bartel (edição #6)
Cores: Daniel Acuña / Triona Farrell (edição #6)
Letras: Joe Sabino
Capa: Daniel Acuña, Paolo Rivera
Editoria: Wil Moss, Sarah Brunstad, Tom Brevoort
24 a 34 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.