Crítica | Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 2

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A estreia de Ta-Nehisi Coates com um novo título do Pantera Negra foi um marco. Colocando em cena diversos questionamento de teoria política, perguntando o que mentém um governante no poder e o que legitima o uso da força ou a definição de regras para uma nação inteira feita por um grupo pequeno (e de interesses majoritariamente diversos dos que estão “do lado de lá”), o escritor fez da abertura de Uma Nação Sob Nossos Pés um rico estudo político aplicado à fictícia de Wakanda.

Neste cenário, as coisas não caminharam bem para o rei T’Challa. O país está sob ataque, mas não por um Exército, em uma guerra aberta. Dissidências internas e ideias de libertação de Wakanda do “jugo Ocidental” são discutidas e levadas a um extremo de violência que compreende o uso de homens-bomba e união de um Xamã (Tetu) e uma Reveladora (Zenzi) a Zeke Stane. De cara, o roteiro explora a contradição entre teoria e práxis que muitos organizadores de movimentos sociais ditos “libertadores” carregam desde o princípio. As pessoas com quem se unem e as ações que tomam divergem daquilo que pregam, cabendo espaço apenas para a famosa frase de Maquiavel ao aconselhar O Príncipe sobre como agir para conseguir algo difícil de seus súditos ou de seu Estado.

Um grupo político-ideológico chamado O Povo se ergue contra o rei. A princípio, isto é algo imensamente interessante. Como mostrado no Livro 1, a insurreição popular serve como caminho de reflexão para T’Challa, que também cria uma estratégia para se posicionar favoravelmente contra seus inimigos. Claro que as duas Anjos da Meia-Noite — Ayo e Aneka, duas ex-Dora Milaje — possuem grande vantagem, pois se originam diretamente do núcleo do governo e sua motivação de revolta é, friamente falando, passional, embora elas tenham transformado a dor particular e o amor que possuem uma pela outra, em uma dor nacional, focando as “ações questionáveis do monarca para com o povo” e se organizando para consertar problemas pontuais, onde a mão de T’Challa não chega. Como todo país, Wakanda possui gente mal-intencionada, bandidos, corruptos de toda ordem ou assassinos escondidos. E não necessariamente isto é culpa do Pantera Negra. Mas aqui, todos os males teóricos, físicos e estruturais do país passam a ser. Vejam como é frágil e desonesta a linha argumentativa dos revoltosos sem uma verdadeira causa.

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A Gangue: Dobra, Tempestade, Luke Cage e Misty. Infelizmente, só Dobra era necessário nesse arco. E só ele tem uma real boa participação.

Considerando todo esse aparato teórico e político para trabalhar, é bastante frustrante ver que Ta-Nehisi Coates tenha escolhido dar destaque para a libertação de Shuri, a quem T’Challa vem tentando salvar da Morte Viva, um estado de “congelamento” no qual ela foi colocada desde a invasão de Thanos a Wakanda, um evento que ocorreu antes dessa fase. E não apenas isso. O texto se entrega demais a histórias místicas, na passagem de Shuri pelo Djalia, a “dimensão da memória” do país. Todo o seu encontro espiritual com Ramonda, as histórias de ancestrais, as metáforas e simbolismos chegam ao limite do suportável e destoam imensamente do que o autor vinha trabalhando até então — ou do que realmente trabalhou na primeira parte do livro –, em um plano de retomada da confiança popular que não começa exatamente bem, dada a reunião do soberano com os infames líderes de Symkaria, Genosha, Santo Marco, Madripoor e Alberia.

“A Gangue”, como Luke Cage apelida o grupo de ajudantes que T’Challa convoca para um momento decisivo, é outra pedra no sapato. A ação em si, não é o problema. A arte de Chris Sprouse combina bem com a exposição de batalha e faz um ótimo trabalho, mesmo quando o roteiro se perde em narrativas dentro de narrativas (vale aqui o destaque para as lindas cores de Laura Martin em todas as sequências no Djalia). O problema é que a presença da Gangue parece um exagero dentro da história, impressão ainda piorada por Misty, que é uma personagem bem difícil de engolir nesta versão escrita por Coats.

Perdido em uma posição íntima demais e com adição de personagens que não eram necessários para o andamento do arco, este segundo livro de Uma Nação Sob Nossos Pés cai consideravelmente de qualidade em relação à sua estreia. Os bons ingredientes ainda estão aqui, mas padecem abafados por uma atenção maior dada pelo autor a linhas narrativas que deveriam continuar em segundo plano. A luta, no entanto, ainda não acabou. E com o resultado obtido ao fim deste livro, talvez a revolução possa ter caminhos impensados para os dois lados em contenda.

Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 2 (Black Panther Vol.6 #5 – 8: A Nation Under Our Feet) — EUA, outubro de 2016 a janeiro de 2017
No Brasil:
 Panini, 2017
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Chris Sprouse
Arte-final: Karl Story (com Walden Wong na edição 8)
Cores: Laura Martin
Letras: Joe Sabino (5 a 7), Clayton Cowles (8)
Capas: Brian Stelfreeze, Laura Martin
Editoria: Wil Moss, Chris Robinson, Tom Brevoort
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.