Crítica | Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 3

Com este terceiro livro chega ao fim o arco Uma Nação Sob Nossos Pés, empreitada de Ta-Nehisi Coates na reconfiguração do Pantera Negra para o nosso tempo. No Livro 1, o autor teorizou sobre a permanência e queda de um regime sob as bases de uma revolução popular, até então vista pelo viés mais geopolítico, sociológico e histórico possível (o que explica um certo distanciamento de alguns leitores em relação à trama, apesar de ter tido grande aclamação da maior parte da crítica e do público). No Livro 2, um passo atrás foi dado. O autor preparou com demasiada pressa as bases para o “encerramento” do entrave revolucionário e passou muito mais tempo plantando as sementes ancestrais que dariam força para os personagens no livro seguinte do que desenvolvendo a própria guerra civil. Neste Livro 3, veio o brilhante final, onde os ingredientes de um enredo anterior não exatamente aplaudível ganharam uma dimensão inesquecível.

Para começar, o arco não possui distrações. Talvez porque o autor já tivesse pagado um alto preço no capítulo anterior, colocando as peças no lugar e tendo que lançar mão de uma distração, mas o fato é que há neste Livro 3 uma objetividade admirável no desenvolvimento da reta final da revolta. E não só isso. Os personagens principais e secundários também ganham voz, têm suas falhas e exageros apontados, são confrontados, ouvidos e representados em um Conselho que dará continuidade ao governo em Wakanda, um país que passou por uma grande transformação, talvez a maior de sua História desde que T’Challa se estabeleceu no trono.

Artisticamente falando também temos uma representação interessante, guardando apenas um ponto negativo que, diferente do que possa parecer, não é purismo: a arte-final das revistas 11 e 12 passa por diversas mãos. Se o resultado final fosse similar ao do excelente trabalho de Karl Story, não teria problema nenhum. Mas não é. E aí parece uma desorganização imensa (e quebra de unidade de enredo também) colocar uma arte-final bem menos limpa justamente no encerramento da história, quando toda a identidade visual do arco já tinha sido construída sob outra base. A justificativa para isso todo mundo sabe: muitos arte-finalistas trabalham em mais de um projeto ao mesmo tempo e atrasam a entrega das páginas, logo, outros profissionais precisam finalizar o trabalho. Isso a gente entende. Mas não significa que um problema de logística e prazo de uma editora vá automaticamente tornar uma mudança brusca nos desenhos algo bom. Neste caso, não é.

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Para governar bem é preciso se desvencilhar, ouvir e saber a hora de deixar que outras pessoas também façam parte do jogo.

Se por muito tempo admiramos T’Challa, seus valores e sua postura como rei, este Livro 3 nos faz ter o mesmo tipo de olhar para Shuri. A personagem volta mudada de sua passagem pelo Djalia e aqui assume um papel extremamente complexo, rico e muito mais interessante do que o do próprio Pantera Negra. Tudo isso sem fazer com que o protagonista seja abandonado. O autor consegue integrar cada um com um nível de importância proporcional ao caso em andamento e tudo acaba tendo um peso ainda maior porque mostra o quanto T’Challa é um governante que não queria ser governante. Desde muito cedo ele percebeu o peso que é ter uma coroa na cabeça e ser responsável por milhares de vidas que, independente do que ele faça ou não, verá nele a culpa por males em todas as áreas do país. Wakanda é uma nação rica e desenvolvida, mas como já havia ficado claro até mesmo em outras fases do herói (Quem é o Pantera Negra? retrata isso muitíssimo bem, por exemplo), não é um lugar onde nenhum mal pode chegar. O atual estado da nação é uma prova disso.

O autor ainda estabelece uma dura crítica a grupos revolucionários que começam suas empreitadas políticas exterminando e fazendo mal ao próprio povo que dizem querer salvar. É uma contradição que, como sabemos, acompanha ideologias revolucionárias por décadas (existe Revolução sem sangue?) e que em Wakanda recebe variantes de todos os lados: moral, de gênero, de organização hierárquica e de símbolo religioso. O que no Livro 2 pareceu apenas uma pequena chatice mística, aqui no Livro 3 é exaltado como se deve, lembrando-nos que “Pantera Negra” é um manto cerimonial, e que existe um Culto, uma Religião e um Espírito por trás de sua majestade. Somos lembrados que o consumo da erva em forma de coração abre os sentidos do Pantera para a deusa egípcia Bast (também conhecida como Bastet, Ubasti, Ba-en-Aset ou Ailuros) e que a memória dos ancestrais de Wakanda pode ser acessada no momento certo, da forma certa e para a causa certa. Não tem como não se encantar com a mitologia, a cultura e o constante choque entre “velho” e “novo” que este país atravessa de tempos em tempos.

E como na conclusão de toda grande provação, a vida é sempre mais valorizada e algumas coisas são rapidamente colocadas em perspetiva. Toda a edição 12 é uma verdadeira aula de exercício da justiça dentro de uma estrutura burocrática, moral e ética de governo. Tudo é considerado. Todas as pontas são amarradas pelo autor e, mesmo no final, uma excelente discussão que elenca feminismo, lugar da mulher, lugar de fala e variações dos modelos de monarquia e outras formas de se organizar um Estado são trabalhadas com a mesma atenção que a guerra. Ainda há muita coisa para fazer e alguns inimigos permanecem soltos. Mas por um momento, mesmo com uma grande tensão no ar, a liberdade é a palavra de ordem. E isso permite que cada um busque um pouco de si antes de sacrificar-se um pouco mais pela pátria. Que final incrível!

Pantera Negra: Uma Nação Sob Nossos Pés – Livro 3 (Black Panther Vol.6 #9 – 12: A Nation Under Our Feet) — EUA, fevereiro a maio de 2017
No Brasil:
 Panini, 2017
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Brian Stelfreeze (9 e 10, 12), Chris Sprouse (11 e 12)
Arte-final: Karl Story (9 a 12), Goran Sudzuka, Walden Wong, Roberto Poggi (11), Scott Hanna
Cores: Laura Martin (9 a 12), Larry Molinar, Rachelle Rosenberg, Paul Mounts (11), Matt Milla
Letras: Joe Sabino
Capas: Brian Stelfreeze, Laura Martin
Editoria: Wil Moss, Chris Robinson, Tom Brevoort
96 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.