Crítica | Pantera Negra: Vingadores do Novo Mundo

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Com o encerramento da saga Uma Nação Sob Nossos Pés, este Volume 6 das aventuras do Pantera Negra ganhou um novo caminho. Politicamente falando, Wakanda não é mais a mesma. Após vencida a revolta popular dos arcos anteriores, T’Challa abriu o governo para uma monarquia a caminhos de ter uma nova Constituição e com auxílio de uma delegação de representantes de diversas partes do país, eleitos pelo povo. Essa nova estrutura, ao que tudo indicava na aventura anterior, procuraria formas de levar Wakanda adiante. Mas assim como aconteceu no Livro 2 de Uma Nação…, o escritor Ta-Nehisi Coates voltou seus olhos mais uma vez para as questões antropológicas, religiosas, místicas e de oralidade, passadas de geração para geração. O resultado, como era de se esperar, foi apenas “ok”.

É preciso dizer uma coisa importante sobre esse caminho do roteiro. Quando exponho que a linha antropológica “segurou a qualidade da revista”, não quero dizer que foi unicamente pela presença dessa temática que as coisas ficaram em uma linha de qualidade não tão sólida. Isso porque a questão mística, religiosa e simbólica (muitas vezes ligadas à tecnologia, vista por outros olhos como uma manifestação sobrenatural) já estiveram presentes em muitas páginas e fases da revista do Pantera Negra. Encontramos isso em A Fúria do Pantera, na fase de Peter B. Gillis e Denys Cowan e logo na abertura da era de Christopher Priest no título, com O Cliente. O problema não é a colocação de “tramas de outro mundo” no enredo. Mas é um problema fazer com que essas tramas soterrem uma realidade muito mais interessante; que assumam o protagonismo quando deveriam ser a linha coadjuvantes dos eventos.

Como se não bastasse os dissabores territoriais das últimas semanas em sua vida, T’Challa percebe que seu contato com a Deusa Bast está comprometido e que os Deuses de Wakanda, ao que tudo indica, cortaram contato com o povo. Ou melhor, os “novos deuses”, os Orixás que tomaram o lugar dos antigos Deuses. Para piorar, um grupo de antigos seres habitantes da Terra, os Originators, saem de seus lugares de reclusão e começam a atacar diversas cidades do país. Dentre as espécies dessas criaturas, podemos catalogar os Simbi, em forma de serpente; os Vanyan, em forma de gorila; uma espécie marítima para a qual não temos identificação, assim como uma espécie humanoide de duas cabeças; os Anansi, em forma aracnoide e os Creeping Doom, em forma de inseto.

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Shuri e T’Challa sem entender nada o que está acontecendo em uma das nações vizinhas.

Como a temática de discussão sobre divindades é sempre acompanhada de distrações, novas espécies, nomes e suspensão cada vez maior da descrença, custa para o leitor se acostumar com o novo tom do roteiro, especialmente porque está saindo de uma tensa saga política. O bom disso tudo é que não só de Orixás e estranhas criaturas vive este arco. Na linha secundária (que deveria ser a principal!) temos a investigação de T’Challa para os lugares atacados de Wakanda e, a melhor coisa de todo o bloco, o seu contato com Ororo, que volta à Wakanda com um papel muito importante na retomada de alguns territórios e combate aos bichos medonhos. É uma pena que o texto insira e faça desaparecer a personagem sem mais nem menos (assim como Dobra, que deveria ter um papel melhor aqui, afinal, ele resolveu ficar em Wakanda para ajudar!), mas mesmo sob essa falha de entrada e saída de personagens, o texto faz com que Ororo seja uma majestade em alto estilo. Sua relação com T’Challa é aplaudível, a ponto de nos fazer querer ver o casal junto novamente, e seu papel no imaginário dos wakandanos é, em uma palavra, inspirador.

Exatamente o que causou o pequeno incômodo no Livro 3 de Uma Nação…, o projeto artístico com finalização diferente, volta a assombrar as revistas do título, agora com um problema ainda maior: uma mudança de artistas com produto muito diferente um do outro (ou com finalização que não dá nenhum senso de continuidade visual). Para uma saga como esta, manter uma identidade de imagem é muito importante, porque isso ajuda a conectar o leitor de uma maneira mais fácil ao que está sendo narrado. Sem essa unidade e não sendo a variação artística algo realmente positivo (aqui temos direito até a rostos e corpos relativamente deformados, o que é bem ruim de se ver em uma revista que obviamente exige um cuidado maior, com um artista de concepção mais realista, não proto-cubista), nossa impressão geral da arte vai aos pontos tendo pontos e mais pontos descontados.

Embora a edição #18 finalize este arco, a saga Vingadores do Novo Mundo se estende para o momento seguinte (com a revista voltando para o Volume 1 das aventuras do Pantera, a fase iniciada com Jack Kirby, agora com o cumulativo de numeração chegando em #166), focando em Ulyssses Klaw. Talvez Ta-Nehisi Coates consiga fazer o trem voltar aos trilhos para uma sequência mais instigante no bloco seguinte, mas é importante dizer que mesmo estando aquém do esperado para a continuação de Uma Nação Sob Nossos Pés, este Vingadores do Novo Mundo é uma boa história. E foi capaz de plantar em nós a curiosidade de saber o que deve acontecer a seguir com Wakanda, se ela realmente foi abandonada pelos Deuses. E o que Ulysses Klaw tem a ver com tudo isso…

Pantera Negra: Vingadores do Novo Mundo (Black Panther Vol.6 #13 – 18: Avengers of the New World) — EUA, junho a novembro de 2017
Roteiro: Ta-Nehisi Coates
Arte: Wilfredo Torres, Jacen Burrows, Adam Gorham, Chris Sprouse
Arte-final: Wilfredo Torres, Jacen Burrows, Terry Pallot, Adam Gorham, Karl Story, Walden Wong, Dexter Vines
Cores: Laura Martin, Andrew Crossley
Letras: Joe Sabino
Capas: Brian Stelfreeze, Laura Martin
Editoria: Wil Moss, Chris Robinson, Tom Brevoort
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.