Crítica | Papyrus: A Vingança de Ramsés

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Papyrus (que tanto é o título da série como o nome do protagonista, um garoto que era pescador antes de ser escolhido para uma missão de “salvamento do Egito” diante de uma guerra entre deuses) é um quadrinho belga criado por Lucien De Gieter, originalmente publicado em forma de episódios na revista Spirou, estreando em 1974. O primeiro álbum da série, A Múmia Afogada, foi lançado pela editora Dupuis em 1978. A Vingança de Ramsés foi o sétimo álbum da cronologia, lançado originalmente em 1984, mas o primeiro a ser publicado pela editora britânica Cinebook, em novembro de 2007.

A Vingança de Ramsés traz como personagens principais, além do protagonista do título, Imhotep, um servo com uma perna só e a Princesa Théti-Chéri a filha do faraó Merenptah. No começo da aventura eles estão navegando em direção a Abu-Simbel, fazendo uma parada antes em Wadi Es-Seboua, onde a princesa consegue do pai a permissão para seguir viagem em um barco menor, ao lado de Papyrus, já que este sempre reclamava da chatice dos rituais político-religiosos que o faraó e seu séquito recebiam toda vez que chegavam a uma nova cidade.

De Gieter, que escreve o roteiro e desenha a aventura, faz um excelente apanhado dos costumes e processos históricos do Egito Antigo, como a divisão do território em Alto e Baixo Egito, a hierarquia religiosa, um ou outro pequeno entrave político (aqui substituído pela presença dos bandidos que se colocam no caminho de Papyrus, Théti e Imhotep), a geografia, flora, fauna, clima e arquitetura dos locais visitados. É muito interessante quando vemos uma produção fictícia em quadrinhos, que por essência não tem a obrigação de se preocupar com detalhes históricos (pois não se trata de uma obra histórica, ela apenas usa do período para ambientar sua tramas) realizar um trabalho cuidadoso e fiel, na medida do possível, ao povo e tempo que dispôs retratar.

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A inesquecível chegada ao templo…

A grande questão é que o roteiro, apesar de costurar mais ou menos bem o entrave diante dos adolescentes, passa muito tempo na cola dos bandidos, momento em que o leitor procura algo mais interessante para se apegar e não consegue, porque até então, a relação de Théti-Chéri com os deuses, a própria presença de Papyrus e a ação de Imhotep em toda a história não tinha sido o bastante para suportar uma interrupção e uma retirada deles de cena, alguns ficando boa parte do tempo sem diálogos, apenas com onomatopeias de sofrimento e carinhas de horror e dúvida enquanto um bando de criminosos da Antiguidade procuravam o segredo guardado apenas por Hapu, o Sacerdote: o acesso ao grande tesouro de Ramsés.

A bela e grandiosa arte de De Gieter é certamente um espetáculo à parte e não decepciona. Em quase todo o desenvolvimento do enredo é a parte visual que de fato mantém o leitor interessado, mas as ações, por mais épicas que sejam esteticamente falando, carecem de maior contexto e ligação entre personagens, especialmente em todo o bloco onde os deuses se manifestam, de modo que esta ausência e a lacuna conceitual aí surgida comprometem bastante o resultado final; não a ponto de torná-lo ruim, mas a ponto de deixá-lo apenas um pouco acima da média.

Para quem quer conhecer um quadrinho belga diferente, com base na História do Egito, A Vingança de Ramsés é uma leitura válida e cheia de bons momentos visuais e deixas históricas que são claramente parte de uma pesquisa séria do autor. Apesar de ser um álbum com uma série de falhas em seu desenvolvimento na relação entre personagens, ele consegue nos deixar curiosos para outras sagas e que outros pontos da História do país africano os textos podem abordar.

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Quado você cansa de ficar sentado por séculos…

Em tempo: é muito bom ver que o protagonismo étnico aqui é dado, corretamente, aos personagens africanos. A colocação dos indivíduos negros, de diferentes braços das civilizações locais e tons de pele é algo aplaudível por parte do artista. Outro ponto curioso é a extrema proximidade entre Imhotep e Papyrus, uma quebra no clichê da proximidade entre menino e menina, especialmente em histórias para um público mais jovem, como é o caso.

O abraço carinhoso da trama, inclusive, acontece entre os dois amigos, o que é bastante legal de se ver e até faz sentido se considerarmos o orgulho e realeza que coloca Théti um pouco na retaguarda no que se refere ao contato com os garotos e à amizade que tem com eles. Ela inclusive usa da autoridade de princesa para se fazer notar e ouvir por seus companheiros, o que diz muito sobre ela… novamente, uma abordagem coerente para a personagem. E por último, uma observação negativa: o nome de destaque no título não deveria ser Papyrus e sim Théti-Chéri, porque é ela quem de fato realiza as coisas de fato importantes no decorrer da trama.

Papyrus: La Vengeance des Ramsès (Bélgica, outubro de 1984)
Editora original:
Dupuis
Editora britânica: Cinebook (publicando os álbuns da série a partir de 2007)
Roteiro: De Gieter
Arte: De Gieter
44 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.