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Crítica | Para Maiores

por Ritter Fan
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Alguma coisa entre isso,

e isso aqui:

Você decide, se tiver coragem.

Tem alguns filmes que, quando acabam, a primeira coisa que nos vem à cabeça é uma série de indagações conectadas: (1) como é que alguém pensou e efetivamente escreveu o roteiro desse negócio? (2) como é que aprovaram a produção desse roteiro? (3) como é que o elenco aceitou participar dessa atrocidade? Quando, porém, nos deparamos com algo como Para Maiores, um filme com um elenco que talvez só Wes Anderson conseguisse reunir e cujo idealizador – Charles B. Wessler – levou anos e anos tentando convencer uma produtora de embarcar no projeto e mais alguns anos para poder filmar tudo justamente em razão do vasto elenco, inevitavelmente fica aquela curiosidade quase mórbida de conferir o resultado e de extrair algo de bom da experiência.

E sim, não tenham dúvidas que Para Maiores, uma compilação de 12 curtas costurados por vinhetas metalinguísticas que lidam com um roteirista fazendo o pitch de ideias surreais para um filme ou, na “versão sem censura”, três jovens tentando localizar o mítico Movie 43 pela internet, é tudo o que dizem que o filme é: nojento, escatológico, agressivo, repugnante e mais quantos adjetivos semelhantes pudermos imaginar. Mas, não tenho vergonha de dizer, é um exagero muito grande afirmar que este é o pior ou mesmo um dos piores filmes já feitos, pois é no mínimo inusitado ver Hugh Jackman com um saco escrotal pendurado no queixo conversando com Kate Winslet em um restaurante como se fosse a coisa mais normal do mundo ou Chris Pratt recebendo lições de amigos sobre o que comer para se preparar para defecar em Anna Faris, isso só para usar dois exemplos do tipo de humor grosseiro e indutor de vômito que o longa oferece.

Há um componente de masoquismo nesse processo e há, também, um problema sério aqui, pois confesso que gargalhei em alguns momentos. Claro que há necessidade de um estado de espírito correto para o momento e eu por acaso estava em sintonia com o filme, o que me fez, em meio à toda repugnância e escatologia, encontrar alguns lampejos de humor rasteiro, daquele tipo bem adolescente mesmo, que me levou a apreciar o conjunto da obra por ousar em ser a tremenda porcaria que é e atrair e convencer tanta gente do mais alto gabarito para protagonizar os curtas. É como uma “pegadinha do Malandro” ou um trote de faculdade, até porque as vinhetas que reúnem os curtas são extremamente autoconscientes do lixo que cada curta-metragem é, de certa forma atraindo ainda mais o espectador que, como eu, tiver estômago para aturar o desfile de imbecilidades que preenche os 94 minutos de projeção, com um curta de James Gunn, que mistura live-action e animação, sobre um gato tarado por seu dono encerrando tudo como uma cena de meio de créditos.

Se eu veria de novo? Certamente que não. Se eu recomendaria para amigos? Certamente que sim, pois não tem nada melhor do que recomendar seriamente um filme desses para gente conhecida somente para ver a reação das pessoas em seguida, sejam elas gostando ou não da recomendação, sejam elas querendo me xingar ou me esfaquear ou, ao contrário, entre lágrimas de tanto rir, me abraçar e me cumprimentar. Se eu recomendaria para vocês, meus caros leitores? Olha, só vou dizer uma coisa: se você é realmente leitor aqui do site, então você provavelmente é um cinéfilo e um cinéfilo que se preze precisa passar por algumas provações. Para Maiores é, sem sombra de dúvida, uma dessas provações e sua conclusão ao final sobre o longa certamente falará muito mais sobre você do que muita sessão de análise. Ou o fará começar sessões de análise, talvez até partir direto para uma internação…

Para Maiores, portanto, é uma experiência obrigatória, um filme que separa as crianças dos adultos, o cara que vê filmes casualmente do apreciador que realmente assiste obras cinematográficas. Sem Para Maiores a vida fica pequena, enclausurada, perdida e sem sentido como mascar chiclete por horas depois que o gosto despareceu e tudo o que fica é o movimento mecânico do maxilar. Para Maiores é para você, caro leitor, que precisa sair de sua caixinha segura forrada de Cidadão Kane, Os IncompreendidosOs Sete Samurais e outras obras seguras desse naipe e partir de peito aberto para o mundo real, para a experiência visceral nas ruas, para a vida sendo vivida intensamente como se cada minuto fosse o último…

Para Maiores (Movie 43 – EUA, 2013)
Direção: Elizabeth Banks, Steven Brill, Steve Carr, Rusty Cundieff, James Duffy, Griffin Dunne, Peter Farrelly, Patrik Forsberg, Will Graham, James Gunn, Brett Ratner, Jonathan van Tulleken
Roteiro: Rocky Russo, Jeremy Sosenko, Ricky Blitt, Bill O’Malley, Will Graham, Jack Kukoda, Matt Portenoy, Claes Kjellstrom, Jonas Wittenmark, Tobias Carlson, Will Carlough, Jonathan van Tulleken, Elizabeth Shapiro, Patrik Forsberg, Olle Sarri, Jacob Fleisher, Greg Pritikin, James Gunn
Elenco: Elizabeth Banks, Kristen Bell, Halle Berry, Gerard Butler, Seth MacFarlane, Leslie Bibb, Kate Bosworth, Josh Duhamel, Anna Faris, Richard Gere, Terrence Howard, Hugh Jackman, Johnny Knoxville, Justin Long, Christopher Mintz-Plasse, Chloë Grace Moretz, Chris Pratt, Liev Schreiber, Seann William Scott, Emma Stone, Jason Sudeikis, Uma Thurman, Naomi Watts, Kate Winslet
Duração: 94 min.

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