Para quem conhece o estilo de Oz Perkins, sabe que ele se recusa a contar uma história por um viés trivial, ao invés disso, utiliza elementos clássicos ao tema e contrapõe com sua forma de explorar temáticas e personagens. O chamativo Longlegs: Vínculo Mortal colocou o nome do cineasta americano nos holofotes, aumentando a expectativa para o que faria, o resultado disso foi ter dois filmes anunciados no ano passado: O Macaco, seu longa mais comercial, e Para Sempre Medo que parece o típico título encomendado pelos estúdios — visto o resultado lucrativo que o longa estrelado por Maika Monroe atingiu. O intrigante aqui é que não encontramos em Keeper a obstrução que Perkins aplica em seus trabalhos, e sim uma narrativa que escancara sua previsibilidade a fim de criar o suspense.
Nesse sentido, se compararmos The Monkey e Keeper com trabalhos anteriores, há um distanciamento notável do estilo que Perkins segue. A exemplo de Longlegs que trouxe traços de um thriller policial para o terror sobrenatural e psicológico, enquanto aqui, a típica premissa sobre um casal que se muda para uma casa isolada e passa a vivenciar experiências estranhas se mistura a uma alegoria sobre homens tóxicos. A construção usada para tornar o suspense interessante é seguir por uma lógica que o telespectador imagina: há algo de estranho com o relacionamento, com ares de “dormindo com o inimigo”, porém, não sabemos como isso será posto uma vez que o filme faz a linha previsível. Se a sacada era elaborar uma falsa esperança para quebra de expectativa e, ainda assim, fazer o óbvio, Para Sempre Medo dá um show de desinteresse.
A impressão é que estamos diante de um filme que não sabe o que fazer com a narrativa nem como construir o suspense em torno do seu mistério — que não pretende ir além do que parece. Então, o acerto de Keeper está na tensão atmosférica e no impacto visual, e nesse ponto, há momentos memoráveis que se aproximam de um terror psicológico surrealista. Porém, são qualidades que se perdem em meio a narrativa sem sentido e trama desinteressante. A todo tempo reconhecemos o molde do suspense à là Super Cine da vítima que está sob o mesmo teto de um estranho, mas ao mesmo tempo é como se não tivesse esforço para tirar a premissa da trilha da obviedade. E não é que esse seja o charme do longa, e sim que falta força de vontade para tornar o seu resultado de apático, insosso, visualmente impressionante, e incrivelmente genérico.
A consequência de se acostumar com um estilo de direção é esperar pelo exercício característico, e no caso de Perkins, por algum motivo, os seus dois últimos filmes trilham para ser diferentes do que tem feito. Se O Macaco foi sua aposta mais comercial para o gênero, Keeper é Perkins em um nível menos Perkins. Há a construção de atmosfera, mas ela é anticlimática. E até a conhecida demonstração do terror em sua forma como se partisse da natureza, aqui tropeça em doses de jumpscare, embora seja marcada com um visual forte, desconcertante e que cresce com a trilha sonora estridente. Colocando todos esses elementos na balança, há traços do folk horror, do suspense tradicional que — nas linhas de definição da atualidade se enquadra como “good for her” — que pode ser lembrado pela protagonismo e performance de Tatiana Maslany e do visual inspirado, mas que não satisfaz como um conto de horror sobre relações tóxicas.
No mais, Perkins tenta imprimir seu estilo ao roteiro simplório de Nick Lepard que quer trazer ao plot sobre um casal numa cabana isolada, uma mitologia que se estende para o sobrenatural e surrealismo ao abordar uma alegoria direta sobre o lado obscuro de um relacionamento.
Para Sempre Medo (Keeper – EUA, 2025)
Direção: Oz Perkins
Roteiro: Nick Lepard
Elenco:Tatiana Maslany, Rossif Sutherland, Birkett Turton, Eden Weiss, Cassandra Ebner, Tess Degenstein, Erin Boyes, Gina Vultaggio, Claire Friesen, Christin Park, Glen Gordon, Logan Pierce
Duração: 99 min
