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Crítica | Para Todos os Garotos… PS: Ainda Amo Você

por Iann Jeliel
34 views (a partir de agosto de 2020)

“Às vezes temos que beijar outro homem para ver aquele que queremos de verdade.”

Costumo não questionar a necessidade de continuações, afinal é totalmente possível credibilizá-las em uma própria criatividade dentro do que já foi estabelecido no que as procedeu. Infelizmente, não há como defender todos os casos, principalmente quando o resultado em execução sai aquém ou distorce o que qualitativamente já estava satisfatório, e nesses casos, não tem como não dizer que o mercadológico não tenha falado mais alto. Tratando-se de adaptações de livro, existe ainda os pormenores na origem literária, sendo assim, acredito que o erro começa quando Jenny Han decidiu transformar seu conto em uma trilogia, e consequentemente isso se verbalizou na sequência adaptada do fenômeno da Netflix em 2018.

Com muito olhar torto por parte da crítica, o primeiro filme, em minha perspectiva, era muito mais que apenas as aparências de “filminho” moldado a um público específico, ele modernizava a linguagem adolescente mistificada por John Hughes num contexto feminino, no qual a realizadora Susan Johnson demonstrava exímio conhecimento. Em todas as instâncias, a segurança na abordagem dos temas, referentes às inseguranças existenciais de Laura Jean, sensibilizava-os por serem palpáveis, bem distribuídos em tom, sem cair num amadurecimento prematuro forçado de filosofias incoerentes, tampouco bocós, como se todo adolescente fosse exagerado, um belo e autônomo controle da diretora sobre seu filme, e o principal erro dessa sequência foi não voltar com essa abordagem, ao menos não por completa, substituindo pelo iniciante na direção Michael Fimognari, fotógrafo do anterior.

O amadorismo e a falta de visão acerca das problemáticas dos personagens fizeram muita falta, em especial para o tratamento de clichês já vigentes na narrativa, dissipados em personalidade, ainda que se mantenha um bom preenchimento visual. Não tenho problema com clichês, afinal é a sua execução que dita sua funcionalidade, porque são elementos convencionais de fácil acessibilidade. Susan sabia muito bem utilizá-los na decupagem dos planos, sua câmera passeava pela ambientação literalmente à Kubrick, seguindo uma lateralidade aberta que naturalizava o universo. Enquanto isso, Michael só abre o plano e não se permite ser livre com essa abertura, sua câmera se prende em um cômodo e desenvolve os diálogos a partir da troca de imagens frontais que não preenchem substância alguma à narrativa.

Característica tipicamente novelesca, perceptível também no texto, beliscando a maturidade do discurso passado sem o mesmo conhecimento, levando à derivação e à quebra de carisma.  Aliás, observar a temporária duologia é estudar as diferenças de trabalho entre um fotógrafo e um(a) diretor(a), e a dificuldade de um funcionar sem o outro. Não adianta ter uma fotografia intencionalmente bem trabalhada, bonita, se não tiver um direcionamento comunicacional com toda a unidade e propósito do filme. Isso acaba fragilizando os elementos primordiais do roteiro, girados ao redor do amadurecimento. Falta a compreensão de falha para o aprendizado se tornar evolutivo, os conflitos parecem surgidos de uma irracionalidade conveniente, por mais que a fotografia consiga repassar a sensibilidade da idealização que será quebrada no percurso, são escolhidos os piores caminhos para demonstrar isso.

Para um filme cujo foco é reciclado por outro triângulo amoroso, nem a provocação ao público em criar times funciona, é uma jogada em um desespero de justificar a sequência, mas no fim pouco modifica os desdobramentos narrativos ou mesmo os personagens. Primeiro que não sobra espaço para desenvolver o personagem de John Ambrose a ponto de ele ter uma competitividade com o arco já transformado do Peter, sendo assim, o texto busca reprimir um para alavancar o outro, buscando um benefício da dúvida no público e em Laura Jean, que ficará dividida entre características específicas que, segundo o recorte emocional de insegurança da personagem, terão um direcionamento bem claro de torcida. Além de deturpar o desenvolvimento anterior, na esperada virada pensando em fornecer um clímax dramático, aquilo construído sobre as costas do outro é também deturpado e se torna ciclicamente problemático.

Para ambos os garotos que ela amou e principalmente para a própria protagonista que parece se tornar refém das adequações do meio. Se Laura Jean era uma personagem que dentro de suas inseguranças se tornava mais forte e um símbolo dentro de um gênero, nesse filme ela repete a dose para o lado inverso e é dominada por influências alheias  idealizando o medo de cair na idealização. Nesse ponto, o filme contradiz o anterior e se torna uma continuação desnecessária por emaranhar um caminho fechadinho, deixando um buraco, que pode ser proposital dentro de um meio de trilogia a ser resolvido num terceiro filme, mas não deixa de ter sido amargo.

Para Todos os Garotos – PS: Ainda Amo Você (To All the Boys: P.S. I Still Love You, EUA – 2020)
Direção: Michael Fimognari
Roteiro: J. Mills Goodloe
Elenco: Lana Condor, Noah Centineo, Jordan Fisher, Anna Cathcart, Janel Parrish, Ross Butler, Madeleine Arthur, Emilija Baranac, Trezzo Mahoro, Holland Taylor, Sarayu Rao, John Corbett, Kelcey Mawema, Julie Tao, Momona Tamada, Christian Darrel Scott, Jill Morrison, Maddie Ziegler, Jayden Chow, Ryan Zhang.
Duração: 102 minutos

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