Crítica | Paradise Beach

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Costumamos associar alguns filmes franceses à aproximações com alguma obra de Nietzsche. Em Paradise Beach, porém, isso é diferente. Relacionado diretamente ao clichê dos bandidoamericanos que contém assaltos, strip-teases e tiroteios, Paradise Beach consegue espantosamente ser pior que a maioria dos filmes do mesmo gênero. E ressalto que, nesse caso, é mais difícil ser pior do que melhor.

Um grupo de ex-assaltantes vivem um verdadeiro paraíso na Tailândia. Porém, tudo começa a desandar quando Mehdi (Sami Bouajila), o antigo chefe dos bandidos, sai da prisão e busca um acerto de contas. Agora, o grupo precisa organizar um jeito de pagar Mehdi, ao passo que lidam com problemas pessoais e com diferentes gangues.

Eu nunca vi um filme que não começasse. Se o diretor e roteirista Xavier Durringer quis inovar nesse quesito, ele “completou seu objetivo”. Nos intermináveis 94 minutos de filme, Paradise Beach não consegue começar a história, e fica batendo sempre na mesma tecla. O primeiro e o segundo atos, por exemplo, são praticamente indissociáveis, visto que permanecem na figura de Mehdi repetindo a frase “vocês têm que me pagar”. No terceiro ato, parece que Durringer tentou começar algo, construindo uma ou outra cena de tiroteio. Contudo, isso não chega nem perto de ser suficiente para alavancar as expectativas sobre o filme: são sequências lentas e chatas e a obra, enfim, parece que terminou sem ao menos começar. Apenas o que lembramos da película é de Mehdi pedindo o seu dinheiro.

Considero uma afronta às artes cênicas chamar o que aconteceu nesse filme de atuação. A tentativa de fingir ser um personagem (chamarei assim) não funciona sequer com um do elenco. Mehdi consegue fazer a mesma cara de quando está jantando e de quando está em cenas de ação. Seth Gueko, como Zak, claramente estava lendo um script localizado atrás das câmeras. Hugo Becker (que atuou de forma convincente em Gossip Girl), como Frank, parece estar imitando um poste: ele não mexe as mãos. Flore Bonaventura, como Tatiana, na cena em que eles estão jantando e o seu marido a obriga a colocar as mãos na cabeça, adquiriu o prêmio de choro mais forçado do cinema. Enfim, só para não me estender muito nesse aspecto, nenhuma atuação consegue cativar o espectador; pelo contrário, é tão ineficiente que chega a causar angústia.

O filme conta com pouquíssimos cenários. E alguns percebemos claramente que foi alugado apenas a parte que foi realizada a gravação, pois a câmera permanece focada em um único ponto, sem mostrar o entorno. Isso não é um problema, visto que é mais econômico, mas existem diversas técnicas para que o espectador não perceba. Além disso, a obra pareceu ter economizado nos cenários e investido na trilha sonora, que conta com Halsey, Diplo, Khalid, Ellie Goulding, Cardi B, Bruno Mars e Zara Larsson. É uma pena que uma trilha tão completa tenha se escondido atrás de uma produção péssima.

Enfim, temos aqui ‘o pior filme do ano’ e, consequentemente, ‘o pior filme produzido pela Netflix’. Paradise Beach consegue incrivelmente errar em todos os aspectos, e ser muito inferior a filmes do mesmo gênero (destaco mais uma vez que isso merece um prêmio, de tão difícil que é). O único paraíso do filme é quando ele acaba.

Paradise Beach – França, 9 de novembro de 2019
Direção: Xavier Durringer
Roteiro: Xavier Durringer, Jean Miez
Elenco: Sami Bouajila, Tewfik Jallab, Mélanie Doutey, Hugo Becker, Kool Shen, Hubert Koundé, Seth Gueko, Sonia Couling, Chalad na Songkhla, Flore Bonaventura, Nessbeal, Dorian N’Goumou dit Dosseh
Duração: 94 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.