Crítica | Paranoia (2007)

Troque o estilo elegante e primoroso de Alfred Hitchcock por uma narrativa em diálogo com a linguagem do videoclipe. Pense que você já assistiu ao deslumbrante Janela Indiscreta e em Paranoia, encontra-se diante de uma história que mesmo sem assumir a sua inspiração nos créditos de produção, dialoga com os conflitos sofridos por James Stewart no citado clássico do mestre do suspense. Feito esse exercício de interpretação, você chegará ao filme de 2008 protagonizado pelo “garoto problema” Shia LaBeouf, um ator de habilidades dramáticas normais, sem nada de especial, mas que causou bastante barulho na mídia estadunidense que adora uma confusão sobre a vida alheia.

Como detalhes de tabloides vulgares assim não nos interessa enquanto críticos de postura reflexiva séria e engajada, devo logo dizer que a única relação entre as ações do ator problema e o filme é o seu personagem, um jovem com seus transtornos que causa confusão até achar alguém com uma alternativa de encarcera-lo. Tudo começa com o desagradável acidente de carro. No retorno para casa após uma pescaria, Kale Wilks (LaBeouf) e o seu pai representam a ilustração maior da falta de responsabilidade: dirigem e dialogam pelo celular com a mãe, Julie (Carrie-Anne Moss), num diálogo cheio de alegria sobre os peixes que pescaram e na certeza de que “não compraram no mercado da estrada”, alternativa que visaria demonstrar heroísmo para a matriarca, algo já realizado numa situação anterior.

Durante o percurso breve, a dupla é fechada por um carro imponente e se desconcentra, para logo mais, voltar ao celular. Como o “susto e o alerta” não foram suficientes, eles continuam o diálogo, agora cessado rapidamente ao colidirem com outro automóvel. O filho perde o pai querido, a esposa torna-se viúva e a família tradicional se enxerga diante do american way of life contemporâneo em tons de ameaça, principalmente pelo que acontecerá em seguida, afinal, tal como apresenta o cartaz de divulgação, “todo assassino é vizinho de alguém”. Diante do exposto, há o enterro, as confusões psicológicas do jovem ainda em luto, compreensíveis, e o conflito em sala de aula com um dos seus professores, algo que faz emergir de Kale Wilks os seus anseios de violência. Ele soca o professor e vai parar numa sessão jurídica.

Enquadrado pelos ditames da lei, principalmente por ser menor e ter a mãe como responsável por seus atos, o jovem Wilks é mantido em cárcere após o seu surto de fúria e precisará passar 90 dias em casa, tendo 50 metros de deslocamento como possibilidade diante de alguma urgência. Ao sair da condição estabelecida, a eficiente polícia do mundo ficcional é acionada imediatamente. Com o controle no tornozelo, ele recebe as orientações de Parker (Viola Davis), detetive que delimita os seus limites. O videogame é confiscado. Assim, o rapaz e vê diante da necessidade de jogar, usar o computador, conversar com o amigo bobalhão Ronnie (Aaron Yo), observar a vida alheia da vizinhança com o seu binóculo, postura voyeur que lhe concederá duas situações para resolver: a primeira é agradável, apesar de politicamente incorreta, pois ele se torna observador do cotidiano de Ashley (Sarah Roemer), personagem que se tornará seu interesse amoro, diferente do flagra em relação ao vizinho, o misterioso Rob Turner (David Morse), homem aparentemente perigoso que se torna suspeito (na visão do jovem) de um assassinato.

É quando os conflitos de Kale Wilks ficam mais acirrados, pois impedido de sair para resolver as coisas de maneira mais efetiva, vai depender dos amigos Ronnie e Ashley, além de uma série de coincidências para se tornar novamente uma pessoa aceitável e perdoada pela sociedade. Ao longo dos 105 minutos que acompanham o personagem, a direção de D. J. Caruso acompanha a trajetória dos personagens com uma equipe eficiente. A condução musical industrial de Geoff Zanelli cumpre as obrigações de uma narrativa de suspense que segue a cartilha hollywoodiana, agitada pela cortante edição “amolada” de Jim Paige, aparentemente conectada com o padrão MTV. São elementos de entretenimento que não surgem como algo ruim, mas apenas “enlatado”, algo esquecível para consumo rápido, diferente do filme que serviu como ponto de partida: o estilizado Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.

Apesar da ficha indicar que o roteiro de Christopher Landon baseia-se no argumento de Carl Ellsworth, é preciso destacar que na execução da narrativa, torna-se impossível dissociar a imagem, os personagens e a proposta dramática dos conflitos do clássico de Hitchcock. A comparação é para dissociar o ponto de partida (magnífico e estiloso) do contemporâneo (raso e apenas um entretenimento ligeiro). Desde já, devo dizer que é injusto apontar Paranoia e dissecar os seus defeitos sem ao menos assumir que o filme em si não se interessa em momento algum na maestria da imagem. Talvez se fosse filmado por alguém como Brian De Palma, mas não é, a produção que traz um cuidadoso design de produção, assinado por Tom Southwell quer sacudir as plateias mais jovens e entregar um filme de suspense óbvio, onde já sabemos mais ou menos cada passo que será dado pelos personagens e seu desfecho.

Lançado em 2007, Paranoia teve produção executiva de Steven Spielberg. A história, escrita em 1990, foi deixada de lado por bastante tempo, pois ao longo da década o ator Christopher Reeve interpretou o protagonista do remake de Janela Indiscreta, tratado com ojeriza pela crítica e renegado por amantes da arte de filmar de Alfred Hitchcock. Também, convenhamos, tomando Paranoia como ponto de observação, enquanto a sua trama é dinâmica e cheia de humor, o clássico é tenso, discreto e estático, um exercício de linguagem cinematográfica cuidadoso. Sabemos que os tempos são outros, os códigos sexuais e a exploração da violência nas décadas em que Hitchcock filmou e o contemporâneo são diferentes, mas ainda assim, o que se questiona aqui é a necessidade de produzirmos entretenimento inteligente.

Com uso de sons diegéticos, o clássico que serve de ponto de partida explora o olhar do humano diante da fascinante atração em relação ao que é olhado, o poder de observar as intimidades alheia sem ser notado. Em sua condução musical, a narrativa fez história, juntamente com seu visual deslumbrante, assinado por Edith Head e edição sofisticada de George Tomasini. Janela Indiscreta se baseou no conto Tinha Que Ser Assassinato, de Cornell Woolrich, e foi conduzido por uma equipe técnica que permitiu ao cineasta Alfred Hitchcock segurar o cajado da inspiração para outros realizadores, dentre eles, Brian De Palma em Dublê de Corpo, Philip Noyce em Invasão de Privacidade, Dario Argento em Você Gosta de Hitchcock?, além dos os acontecimentos da quinta temporada de Castle, das releituras paródicas em Os Simpsons e Os Flintstones e do filme que compõe a análise em questão, Paranoia.

Paranóia (Disturbia, Estados Unidos, 2007)
Direção: D. J. Caruso
Roteiro: Eli Roth, Nicólas López, Gilhermo Amoedo
Elenco: Shia LaBeouf,Aaron Yoo, Amanda Walsh, Carrie-Anne Moss, Cathy Immordino, Charles Carroll, David Morse, Dominic Daniel, Elyse Mirto, Jose Pablo Cantillo, Kurt David Anderson, Matt Craven, Sarah Roemer
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.