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Crítica | Paris is Burning

por Fernando JG
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Quando a gente vai analisar uma obra, não importa de qual gênero, somos sempre levados por uma tendência crítica que tem raízes na tradição aristotélica de que a estrutura formal da peça é sempre muito importante. Ou seja, se o escritor, cineasta e diretor sabe construir um plot, ou um desenlace, um clímax, boas relações entre os personagens, cenografia, tempo de aparecimento, etc. Não é de hoje, como se sabe, que a crítica de arte é engolida pelo formalismo que tem origem nos preceitos lançados por Aristóteles na Poética, a obra que funda a teoria e a crítica literária e a teoria da narratividade, seja ela literatura ou cinema. Com isso, fico pensando: o valor de uma obra está realmente na excelência de seus aspectos formais? E quanto ao tema? O quanto ele pode se sobrepor às características técnicas? É mais ou menos isso o que eu acho que acontece no Paris is Burning, de Jennie Livingston, no qual a temática é muito mais relevante do que qualquer formalismo técnico da arte cinematográfica, ou de preceitos técnicos que regem a estruturação de um documentário, onde o valor está exclusivamente nas história que conta, nos personagens filmados e no momento histórico captado, que documenta uma riqueza e um valor inestimado não só aos grupos LGBTs (e outras siglas), mas à cultura como um todo.

O cinema queer de origem mais subversiva, e eu penso exclusivamente no Pink Flamingos (1972), Rocky Horror Picture Show (1975), Querelle (1985) e até mesmo o divino Madame Satã (2002), busca romper, através da imagem, com a força da normatividade que opera também a cinematografia, abrindo um caminho gigantesco para que o cinema, enquanto um produto social, possa realocar grupos que antes nunca tiveram palco em um show. É neste contexto, de um queer ainda subversivo, que Paris is Burning dá voz à cena LGBT mais importante da década de 80, que é a explosão do Voguin’ no subúrbio nova-iorquino. 

O documentário atravessa diversos episódios da cultura Voguin’ e da Ball Culture e mergulha no universo particular dos personagens, captando, além da extravagância do próprio baile, os relatos da violência, da desigualdade, das contradições sociais, dos desejos pessoais e também do contexto LGBT naquele tempo, que tinha o fantasma da Aids no encalço. Falando da doença, não importa muito escrever sobre o estigma da Aids nos anos 80, até porque é chover no molhado, e Pose já fala muito bem disso, além de outros filmes icônicos da época, como Gay USA (1977) e do devastador Buddies (1985), ambos do Arthur J. Bressan Jr., que falam insistentemente do problema da infecção naqueles anos. Apesar do filme ter um forte apelo estético inerente à opulência dos ballrooms, ele demonstra uma importância cultural ímpar para além da imagem e da beleza, fazendo um registro histórico de um período crucial para o desenvolvimento da cultura, sobretudo dos grupos queers, pois não se fala apenas de homens gays, drags e transsexuais, mas também da população afro-americana e latina residentes na periferia de Nova York. 

O enredo apresenta o funcionamento dos bailes, que são mais do que uma competição, são literalmente uma guerra, e quem vence se torna uma lenda, chega aos holofotes, aos famigerados “spotlights”. Vencer a uma categoria do baile é como ganhar um Oscar e se tornar uma estrela. Essas competições têm várias categorias: realness (quem se assemelha mais à uma mulher); corpo perfeito (quem tem as melhores definições corporais); elegância (diz respeito à fineza), além da própria competição de Voguin, a estilizadíssima dança que busca imitar as poses e as linhas de expressões das modelos da Vogue, a revista. Ou seja, é tudo muito estetizado e isso traz um brilho para a atmosfera do documentário. A série do Murphy, Pose, é inspirada em todos os níveis neste filme, que é mais do que um longa-metragem, mas um documento e um registro histórico, e a própria cineasta foi consultora da série. Além de Pose, muitas das gírias utilizadas dentro do Rupaul’s Drag Race vêm de lá, como shady. Falando em shady, ou shade, um episódio importante do longa é o momento em que ele se divide em subcapítulos para explicar alguns termos utilizados pela grande maioria deles, e é divertidíssima a explicação. Embora a cena da explicação seja divertida, ela atua como um registro linguístico do uso da língua neste meio, o que é um feito notável. 

O filme é composto por duas partes complementares: a primeira faz a apresentação geral do contexto, dos personagens e da atmosfera; a segunda aprofunda um estudo sobre as personalidades, o que por vezes assume um tom de melancolia com histórias desoladoras, como a da Venus Xtravaganza. A segunda parte é essencial para o desenvolvimento, pois não apenas contextualiza o baile, mas também todas as questões e os problemas passados pelo elenco, que é basicamente o trauma de ser um LGBT nos anos 80, em que ou você é um monstro ou você é um doente. Outro personagem importante é Pepper LaBeija, que conduz o documentário a partir de relatos pessoais, além de narrar todo o funcionamento de um baile: como ocorre, o que ocorre, quem participa, etc. O filme deixa transparecer a relevância social dos ballrooms que são, no íntimo, uma espécie de lugar de acolhida, de apoio, de formação de uma família. Esses grupos criam vínculos entre si tentando preencher uma falta que vem de berço, uma falta que é rejeição como um todo, sobretudo da família, e nesses ambientes eles se encontram e podem ser reconhecidos, conhecidos e celebrados. 

O ano de lançamento do filme é também o ano do Vogue, da Madonna, mas ainda mais especial: é o ano da publicação do badalado  Problemas de Gênero, da Judith Butler, a complexa e dificílima obra da filósofa norte-americana, que vai problematizar e definir o termo queer como entendemos hoje, ou seja, a manifestação do diferente e a ruptura com a normatividade; a noção trabalhada por Butler é, em resumo, toda a proposta do argumento documental de Paris is Burning, que trata de uma tradição iniciada por drag queens no Bronx e no Harlem. O que é mais queer do que isso? O documentário faz uma apropriação consciente do seu meio e demonstra uma atualidade ímpar não só da cena cultural, mas também dos debates teóricos que estavam em alta naqueles anos.

Apesar de Fassbinder em seu Em um Ano de 13 Luas já ter antecipado, em quase vinte anos, o problema da performatividade de gênero, em Paris is Burning as coisas ficam muito evidentes. Discussões sobre o gênero, a classe e a raça estão entrelaçados na trama documental, sendo questões indissociáveis do curso dramático. No filme, uma das grandes propostas é a de que o gênero é uma performance, e que se aprende imitando. A categoria “realness”, que é a categoria que propõe aos participantes ser tão reais quanto uma mulher cisgênero, evidencia essa perspectiva dentro da narrativa. A proposta é performar como uma mulher. Aqui, as drag queens assumem um papel muito importante de performar o feminino, que é esse visual socialmente construído. De certo modo, o documentário investiga, cinematograficamente, um tópico fundamental do Problema de Gênero da Butler, que é o conceito de performatividade – e o longa só tende a mostrar a sua relevância na cena. 

Na obra de Butler, há uma preocupação em desfazer a binaridade de gênero (homem e mulher como categorias fixas e imutáveis), conferindo, por exemplo, às drag queens um ato de paródia. A proposta dela é de que o gênero é social e performativo, com isso, uma forma e não um conteúdo, ou seja, ser mulher e ser homem não passa de uma performance, em que todos aprendemos a partir da repetição diária. Os personagens dentro do baile, sobretudo na categoria “realness”, fazem exatamente isso: performam o gênero, mostrando o quanto ele é mutável e plástico. O grande ponto, neste aspecto, é que não é ficção, mas é a documentação de uma manifestação real, de grupos reais, que colocam em prática, a partir de manifestações naturais, uma teoria que vinha se desenvolvendo dentro da academia, movimento as discussões sobre o tema. 

A lista de premiações do longa-metragem excede ao período que foi lançado. Muito premiado nos circuitos independentes de São Francisco, Nova York, na Associação de Críticos de Los Angeles em 1990, na Berlinale no mesmo ano, em Sundance, entre outros, o filme, em 2016, foi eleito como um patrimônio cultural e estético pela National Film Preservation Board, além de ter longa lista de prêmios recebidos. Paris is Burning fez um sucesso estrondoso e foi analisado até pela bell hooks (em minúscula mesmo) no texto “Is Paris Burning?”. A cineasta Jennie Livingston, por meio de um filme-documentário, produz uma pedra preciosa e um documento de um período incontornável da cultura queer no subúrbio nova-iorquino e contribui largamente para a história do cinema e da cultura em sentido amplo.

Paris is Burning (idem, EUA, 1990)
Direção: Jennie Livingston
Roteiro: Jennie Livingston
Elenco: Pepper LaBeija, Dorian Corey, Angie Xtravaganza, Willi Ninja, Octavia St. Laurent, Venus Xtravaganza, Freddie Pendavis, Will Pendavis, Junior LaBeija, Paris Dupree, Carmen Xtravaganza, David DePino, Danni Xtravaganza, Sol Pendavis, Avis Pendavis
Duração: 80 minutos. 

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