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Crítica | Passageiro Acidental

por Iann Jeliel
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Se a premissa de Passageiro Acidental soa um pouco absurda – afinal, é muito improvável que uma missão espacial, especialmente se tratando de viagem para outro planeta,  acidentalmente deixaria passar alguém não tripulante a bordo -, ela traz uma base interessantíssima de possibilidades dramatúrgicas, devidamente bem aproveitadas pelo cineasta brasileiro Joe Penna dentro de seu recorte proposto. O original Netflix, na verdade, à frente de uma ficção científica, soa quase como um experimento social trabalhado pela hipótese desse acaso inicial. Tanto que não importa muito no filme qual é a razão daquele passageiro ir parar ali. Ainda que sirva de tensão primária, o grande conflito está no drama de sobrevivência sem recursos e os dilemas morais que isso carrega.

É verdade e não dá para negar que esse verdadeiro conflito demora para se instaurar, ou no mínimo, flerta com vários caminhos até atingir esse espectro. Não culparia aquele que chegou de paraquedas e imaginou que seria um terror espacial, em que o passageiro misterioso teria uma motivação maior para estar ali, inclusive sendo uma ameaça à vida de todos. Na verdade, esse gatilho de possibilidade, a meu ver, é intencional por parte do roteiro. A escolha do personagem negro ser justamente o “intruso” certamente foi implante de julgamento ideológico à espreita de uma atuação explícita, a depender das atitudes que os cientistas tomam na narrativa, e implícita para o nosso julgamento como observador do que será a tensão. É um acréscimo necessário, porque no fim das contas, o recorte escolhido reverbera de alguma maneira na humanidade atual, em isolamento, lutando por recursos limitados e com a ciência à disposição para promover soluções em que todos possam sair bem e com vida, independentemente de um possível “maior merecimento”.

Claro, esse lado mais alegórico não exatamente chega a ser posto em xeque pelo filme, que está muito mais interessado em ser direto no drama específico do quarteto, e para isso utiliza bem esses espaços que “flertam” com propostas diferentes para desenvolver devidamente a personalidade de cada um e o que eles vão ter que sacrificar durante a trama para a resolução do impasse. Mais do que isso, o diretor centraliza muito bem nos primeiros minutos a importância de cada um na esquematização da missão, para assim que surgir o acúmulo de problemas, compreendermos a sua escala em dimensão grandiosa, ao mesmo tempo em que é isso que estabelece o tom naturalista e rotineiro da narrativa. Para alguns, essa estruturação meio contemplativa pode soar enfadonha, mas penso dentro da proposta como uma maneira de deixar a história em constante tom convidativo.

O problema é que ela fica à mercê das expectativas criadas dentro de si mesma. Assim, o clímax carrega uma grande responsabilidade para si e certamente é um grande divisor de águas por não necessariamente querer entregar algo recompensador, mas trazer um discurso recompensando o acúmulo da situação desfavorável criada. Particularmente, gosto bastante do ato final, de como ele potencializa algo que o filme inteiro fez muito bem, que é incluir o realismo das dificuldades geográficas como mote para a dificuldade de encontrar uma solução, só que num tom mais urgente pela temporalidade limitada. Nesse momento, a atmosfera anteriormente levantada se justifica ao ser replicada para dar ênfase a cada etapa da ação no espaço, ainda mais relevante, dada a exploração devida dos personagens para gerarmos um vínculo empático com todos eles – devidamente bem interpretados – e nos importarmos com o que pode acontecer, caso dê errado.

Mesmo apoiada no amplo realismo, é o emocional em jogo que gratifica a sequência, torna-a imprevisível, e nas decisões tomadas é que se localizam a beleza da história. Apesar de um tanto niilista, a visão da obra a respeito da vida coletiva acima da individual é bem comovente. Não chega a colocar Passageiro Acidental no hall dos grandes, reflexivos e memoráveis filmes do gênero, mas certamente pela forma que é concebida o coloca à frente de obras confortáveis, mesmo que a proposta desse também não seja sair muito do seu conforto. A diferença é que aqui não precisa sair ao invés de faltar algo para entregar. É um bom filme justamente por saber executar significativamente a sua contida ideia.

Passageiro Acidental (Stowaway | EUA, 2021)
Direção: Joe Penna
Roteiro: Joe Penna, Ryan Morrison
Elenco: Anna Kendrick, Toni Collette, Daniel Dae Kim, Shamier Anderson
Duração: 115 minutos

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