Crítica | Pássaro do Oriente

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“É fácil ignorar as pessoas quando elas estão em silêncio.”

Confesso que se alguém me contasse que uma história abordaria o fetiche de tirar fotos de pessoas mortas, eu riria e consideraria a pauta como psicopata. A Netflix, que parece não ligar nem um pouco para o que eu penso, porém, produziu exatamente um filme com esse tema. E o pior: deu muito certo.

Pássaro do Oriente conta a história de Lucy Fly (Alicia Vikander), uma garota marcada pela sua infância sombria que foge para o Japão a fim de esquecer o passado. Na nova cidade, Lucy vive uma boa vida, até que Teiji (Naoki Kobayashi) aparece. O fetiche de Teiji em tirar fotos de garotas em diferentes ângulos e situações (mesmo estando mortas) levanta as suspeitas de Lucy, que agora precisa descobrir a realidade, ao passo que lida com uma nova amiga do Ocidente, Lily Bridges (Riley Keough), e com as marcas da sua infância.

É incrível como uma história tão lenta consiga passar tão rápida. São 106 minutos de sequências lentas, sem qualquer tipo de ação. Além disso, essas cenas se desenvolvem de maneira subjetiva, ou seja, de difícil entendimento. Com esses artifícios, seria comum que o espectador se cansasse da obra. Isso não acontece, porém. Embora o roteiro seja pausado e complexo, as cenas constantemente voltam a acontecimentos passados da história, de modo a torná-las cada vez mais explicadas. Assim, o espectador consegue acompanhar o desenvolvimento da narrativa.

SPOILERS!

O excesso de cenas lentas, em certos pontos, é um erro (e cabe aqui o motivo de o filme não ser cinco estrelas). Enquanto algumas cenas não tão significativas para o filme percorrem lentamente, outras importantes perdem o seu brilho por serem mais rápidas do que deveriam. Tomemos em conta duas delas: a de Lucy conversando com Lily em sua festa de aniversário e a de Lucy olhando as fotos que Teiji tirou de Lily morta. Obviamente a que contém mais impacto é a segunda, ainda mais porque é ali que a obra retoma a tudo que aconteceu anteriormente. Porém, a primeira tem muito mais tempo de desenvolvimento, mesmo que ela se embase apenas em Lily e Lucy falando como Bob (Jack Huston) é bonito.

Um ponto interessante é a fotografia. Em filmes de terror, usualmente é utilizada cores pesadas. Contudo, as cores de Pássaro do Oriente são vibrantes e vívidas. Essas cores comumente são utilizadas em clichês e  trazem um ar de alegria. No presente caso, entretanto, essa fotografia faz exatamente o contrário. As cores vibrantes realçam o clima delicado do Japão, ao passo que, em cenas escuras, salienta o nervosismo e o suspense. 

Outro aspecto positivo é a trilha sonora. Ela consegue adentrar na obra com eficiência, de modo que em certos pontos nem percebemos que a música está tocando. Isso não é algo ruim, visto que se a trilha passa despercebida, é porque ela foi introduzida de forma eficiente. Além disso, a trilha, junto da fotografia, realça o suspense em cenas escuras, ao mesmo tempo que levanta um clima leve em cenas claras.

Pássaro do Oriente consegue desenvolver uma história diferente de forma eficaz. Embora a narrativa seja difícil de entender, e algumas cenas precisem de mais tempo para serem desenvolvidas corretamente, a obra é uma grande produção Netflix, ainda mais por se tratar de um tema inovador.

Pássaro do Oriente (The Earthquake Bird) – Reino Unido, 15 de novembro de 2019
Direção: Wash Westmoreland
Roteiro: Wash Westmoreland
Elenco: Alicia Vikander, Riley Keough, Naoki Kobayashi, Jack Huston, Kiki Sukezane, Yoshiko Sakuma, Ken Yakamura, Kazuhiro Muroyama, Crystal Kay
Duração: 106 min.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.