Crítica | Passeio Noturno I e II, de Rubem Fonseca

Dono de uma prosa peculiar no cenário da literatura brasileira do século XX, Rubem Fonseca foi um dos nossos escritores mais emblemáticos quando o tópico temático da crítica era a abordagem da violência urbana e a crueza (e frieza) de alguns relacionamentos humanos. Além do talento para o desenvolvimento de material ficcional envolvente, o autor formado em Direito exerceu outras diversas funções antes de se estabelecer no campo que o premiou com o Troféu Camões, em 2003. Isso não impede que seu passado seja apenas de ações para se gabar, afinal, foi apoiador do Golpe Militar de 1964 e atuou como roteirista contratado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais na época. Curioso é que tanto o romance Feliz Ano Velho quanto a coletânea de contos Feliz Ano Novo foram proibidos de circular pelo próprio regime abraçado por Rubem Fonseca, contradição que também impediu a circulação do famoso conto O Cobrador, um dos mais conhecidos e prestigiados de sua carreira de escritor.

Dissociado, no entanto, da vergonhosa fase política na tenebrosa década de 1960, a reflexão em questão pretende se ater apenas aos contos em questão, Passeio Noturno I e II, histórias concisas e bem elaboradas pelo autor, material potencialmente qualificado para se tornar um capítulo de minissérie ou quem sabe, um bom filme. Diante do exposto, mergulhado no método sincrônico entre leitor e obra, exponho uma reflexão atualizada do conto, sem trafegar por supostas intenções ou interpretações de sua época de lançamento, isto é, 1975, ocasião da publicação da coletânea que contém as duas histórias como parte integrante do “todo”. O que encontramos em Passeio Noturno I é um patriarca burguês muito dedicado ao trabalho, apresentado aos leitores numa narrativa em primeira pessoa. A sua rotina envolve o laborioso dia no escritório, seguido da ida para casa e do desconforto em lidar com a família indesejada.

A mulher de vez em quando faz algumas críticas, expõe que ele trabalha tanto e deve ganhar igual aos demais sócios da empresa, colocações que parecem não despertar nada no personagem além do desprezo, mas não o ato de ignorar tomado por ira e desejo de vingança. Ele apenas a ignora, tal como muitos casamentos fracassados que conhecemos na vida real, já expostos de maneira irônica e bastante ácida nos contos de Nelson Rodrigues em A Vida Como Ela É. Assim, na concisão de uma história breve, mas marcada por um potencial conflito de ordem social e psicológica, o narrador-personagem sai de casa supostamente dedicado a um passeio para desanuviar. E, em seu momento de relaxamento, utiliza o carro, a extensão de seu corpo, para aniquilar vidas alheias, com requintes de muita crueldade.

Ao que tudo indica, toda noite, ele sai para ceifar uma vida. É a sua sessão terapêutica, “o expurgo de suas noites criminosas”. A justificativa parece ser a pressão no ambiente de trabalho, as obrigações diárias com a família e o estresse da travessia pela cidade. Com cenários reduzidos, indo do apartamento ao carro e alguns ambientes públicos que são sempre externos aos acontecimentos, geralmente narrados sob o ponto de vista de quem está dentro do próprio carro, uma máquina de matar sem piedade. Na continuidade, intitulada Passeio Noturno II, o personagem flerta com uma mulher em pleno trânsito. Ela o envia um bilhete e logo em breve ele entra em contato para marcar um encontro. Seus pensamentos misóginos vão dos xingamentos de “puta” ao desejo de possui-la de alguma forma, não necessariamente no âmbito sexual.

Mais uma noite ele sai, toma o seu carro luxuoso, acompanha a tal dama no jantar e na saída, após a carona, arruma uma forma de desestabilizá-la na saída do automóvel e diante da situação, faz o seu novo ataque. Desta vez, com descrições minuciosas de um perito. Ele não apenas mata, mas precisa destruir o corpo com o seu carro descrito como “um jaguar preto com para-choque salientes, reforço especial duplo de aço cromado e capô aerodinâmico. É a sua extensão mágica, a sua “máscara slasher”, uma complementação que lhe fornece o gozo para aliviar as sensações que pedem alívio em sua vida de agitação constante. Com qualquer sentimento que o associe com a sua família, este espaço passa por um processo de esvaziamento e impede qualquer construção dupla para o narrador, um assassino frio.

No primeiro conto, a morte vem de uma pessoa desconhecida, na qual não temos nenhuma relação enquanto leitor, pois não há o mínimo desenvolvimento como houve em seu flerte que foi seguido de jantar e morte. Dinâmico e intrigante, o conto explora de maneira assustadora a faceta violenta de alguém que pode ser parte do nosso convívio e nós sequer imaginamos. É o horror numa determinada zona urbana brasileira que serve de ilustração para qualquer grande metrópole mundial tomada hoje pela violência e caos intermináveis. Econômico em adjetivações, Rubem Fonseca acertou no desenvolvimento de um personagem enigmático e sombrio, mas extremamente humano, longe de qualquer tom sobrenatural que diminua a sua maldade realista, fruto de uma mente perturbada que circula pelas ruas descritas com detalhes igualmente nebulosos pelo autor, espaços que numa tradução intersemiótica, imagina-se ter pouca luz, silêncio e movimentação quase nula, lugar ideal para ação de “nosso monstro”.

Passeio Noturno I e II (Brasil, 1975)
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Nova Fronteira (Coleção Saraiva de Bolso)
Páginas: 8.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.