Crítica | Patrulha do Destino – 1X02: Donkey Patrol

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  • Há SPOILERS. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Vocês já viram críticos chatos (não vou falar quem) discutindo sobre o que significa uma boa adaptação com indivíduos que tiveram dificuldade na formação de sinapses durante a primeira infância? Vou poupar-lhes os detalhes sórdidos, mas a discussão segue pela estrada de manutenção da essência em relação à obra original e deságua na compreensão do leitor/espectador/ouvinte para o fato de que adaptar não é sinônimo de transcrever ou copiar. No caso de Patrulha do Destino, temos a versão televisiva da DC Comics para uma de suas equipes mais malucas e isso de cara abriu as portas para o showrunner e seu time de roteiristas pensarem em como toda essa maluquice dos quadrinhos poderia ser transposta para as telas de modo que a versão televisiva mantivesse a essência do original (caraterística de toda boa adaptação) e também tivesse a capacidade de criar o seu próprio Universo a partir da fonte, cheio de novas peças e com sua própria identidade (também caraterísticas de uma boa adaptação).

O primeiro ensaio para isso veio em Pilot, a inesperadamente incrível estreia da série. Na ocasião eu atestei que, exceto pela destoante cena final, o show havia chegado com o pé direito e criado muito bem a base para uma fantástica jornada de insanidades, diante da qual eu tinha apenas um receio imediato: a apresentação de Cyborg. Em Donkey Patrol, o personagem de Joivan Wade (nosso Rigsy de Doctor Who) foi enfim introduzido na série, e os temores ligados à sua chegada rapidamente desapareceram. O tom do roteiro de Neil Reynolds e Shoshana Sachi nesse segundo capítulo é ainda mais maluco e abraça com muita competência aquilo que vimos nas HQs da Patrulha desde o seu Primeiro Volume: quebra de 4ª Parede, comportamentos que vão do infantil ao puramente raivoso ou cínico por parte de alguns membros da equipe, caraterísticas emotivas e formas de encarar o mundo solidamente diferentes e um humor que faz uma breve visita a todas as escolas cômicas possíveis.

A ação parte da continuação destrutiva da cidade, como vimos no episódio passado, e a capacidade nula de Larry, Cliff e Rita fazer alguma coisa se mostra de uma vez por todas. Particularmente adorei o fato de a série começar com eles patinando na visão de si mesmos como heróis, e é mais do que óbvio que a produção está querendo evitar os imediatismos heroicos cometidos em Titãs. Existe uma linha depressiva e de baixa estima que marca a vida do trio principal da equipe, curiosamente, o mais despreparado e o de maior faixa etária. Os mais jovens, Crazy Jane e Cyborg é quem encabeçam algumas ações notáveis de luta contra o Sr. Ninguém. Para todos os efeitos, ainda estamos na trajetória de apresentações e aprofundamento de histórias, mas com total recusa de didatismo ou retomada de dilemas ad infinitum, tal qual observamos na construção de Dick Grayson em Titãs, por exemplo.

O texto entende o que significa “mostrar coisas por ângulos diferentes” e, com esse pensamento em mente, não se contenta em apenas repetir eventos trocando o eixo da câmera ou da narração, mas utiliza cada um desses novos espaços para nos falar a respeito dos personagens. Melhor ainda: falar de coisas difíceis de se colocarem em uma série sem que pareçam uma aula de psicologia barata cimentada por discursos motivacionais (alô alô The Flash!). Lembrem-se da cena de ilusão e tortura do Sr. Ninguém dentro do burro-portal. A passagem pela vida de Rita, Larry e Victor é acompanhada pelo andamento lógico da história. Não há interrupção de uma coisa para que outra aconteça e este é o maior triunfo de Donkey Patrol: falar de muitas coisas, aprofundar o desenvolvimento de personagens, dar sequência à história e ainda assim fazer com que todo o material seja orgânico. Eu até poderia destacar algumas rusgas nos primeiros quatro minutos do episódio, antes de Crazy Jane pular dentro do buraco, mas são pontos tão insignificantes diante de todo o resto, que perdem a força.

De uma barata-reverendo em meio ao Apocalipse até a finalização do episódio com Lazarus, de David Bowie (atentem para o simbolismo), Donkey Patrol é um daqueles episódios que a gente termina e lamenta que uma hora inteira tenha se passado tão rápido. O diálogo do Sr. Ninguém com os “fãs de Grant Morrison“; a química maravilhosamente explosiva entre Cliff e Cyborg (já são os meus favoritos!); a tentativa de Larry em encontrar a si mesmo (aliás, o fato de ele ser um gay — ou bi — no armário foi uma ótima sacada para abordar o fato de que precisa se conciliar com o Homem-Negativo dentro dele); a exploração das personalidades de Crazy Jane e os primeiros passos para convencer Rita de que “não ser inteiramente bela” não significa que a vida dela tenha que ser uma recusa quase completa da realidade são pontos dos quais não nos esquecemos e que fazem desse episódio o primeiro grande tosão de ouro da Temporada. Que venham, então, muitos outros!

Doom Patrol – 1X02: Donkey Patrol (EUA, 22 de fevereiro de 2019)
Direção: Dermott Downs
Roteiro: Neil Reynolds, Shoshana Sachi
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Joivan Wade, Alan Tudyk, Matt Bomer, Timothy Dalton, Riley Shanahan, Matthew Zuk, Phil Morris, Julie McNiven, Kyle Clements, Sydney Kowalske, Gabrielle Byndloss, Drew Starkey, Karen Wheeling Reynolds, Brendan Fraser
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.