Crítica | Patrulha do Destino – 1X08: Danny Patrol

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  • Há SPOILERS. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Em agosto de 1990 chegava às bancas americanas a edição número #35 da revista Doom Patrol, com Grant Morrison nos roteiros mais Richard Case e John Nyberg na arte. Sob o título de Down Paradise Way, esta revista trazia a primeira aparição nos quadrinhos dos seguintes personagens: Sara Furness, Darren Jones mais os Men from N.O.W.H.E.R.E., Flex Mentallo e, o misterioso personagem que este soberbo episódio de Patrulha do Destino nos introduz na TV: Danny the Street.

O roteiro aqui é de Tom Farrell, que em 12 minutos cria a ambientação geral para cada um dos papéis representados na trama, dividindo o grupo em duas frentes: na primeira, Cliff e Rita tentando lidar com uma personalidade de Jane que só aparece quando ela está com baixa auto-estima. Na segunda, Larry e Vic seguindo o bolo. E aí a gente já começa a entender algo muito importante sobre Danny. Porque Danny sabe das coisas. Se você é uma rua não-binária, senciente e que se teletransporta pelo mundo recolhendo “diferentes”, num tipo fantasioso e sci-fi de Queer as Folk, você precisa saber como atrair pessoas até você, sem chocar ainda mais do que a sua própria existência pode chocar. E é aí que a sacada do bolo entra com perfeição. É como Larry disse, e com razão: “siga o bolo“. Quem não seguiria um bolo, depois de um jumento-portal, do Decreator, de Mr. Nobody e afins?

Pensado para expandir algumas questões em torno de Niles (é impressionante como tantos personagens parecem realmente gostar dele) e focar ainda mais em Larry, o episódio traz algo que me deixou meio… estranho. O Homem-Negativo é colocado em um tipo de regressão de personalidade que não entendi o por quê. Ele parece não ter se livrado da influência do Bureau of Normalcy e, pior ainda, parece de alguma forma jogar o jogo indireto do Departamento, não só como uma interferência do medo que claramente sente do local, mas como se ainda pertencesse aos seus algozes. Realmente não gostei disso e achei que este seria o ponto em que teríamos um avanço grande da personalidade de Larry, porque Danny é a entidade-local perfeita para isso.

Esse incômodo de condução, no entanto, é bem menor do que possa parecer nesses apontamentos, que são apenas observações diante do que o personagem vinha apresentando até aqui e parece ter dado uns passos atrás. Ao menos nesse aspecto. E é meio paradoxal que, no mesmo episódio em que Larry parece mais preso ao passado do que deveria, temos uma maior expansão mental e prática para ele, imagina o seu show de saída do armário e, depois de recusar uma vez, se rende e começa a cantar, até ser teletransportado para a mansão da Patrulha. E isso é o que torna ainda mais estranha a sua subserviência e discurso que dá a impressão de que ainda deve ou faz parte do Bureau. Definitivamente teremos mais disso no futuro e estou curioso para ver o desenvolvimento desse arco. Larry é mesmo um personagem muito complexo.

No mesmo bloco de Larry temos o confronto de Vic com esse “novo mundo” e vou dizer para vocês o quanto eu admirei o roteiro por fazer esse (óbvio) primeiro contato de um herói heterossexual e claramente sem nenhum conhecimento ou relações com o lado show da comunidade LGBT, tendo um confronto de críticas, troca de farpas e sabendo inteirar-se rápida e honestamente com o local. Toda vez que eu vejo comentários como “mas ninguém pode criticar minorias” ou “ninguém pode fazer piadas com minorias” eu olho para coisas como este episódio e a voz do óbvio ululante grita, com todas as forças: você pode criticar e fazer piada com o que você quiser. O que você não pode é achar que crítica, piada e discriminação são palavras sinônimas. Aprenda com Danny Patrol. Aqui, tudo está feito de maneira realmente incrível.

Levando em consideração a peculiaridade da comunicação de Danny, a fotografia e a direção de arte nesse episódio capricharam nas muitas possibilidades de luz, letreiros, reflexos, cores, formação de palavras com folhas, fumaça, símbolos… Isso acontece tanto nos ambientes internos e externos da rua, e se estende para o bloco de Jane, Ritta e Cliff, com variações também para o lado de dentro e o lado de fora da casa. O destaque da direção, nesse bloco, está para toda a sequência do casamento e a incrível cena com a chegada da persona Barbie feiticeira e possessiva de Jane ao Underground… Também merece grande destaque a ternura e o contraste dramático (muito bem escrito, com todas as sutilezas possíveis) entre Cliff e o garotinho que o viu sentado na escada e voltou, tempos depois, vestido de robô. E fazendo a dancinha do um robô. Sério, meu coração não aguenta essa série.

Episódios como Danny Patrol nos mostram que a criatividade e todo tipo de representação, mais um bom drama, mais uma uma boa dose de fantasia, críticas, piadas e acidez para todos os lados podem sim ter lugar em qualquer série e ser muitíssimo bem explorado pelo texto. O capítulo sugere algumas pistas para a busca de Niles e dá uma abertura metalinguística, fazendo-nos mergulhar um pouco mais na estranheza e beleza dos laços entre esses indivíduos. Em tempo: o que foi aquele take com Vic folheando a edição #51 de My Greatest Adventure, dada a ele por Danny? Considerando que nessa revista não temos nenhuma aventura da Patrulha (que só seria criada na edição #80), mas temos uma propaganda de treino muscular de Charles Atlas, em quem Morrison se inspirou para criar Flex Mentallo — e que como vocês viram, apareceu justamente na mesma revista em que Danny foi criada –, já podemos considerar outra grande participação na série? O que quer que venha, só tenho algo a dizer: manda mais, Doom Patrol, que está pouco!

Doom Patrol – 1X08: Danny Patrol (EUA, 5 de abril de 2019)
Direção: Dermott Downs
Roteiro: Tom Farrell
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Joivan Wade, Riley Shanahan, Matthew Zuk, Alan Mingo Jr., Brent Bailey, Ethan McDowell, Jon Briddell, Nasim, Jack Ha, Edward Michael Scott, Judy Kain, Tyner Rushing, Lindsay Ayliffe, Robert Larriviere, Matt Bomer, Brendan Fraser, Shiquita James
Duração: 52 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.