Crítica | Patrulha do Destino – 1X09: Jane Patrol

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  • Há SPOILERS. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Nossa primeira grande experiência psicológica (ou psicanalítica) nesta série veio em meio à loucura roedora causada pelo Admiral Whiskers em Therapy Patrol. E se naquele episódio Cliff foi quem ajudou a abrir as portas para o interior dos personagens, era mais do que esperado que estivesse no segundo mergulho mental da série, agora exclusivo para a senhorita Crazy Jane, neste sensacional Jane Patrol.

Algo importante a se dizer imediatamente é como eu enxergo essa questão de “revelar, mas nem tanto” utilizada pela série nessa temporada, e que pode ser vista de maneira muito clara aqui no nono episódio. Um olhar rápido por redes sociais e comentários sobre o capítulo me fez conhecer reclamações sobre a não-apresentação formal de todas as 64 personalidades, o que, segundo esse tipo de argumento, invalidaria a existência de um episódio exclusivo para o Underground, o que obviamente é uma bobagem sem tamanho. O primeiro ponto aí é o fato de que o episódio não poderia de jeito nenhum ser algo isolado. Mesmo se fosse classificado como um filler de luxo, ainda seria um filler e, convenhamos, isso atrapalha a temporada, por melhor que o filler tenha sido.

Jane Patrol nos dá uma noção muitíssimo bem pensada sobre como o subterrâneo da mente de Jane funciona e como algumas de suas personalidades se parecem, nesse Universo particular. Seria uma enorme burrice dos produtores se encomendassem um roteiro didático, com mostras evidentes de todas as personas; primeiro, porque seria uma bagunça narrativa formalizar 64 personagens num episódio de 50 minutos; segundo, porque o mistério em torno de algumas coisas precisa ser mantido como garantia de usos e ideias melhores no futuro ou mesmo como marca simbólica da série — e se você é um seriador, certamente sabe que todo show tem seus mistérios canônicos ligados a personagens ou a alguns elementos de sua mitologia. Faz parte do jogo e é bom que seja assim. Para mim, Jane Patrol mostrou o que deveria ser mostrado como principal, indo inclusive um pouco além do básico na forma como o espaço e algumas outras macabras personalidades são mostradas.

Diane Guerrero e Brendan Fraser dão um show. Gosto muito da atuação de Guerrero e aqui, com as sutilezas que ela cria para as personalidades que interpreta e como reage a tudo o que vê, especialmente no final, é algo realmente sensacional. Fraser não fica atrás. A entonação que ouvimos com o Cliff robô fica ainda mais interessante com ele em pessoa — uma entonação calma, pausada, meio cantarolada quando vai explicar coisas e destacando as sílabas finais ou emitindo pequenos tons agudos em momentos de nervosismo ou xingamento. Que incrível foi vê-lo aqui!

Em tudo esse episódio é um aula de psicologia vista pelo ângulo de uma série de super-heróis. É uma espécie de Legion que flerta mais com o caos e, pela abordagem do diretor Harry Jierjian, com o terror, mesmo para as personas mais luminosas do Underground, como Penny Farthing (Anna Lore) ou Baby Doll. O clássico ambiente escuro do gênero não cede aos clichês preguiçosos que tão bem conhecemos. A direção está o tempo inteiro movimentando a câmera, alterando ângulos, recompondo planos para mostrar distintos pontos de vista e tudo isso cercado por uma fotografia doentia, entre tons de cinza e azul (para ambientes escuros) e pálidos verdes, amarelos e laranjas (para ambientes claros). As cores escolhidas condizem perfeitamente com a percepção lodosa, purulenta de um local habitado por personalidades criadas como fuga por uma menina que sofria abuso sexual. E nesse aspecto eu também sou da opinião de que quanto menos se mostrar desse abuso, melhor. As sugestões já são nojentas o bastante para dar a dimensão do trauma em Jane, que vemos aqui numa luta contra essa figura abusiva e dominadora por toda a vida.

Notem que quando ela chega no último cenário, de onde a paterna e gigante figura composta por peças de um quebra-cabeça sai do poço (a quantidade de símbolos aqui é imensa!), a fotografia mostra a única diferenciação dentro do Underground, com a cor roxa, marca da introspecção da personagem, ali fazendo o seu exorcismo, a identificação do seu trauma. E embora o reflexo dos abusos e a perturbação do pai deixada em Crazy Jane permaneça (a gente sabe disso pelo sussurro da musiquinha na última cena), também está claro que o processo terapêutico aqui foi mesmo um sucesso em termos de encontro pessoal e entendimento do principal problema. Larry e Rita também já tiveram os seus momentos de exorcismo e compreensão de si como foco de episódios, então a série está fazendo aos poucos e também como linha central a passagem de cada um deles, indo do comportamento caótico para um futuro comportamento de herói da Patrulha do Destino.

O bom gancho deixado para “o que aconteceu” no laboratório enquanto estavam no Underground foi uma boa pedida, sem a criação de um novo arco ou sugestão muito complexa para a finalização. Depois da densa viagem pela mente de alguém, o que o espectador precisava era justamente daquilo que o episódio nos traz: meias-palavras e reflexão. Doom Patrol é mesmo um absurdo de série.

Doom Patrol – 1X09: Jane Patrol (EUA, 12 de abril de 2019)
Direção: Harry Jierjian
Roteiro: Marcus Dalzine
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Joivan Wade, Brendan Fraser, Timothy Dalton, Riley Shanahan, Matthew Zuk, Anna Lore, Stephanie Czajkowski, Skye Roberts, Tara Lee, Chelsea Alana Rivera, Hannah Alline, Jackie Goldston, Monica Louwerens, Leela Owen, Helen Abell, Celeste Marcone, Tyler Buckingham, David A MacDonald, Matt Bomer
Duração: 52 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.