Crítica | Peaky Blinders – 2ª Temporada

Timbuktu. You ever been?
– Solomons, Alfie

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

A segunda temporada de Peaky Blinders começa exatamente no final da temporada inaugural, revelando quem fora alvejado no cliffhanger anti-climático. Grace vai embora, sem Tommy, depois de deixar Campbell estendido no chão em cima de seu próprio sangue. Esse acontecimento nos leva a um salto temporal de dois anos, com Tommy e sua gangue colhendo os frutos da obtenção de sua primeira licença de apostas e principalmente da eliminação do concorrente direto Billy Kimber.

A ascensão dos Peaky Blinders sobre a liderança inequívoca de Tommy, porém, não traz tranquilidade para ninguém, algo que fica estabelecido de imediato com a destruição completa do Garrison, o bar gerenciado por Arthur, por dois terroristas do IRA. A tensão política da Inglaterra na época sangra para o cenário de gângster da série, com uma bela costura disso com a volta do vingativo Campbell, agora mancando e andando com a ajuda de um bengala. O agente da coroa estabelecera uma conexão com uma facção do IRA e usa Tommy como engrenagem essencial de seu plano para literalmente matar dois coelhos como uma cajadada só.

No plano pessoal, Tommy sofre pelo que ainda sente por Grace, mas sem que isso seja obstáculo para seu objetivo de fazer a família Shelby crescer ainda mais, aproveitando-se, agora, do antagonismo entre os dois maiores mafiosos de Camden Town, o italiano Darby Sabini (Noah Taylor, o Hitler de Preacher) e o judeu Alfie Solomons (Tom Hardy). Seu objetivo é aliar-se a Solomons para derrubar Sabini de vez, algo que exige planejamento e, lógico, muita violência.

A entrada de Taylor e Hardy na série é o que empresta o verdadeiro sabor da temporada. O primeiro vive aquele típico bandido cheio de si que tem explosões de raiva que inevitavelmente acabam em morte, mas com uma camada cômica graças ao sotaque, ao histrionismo e à teatralidade de tudo o que faz, algo que é diametralmente oposto à Tommy. Hardy, por sua vez, cria mais um de seus personagens estranhos, cheio de maneirismos corporais, grunhidos e voz gutural que impõem medo imediatamente, como se ele fosse um animal feroz enjaulado prestes a arrancar o braço de quem tentar chegar perto. A expansividade de Sabini e a neandertalidade de Solomons estabelecem um excelente contraste a ponto de ser um pouco frustrante – mas perfeitamente compreensível – que esses personagens tenham relativamente pouco tempo de tela.

Sam Neill, vivendo um ainda mais obcecado – provavelmente enlouquecido – Campbell é outro que merece destaque, especialmente se lembrarmos de sua moral inabalável no começo da temporada anterior. Agora, ele encontra-se em seu inferno pessoal, ainda tentando, porém, agarrar-se a alguns pilares que, claro, deixam ainda mais evidente sua hipocrisia. O estupro de Polly é, sem dúvida, seu ponto mais baixo, o momento efetivo em que ele se entrega ao lado sombrio completamente, tudo pelo desejo de se vingar de Tommy e também de Grace, que volta à Inglaterra com marido americano milionário à tira-colo.

Polly, para além da lancinante sequência com Campbell, também tem seu lado pessoal para lidar, com o fantasma de seus filhos voltando para assombrá-la. Helen McCrory dá um show de performance, conseguindo destacar-se até mesmo em uma temporada cheia de boas atuações. Acho que nem preciso falar da intensidade de Cillian Murphy e seu Tommy ou da completa loucura animal de Paul Anderson e seu Arthur, não é mesmo? Todos parecem mais barris de pólvora perto de explodir, o que vemos acontecer em momentos catárticos bem construídos e que não necessariamente têm a violência como marca principal.

Não gosto, porém, da forma como as elipses narrativas são tratadas. Creio que isso se dê muito em função dos pouquíssimos episódios da série, obrigando Steven Knight a dar saltos temporais que nem sempre funcionam. Um deles, apena para ilustrar, é toda a construção da aflição de Polly pelos filhos que lhe foram arrancados há quase duas décadas, até a chegada de Michael Gray (Finn Cole, que já entra mostrando a que veio) como parte integrante da série. Tudo parece muito corrido e a progressão da história, ao revés, fica quebradiça, algo que talvez fique ainda mais evidente com as mudanças de lado de Solomons no conflito entre Sabini e Shelby.

Por outro lado, a reconstrução de época, que já era magnífica, ganha um upgrade, já que o pequeno universo territorial dos Blinders é expandido, com diversas sequências em Londres, incluindo a luxuosa boate de Sabini e a sensacionalmente esquisita padaria-caverna de Solomons. O mesmo pode ser dito dos figurinos, que ganham mais variedade, mas sem que a impressão única de conjunto harmônica seja abalada. A direção de arte dessa série é algo que realmente é outro departamento, mesmo considerando a costumeira qualidade de séries britânicas nesse quesito.

A segunda temporada de Peaky Blinders amplia os horizontes de Tommy Shelby e encerra o arco envolvendo Campbell, ao mesmo tempo que eleva o risco para todos os envolvidos. Se a primeira temporada poderia ser vista como o começo da adolescência dos Blinders, essa sem dúvida já os coloca no mundo dos adultos. E isso não é necessariamente uma notícia boa para eles.

Peaky Blinders – 2ª Temporada (Reino Unido, 02 de outubro a 06 de novembro de 2014)
Criação: Steven Knight
Direção: Colm McCarthy
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson, Sam Neill, Annabelle Wallis, Joe Cole, Sophie Rundle, Finn Cole, Harry Kirton, Natasha O’Keeffe, Ned Dennehy, Benjamin Zephaniah, Daryl McCormack, Aimee-Ffion Edwards, Tom Hardy, Noah Taylor, Charlotte Riley
Duração: 342 min. (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.