Crítica | Peaky Blinders – 4ª Temporada

I’m not a traitor to my class. I am just an extreme example of what a working man can achieve.
– Shelby, Tommy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Depois de três belíssimas temporadas lidando com a meteórica ascensão da família Shelby liderada pelo ambicioso Tommy, o quarto ano veio para contar uma história mais singela, mais padrão sobre vingança usando como gancho o assassinato do patriarca da família Changretta e de seu filho Angel em uma sub-trama da terceira temporada. Para tornar o assunto ainda mais pessoal e familiar, o showrunner Steven Knight utiliza o cliffhanger anterior para despedaçar a família Shelby.

Dessa forma, o que temos é uma história de reconciliação e de reconstrução que usa a vingança do violento Lucca Changretta (Adrien Brody), que vem de Nova York com seus capangas especialmente para isso, como estopim e cola narrativa. Tommy Shelby é obrigado a voltar para Small Heath juntamente com todos os membros de sua família menos John que é a primeira vítima da guerra prestes a começar em um primeiro episódio da mais alta octanagem.

Mas como nada em Peaky Blinders é só o que estamos assistindo no primeiro plano, mesmo a história de vingança ganha um pano de fundo histórico muito interessante, com a ascensão dos comunistas na Inglaterra que mexem com todo o sistema trabalhista local em preparação para uma desejada – e ainda bem nunca alcançada – “revolução”. Como seus negócios agora eminentemente legais, Tommy é tragado para intrigas envolvendo sindicatos aqui representados por Jessie Eden (Charlie Murphy) e isso permite que conheçamos uma até então desconhecida camada do personagem, com seu primeiro amor tendo morrido de tuberculose e sua filiação ao Partido Comunista quando ainda muito jovem e inocente.

Mas é a vingança que efetivamente consome grande parte da temporada, com atentados de um lado a outro que me pareceram ineficientes demais, especialmente considerando o aparente poder dos Changretta. Mesmo considerando a questão da “honra entre bandidos” e algumas sequências de ação muito boas como a que resulta do jogo duplo de Polly, o embate maior ficou artificial em muitos momentos, com muito mais ameaças do que efetividade. Em cima disso tudo, Brody tentando fazer um Marlon Brando mais novo e falhando ficou caricato e, confesso, irritante. E olha que o ator é costumeiramente bom em seu trabalho dramático, mas seu ítalo-americano mafioso tornou-se um arremedo de Don Corleone que pelo menos para mim não funcionou como deveria.

Pelo menos as figurinhas marcadas de sempre continuaram as excelentes performances, com a bem-vinda adição de ninguém menos do que o próprio Mindinho, digo, Aidan Gillen como o cigano barra-pesada e assassino de aluguel Aberama Gold. O ator literalmente roubas as cenas em que aparece daquele seu jeito sinistro, que esconde sempre suas verdadeiras intenções. Da mesma maneira, Tom Hardy e seu Alfie Solomons é a presença poderosa a que nos acostumamos e, aqui, ele até ganha um surpreendentemente bom destaque, valendo lembrar de seu encontro, de olhos fechados, com Luca.

Muito dependente de reviravoltas e de traições que não são traições, de planos secretos de último segundo e de jogos anticlimáticos de tensão, o conjunto de roteiros de Knight foi o menos inspirado da série até agora, especialmente porque ele deixou que a trama da vingança soterrasse todo o resto, sendo obrigado a criar um longo epílogo para lidar com o trauma de Tommy e toda a excelente – mas infelizmente errática – trama envolvendo Jessie Eden que corre absurdamente no tempo para transformar o protagonista em um político como parte de seu plano para minar os comunistas. Por vezes, parecia que o showrunner não sabia direito que caminho seguir e caiu em algumas armadilhas narrativas que subtraíram a força da costumeira sutileza da série.

No entanto, não se enganem: Peaky Blinders continua firme e forte em sua quarta temporada. Atuações incríveis (menos a de Brody), direção de arte naquela qualidade impressionante de sempre e belas sequências aqui e ali. Ela é, apenas, a menos bem trabalhada de todas até o momento talvez por não conseguir realizar sua proposta completamente ou por não focar em apenas um alvo.

Peaky Blinders – 4ª Temporada (Reino Unido, 15 de novembro a 20 de dezembro de 2017)
Criação: Steven Knight
Direção: David Caffrey
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Helen McCrory, Paul Anderson, Joe Cole, Sophie Rundle, Finn Cole, Harry Kirton, Natasha O’Keeffe, Ned Dennehy, Daryl McCormack, Aimee-Ffion Edwards, Tom Hardy, Charlotte Riley, Charlie Murphy, Adrien Brody, Aidan Gillen, Jack Rowan
Duração: 337 min. (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.