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Crítica | Peaky Blinders – 6ª Temporada

Uma última temporada hesitante.

por Ritter Fan
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Não tenho limites.
Shelby, Tommy

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores.

Quando a produção da sexta temporada de Peaky Blinders foi anunciada com o adendo de que ela seria a última, Steven Knight, quase que simultaneamente informou que, porém, a série continuaria “de outra maneira”. Essa situação pode ter roubado da que deveria ser a derradeira temporada, o fim que a série realmente merecia. Tentei assistir os seis episódios finais quando eles foram lançados em 2022 e, pela primeira durante toda a série, senti dificuldade em passar da metade, com um passo lento demais e uma abordagem que fazia do estilo o mais importante, deixando a substância para o segundo plano, não que o estilo inconfundível da obra não estivesse sempre presente, desde o começo. Mas, aqui, Knight esticou a corda e tangenciou a ação muito mais do que o normal, entregando uma história que, no final, oferece muito pouco para uma saga tão fascinante.

Sim, Knight teve que contornar o falecimento da grande Helen McCrory, que viveu a inesquecível Polly, tia de Tommy e tesoureira dos negócios da família, mas a ausência relativa da personagem – relativa, pois ela está sempre presente em pensamentos tanto de Tommy quanto de Michael – definitivamente não foi o problema. E o passo lento também não, pois Peaky Blinders nunca foi uma série agitada, com ação constante e sim uma observação sobre a corrupção do poder e sobre um protagonista que luta contra ele próprio no labirinto inevitável de sua jornada. Mas, nessa sexta temporada tudo tem passo glacial, algo talvez impulsionado pela tristeza que é ver a pequena Ruby lutar e perder a luta contra a tuberculose, com Tommy fazendo de tudo para impedir a morte da filha. O showrunner fez, da primeira metade da temporada, uma elegia quase sádica sobre Ruby e, na segunda, transferiu a sentença de morte para o próprio Tommy, diagnosticado com tuberculoma, que precipita suas ações para todos os seus negócios organizados para o futuro sem ele, o que significa, principalmente, limpar o caminho daqueles que querem vê-lo morto.

Mesmo que a virada final que revela que ele não está doente e que tudo foi um plano de longo prazo do nazista Oswald Mosley para fazer Tommy Shelby matar Tommy Shelby seja uma ideia muito bem executada, ela ao mesmo tempo parece uma jogada para justamente trapacear o fim e proporcionar apenas um… intervalo… para o que, quatro anos depois, tornou-se um longa-metragem. E isso sem contar com a chegada milagrosa de Duke (Conrad Khan), filho já adulto de Tommy que lhe é revelado por Esme e que imediatamente é absorvido no seio dos Shelbys, em uma safadíssima inserção de personagem novo com o evidente objetivo de usá-lo mais adiante. Para além dessas questões, porém, mesmo a faxina de Tommy é enervantemente vagarosa e quase que completamente vazia de maiores significados, com os roteiros de Knight telegrafando cada detalhe do que vai acontecer e, ao mesmo tempo, esforçando-se para criar suspense sobre como o que vai acontecer acontece. E, verdade seja dita, o único momento que oferece algum resquício de dúvida no espectador é no embate entre Arthur Shelby e seus aliados contra o Capitão Swing e outros membros do IRA nas ruas enevoadas em frente ao Garrison, pois, ali, a direção de fotografia cria uma atmosfera muito interessante e aflitiva, com a direção de Anthony Byrne realmente tentando fundir estilo e substância. Em todo o restante, o que vemos é estilo apenas, com direito a ângulo holandês para todo lado, câmera lenta mais constante do que o usual e outros artifícios visuais cansativos que ajudam a desfazer a aura da série.

Sem dúvida que Cillian Murphy está novamente muito bem em seu papel, mas mesmo ele tem pouco com que trabalhar de verdade, especialmente na segunda metade da temporada, em que ele é o jogador de xadrez que está 10 jogadas a frente e, portanto, precisa manter o rosto impassível a todo tempo. Paul Anderson, outro grande ator da série, em razão de seu personagem continuar lutando contra o vício por ópio e bebida, novamente faz muito por Arthur, mesmo que ele tenha uma participação mais tímida na temporada. E toda a trama envolvendo os fascistas acaba solta, distante demais do envolvimento direto de Tommy com personagens reais, como são os casos de Mosley e Jack Nelson, que foi modelado a partir de Joseph Kennedy Sr., patriarca da família Kennedy dos EUA, o que é compreensível por eles justamente serem personagens reais, mas, por outro lado, frustrante diante da conexão direta e do que parece ficar para a “continuação” da série anunciada por Knight em 2021.

E, com isso, caminhando lentamente demais, Peaky Blinders “chega a seu fim” de maneira protocolar, ticando quadradinhos aqui e ali em relação aos personagens que precisavam ser eliminados e situações resolvidas, mas sem oferecer um final de verdade à série, tudo porque ela continuaria de outra maneira. Se pelo menos Steven Knight tivesse dado ritmo à história, eu não teria que reclamar muito, mas, do jeito que ficou, uma grande série acabou no foi seu ponto mais baixo, que não tenho dúvidas em afirmar. Ainda consegue ter valor o suficiente para ser uma boa experiência, mas ela ficou muito aquém dos melhores anos do que sem dúvida é um clássico moderno da telinha.

Peaky Blinders – 6ª Temporada (Reino Unido, 27 de fevereiro a 03 de abril de 2022 no Reino Unido e 10 de junho de 2022 mundialmente)
Criação: Steven Knight
Direção: Anthony Byrne
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Cillian Murphy, Paul Anderson, Sophie Rundle, Ned Dennehy, Benjamin Zephaniah, Neil Maskell, Tom Hardy, Finn Cole, Natasha O’Keeffe, Aimee-Ffion Edwards, Packy Lee, Kate Phillips, Ian Peck, Anya Taylor-Joy, Sam Claflin, Harry Kirton, Charlene McKenna, Pauline Turner, Amber Anderson, James Frecheville, Stephen Graham, Conrad Khan, Daryl McCormack, Emmett J. Scanlan, Darragh O’Toole, Peter Coonan, Assaad Bouab, Franc Bruneau, Simon Wan, Julian Moore-Cook, Naomi Yang, Aneurin Barnard, Abbie Hern, Orla McDonagh
Duração: 372 min. (6 episódios)

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