As raízes do realismo mágico latino passam por um povoado fantasma chamado Comala, apresentado ao mundo em 1955, por Juan Rulfo, num livro curto e essencial. Entre 1952 e 1954, beneficiado por duas bolsas consecutivas do Centro Mexicano de Escritores, o autor trabalhou no manuscrito do qual publicou adiantamentos nas revistas Las Letras Patrias, Universidad de México e Dintel sob títulos provisórios como Una Estrella Junto a la Luna e Los Murmullos, até a edição de Pedro Páramo em março de 1955. Rulfo tinha seis anos quando seu pai foi assassinado, em junho de 1923, durante os primeiros levantes da Guerra Cristera, conflito religioso que devastou o México entre 1926 e 1929. Quatro anos depois, sua mãe morreu e o menino passou um tempo com a avó, até ser enviado para um internado em Guadalajara, que ele descreveria como “uma penitenciária“. Órfão, pobre, testemunha da violência que arrasou Jalisco, Rulfo transformou essa experiência numa crítica feroz do projeto nacional mexicano. Comala é uma aproximação com o fracasso da Revolução de 1910, falando sobre o país que prometeu reforma agrária, mas manteve intacto o latifúndio; criticando a “nova ordem” que prometeu justiça, mas deixou os poderosos locais de sempre governarem pela violência e pelos mais absurdos e mundanos caprichos e rancores.
SPOILERS!
Gabriel García Márquez descreveu o estilo de Rulfo como “feito de silêncios“, ou seja, um estilo de “recusa consciente da linguagem grandiloquente do poder e da narrativa linear do progresso“. Rulfo conhecia Faulkner e reconheceu que sem ler Palmeiras Selvagens não teria conseguido escrever Pedro Páramo; mas enquanto Faulkner construía longas frases labirínticas, Rulfo escolheu fragmentos breves, cenas cortadas e fios soltos que o leitor precisa amarrar sozinho. Essa estrutura polida e objetiva torna o livro difícil porque há muita coisa dita em pouquíssimo espaço. Tudo existe ao mesmo tempo, com intensidades diferentes. Juan Preciado chega a Comala cumprindo a promessa feita à mãe moribunda de cobrar do pai o abandono, mas encontra um povoado habitado apenas por mortos que narram suas histórias em primeira pessoa até que, sufocado pelo calor e pelos murmúrios, Juan morre no meio da novela e a narrativa se desloca para Pedro Páramo em terceira pessoa e monólogos interiores que saltam décadas. Comala existe num tempo cíclico, mítico, onde passado e presente coexistem porque os acontecimentos ocorrem simultaneamente na consciência dos mortos. O escritor Carlos Fuentes apontou que Pedro Páramo inicia no tempo histórico linear, mas ingressa no tempo mítico quando seu desejo obsessivo por Susana San Juan o prende num eterno presente de frustração erótica. Os murmúrios e as frases curtas são o que resta da linguagem dos oprimidos.
Pedro Páramo é o personagem que reproduz a lógica extrativista e patriarcal da colonização espanhola: é dono da terra (o latifúndio da Media Luna, que ele expande assassinando vizinhos), dono dos corpos (apropriação sexual das mulheres de Comala, paternidade não reconhecida de dezenas de filhos) e dono da morte e da escassez (quando Susana morre e o povo comemora com festa, Pedro decide, por rancor, deixar o povoado morrer de fome até transformá-lo em deserto). Todos são vigiados pelas memórias e pelos ecos do poder de “D. Pedro”. Em Comala, a justiça nunca teve seu lugar porque o padre Rentería está comprado e porque o Estado mexicano pós-revolucionário simplesmente não existe ali. Quando chega a Revolução, Pedro não resiste: convida os líderes revolucionários para jantar, oferece dinheiro, transforma o movimento armado em extensão de seu próprio poder. A prometida destruição do sistema de haciendas não aconteceu em Comala. A soberania e desejo de Pedro Páramo são o poder que tudo consome, e sua tirania individual só existe porque toda a arquitetura social mexicana foi construída para permitir que homens como ele existissem [notem que este é um retrato aplicável a toda a América Latina].
Susana San Juan enlouquece, e essa loucura é a única resistência possível ao poder absoluto de Pedro Páramo. Quando ele finalmente consegue trazê-la de volta a Comala após décadas de obsessão (matando Bartolomé San Juan, o pai dela, ao forçá-lo a trabalhar em minas perigosas até morrer), Susana se refugia na insanidade e nas memórias eróticas de seu marido morto, Florencio. Pedro pode possuir seu corpo, mas nunca sua consciência. Essa loucura não é uma patologia individual. Ela está mais para uma estratégia de sobrevivência num mundo onde os abusos de Pedro Páramo tornaram qualquer outra forma de existência inviável. Questões existenciais e psicológicas perpassam questões políticas aqui: a subjetividade destruída de Susana é consequência direta da estrutura social dominadora, e o pesadelo eterno que Comala experimenta se passa em diferentes planos, mantendo angústias intactas porque a violência fundacional do latifúndio colonial nunca foi superada, apenas metamorfoseada em formas republicanas igualmente brutais.
Sem Comala, não haveria Macondo; sem os murmúrios dos mortos de Rulfo, não haveria a estrutura temporal cíclica e a naturalização do sobrenatural que caracteriza Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez reconheceu publicamente essa dívida: na noite de 1961, quando leu pela primeira vez Pedro Páramo, não conseguiu dormir até tê-lo lido duas vezes, e não experimentava tamanha comoção literária desde A Metamorfose de Kafka. García Márquez memorizou muita coisa do livro. Carlos Fuentes, que colaborou no roteiro da primeira adaptação cinematográfica em 1967, dedicou ensaios extensos à análise e a considerou a obra que permitiu ao romance latino-americano superar o realismo documental revolucionário e incorporar caminhos modernistas (fluxo de consciência, multiperspectivismo, fragmentação temporal) a conteúdos especificamente mexicanos. Jorge Luis Borges declarou Pedro Páramo uma das melhores novelas das literaturas de língua hispânica. Críticos do jornal El País votaram, em 2001, a novela de Rulfo como o livro mais importante escrito em espanhol no século XX. Essa fortuna crítica extraordinária para uma obra que inicialmente vendeu apenas dois mil exemplares nos primeiros quatro anos é a prova que Rulfo nos presenteou com uma linguagem completamente nova para articular problemas políticos urgentes (e antigos) sem cair em propaganda ou vazio estético.
Vozes de diversas mulheres atravessam Pedro Páramo, documentando sua própria aniquilação sistemática. Eduviges Dyada, Dolores Preciado, Damiana Cisneros, Dorotea e Susana não possuem redenção alguma. Todas foram vítimas de um ambiente e da pessoa dominadora desse ambiente, mas também cometeram seus crimes pessoais, não raramente contra outras mulheres. Para elas também não existe redenção, porque Rulfo entendeu que uma obra que critica a estrutura profunda e persistente do poder viciado na América Latina precisa usar uma linguagem de ausência e silêncio para obter sua maior força política e poética. Os mortos de Comala não narram porque querem se libertar de seus fardos. Eles fazem isso porque estão condenados a repetir eternamente suas histórias de humilhação, violência sexual, corrupção, roubo e assassinato. O livro não traz um ápice que conclui o martírio dessas almas, mas compensa cada uma das esperas do leitor, mesmo que do modo mais cru e propositalmente insosso possível. Não há justiça pós-morte. Pedro Páramo morre “como se fosse um monte de pedras“, mas Comala continua morta, e os murmúrios continuam ecoando no calor sufocante de um purgatório sem fim onde a Revolução social fracassou, onde a justiça nunca chegou e onde o poder colonial virou um poder republicano sem alterar em nada a vida dos oprimidos. Nem mesmo após deixarem de existir no mundo material.
Pedro Páramo (México, 1955)
Autor: Juan Rulfo
Editora original: Fondo de Cultura Económica
Edição lida para esta crítica: José Olympio (outubro de 2020)
Tradução: Eric Nepomuceno
176 páginas
