Crítica | Pelas Ruas de Paris

“É como se todos nós vivêssemos em um grande sonho. Em um tipo de central de dados.” 

O sentimento de uma juventude perdida, sem esperanças, sem verdadeiras ambições, guia a jornada um tanto quanto etérea de Pelas Ruas de Paris justamente por essas avenidas parisienses, agora mais acostumadas com o terror injustificável do que com as luzes de antigamente. Elisabeth Vogler, cineasta francesa, cria, remetendo a cineastas com uma pegada mais experimental, como Terrence Malick e Gaspar Noé, um poema audiovisual que se concentra na sua tentativa de expor possibilidade de recuperação à perda de sonhos, se é que existiram realmente. Consegue, porém, manter sua premissa discursiva sob bases abstratas sem perdê-la?

A fim disso, a diretora usa a personagem de Anna (Noémie Schmidt) como dianteira para as explorações visuais, as narrações sem uma textura exata, mas um sentimento pungente inerente, e também os olhares trocados entre essa personagem e os cenários, seus objetos e suas pessoas. Como pano de fundo, coloca os desastres recentes no âmago parisiense para sugerirem a potência dos pensamentos que sugere imageticamente. Anna não quer sair de Paris. Caso saísse, teria sido derrubada pelo terror, literalmente. Isso não é sobre o medo, porém, sobre a resistência.

Mas Pelas Ruas de Paris, por outro lado, é tão perdido cinematograficamente quanto a sua personagem e a própria cidade francesa frente à realidade terrorista. A exemplo, o longa não consegue, em seu terceiro ato, usar o gancho de um acidente aéreo para dar continuidade a esse fluxo de pensamentos desordenados, mas coesos. Se antes a repetitividade soava necessária para a fomentação de um relacionamento tornado menos coerente e apaixonado, o depois estagna-se numa repetição de imaginário que redunda-se fortemente. Frases e frases vão surgindo sem peso.

Elisabeth Vogler parece estar mais interessada nos marabalismos gráficos, seus rodopios cênicos, suas cores, o uso bem particular da música e algumas belíssimas composições visuais granuladas. O que é uma pena para a obra, pois se restringe absurdamente o impacto das criações da cineasta e a sua proposta mais dramática. A premissa à Anna, envolvida em um relacionamento amoroso com Greg (Grégoire Isvarine) que não se encaminha a lugar algum, tem seu valor subtraído perante um interesse maior no despirocamento onírico atrelado ao terceiro ato do longa-metragem.

Tão grande é a perda do amor de Anne por Greg, sem mais saber se o ama em certo momento, quanto é a perda de amor dos franceses por Paris, indispostos frente ao trágico, ao injustificável e ao inconciliável. Mas Vogler é mais otimista, acredita em retorno às origens, ao reencontro do ser ao amor que já sentira por algo através das memórias antigas. Consequentemente, a montagem une passado e presente em formato não-cronológico, passagens que encontram a pureza em situações que supostamente morreram. A câmera então se aproxima dos rostos, daquela verdade.

Inicialmente, os diálogos desencaixados entre o casal protagonista, com o áudio emitindo suas vozes, mas as imagens não captando suas bocas proferindo essas mesmas falas, mostravam um certo desentendimento óbvio entre os membros daquela paixão. Já o resto dos usos soa mais uma reiteração estética do que um retorno sincero a uma linguagem em comum, munida igualmente de renovação narrativa. O texto, ao mesmo tempo, é mais simples do que um poema costuma ser, sem passagens marcantes a diferenciarem uma conversa de outra. Pelas Ruas de Paris, portanto, parte de uma intenção respeitável, porém, se rende aos preciosismos, que tornam-se os reais fins.

Pelas Ruas de Paris (Paris est à nous) – França, 2019
Direção: Elisabeth Vogler
Roteiro: Rémi Bassaler, Paul Saïsset
Elenco: Noémie Schmidt, Grégoire Isvarine, Marie Mottet, Lou Castel, Mathias Minne, Margaux Bonin, Julia Kouakou, Alexandre Schreiber, Schemci Lauth, Theo Tagand, Clément Olivieri, Doria Achour
Duração: 83 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.