Home FilmesCríticas Crítica | Pelas Ruas de Paris

Crítica | Pelas Ruas de Paris

por Gabriel Carvalho
20 views (a partir de agosto de 2020)

“É como se todos nós vivêssemos em um grande sonho. Em um tipo de central de dados.” 

O sentimento de uma juventude perdida, sem esperanças, sem verdadeiras ambições, guia a jornada um tanto quanto etérea de Pelas Ruas de Paris justamente por essas avenidas parisienses, agora mais acostumadas com o terror injustificável do que com as luzes de antigamente. Elisabeth Vogler, cineasta francesa, cria, remetendo a cineastas com uma pegada mais experimental, como Terrence Malick e Gaspar Noé, um poema audiovisual que se concentra na sua tentativa de expor possibilidade de recuperação à perda de sonhos, se é que existiram realmente. Consegue, porém, manter sua premissa discursiva sob bases abstratas sem perdê-la?

A fim disso, a diretora usa a personagem de Anna (Noémie Schmidt) como dianteira para as explorações visuais, as narrações sem uma textura exata, mas um sentimento pungente inerente, e também os olhares trocados entre essa personagem e os cenários, seus objetos e suas pessoas. Como pano de fundo, coloca os desastres recentes no âmago parisiense para sugerirem a potência dos pensamentos que sugere imageticamente. Anna não quer sair de Paris. Caso saísse, teria sido derrubada pelo terror, literalmente. Isso não é sobre o medo, porém, sobre a resistência.

Mas Pelas Ruas de Paris, por outro lado, é tão perdido cinematograficamente quanto a sua personagem e a própria cidade francesa frente à realidade terrorista. A exemplo, o longa não consegue, em seu terceiro ato, usar o gancho de um acidente aéreo para dar continuidade a esse fluxo de pensamentos desordenados, mas coesos. Se antes a repetitividade soava necessária para a fomentação de um relacionamento tornado menos coerente e apaixonado, o depois estagna-se numa repetição de imaginário que redunda-se fortemente. Frases e frases vão surgindo sem peso.

Elisabeth Vogler parece estar mais interessada nos marabalismos gráficos, seus rodopios cênicos, suas cores, o uso bem particular da música e algumas belíssimas composições visuais granuladas. O que é uma pena para a obra, pois se restringe absurdamente o impacto das criações da cineasta e a sua proposta mais dramática. A premissa à Anna, envolvida em um relacionamento amoroso com Greg (Grégoire Isvarine) que não se encaminha a lugar algum, tem seu valor subtraído perante um interesse maior no despirocamento onírico atrelado ao terceiro ato do longa-metragem.

Tão grande é a perda do amor de Anne por Greg, sem mais saber se o ama em certo momento, quanto é a perda de amor dos franceses por Paris, indispostos frente ao trágico, ao injustificável e ao inconciliável. Mas Vogler é mais otimista, acredita em retorno às origens, ao reencontro do ser ao amor que já sentira por algo através das memórias antigas. Consequentemente, a montagem une passado e presente em formato não-cronológico, passagens que encontram a pureza em situações que supostamente morreram. A câmera então se aproxima dos rostos, daquela verdade.

Inicialmente, os diálogos desencaixados entre o casal protagonista, com o áudio emitindo suas vozes, mas as imagens não captando suas bocas proferindo essas mesmas falas, mostravam um certo desentendimento óbvio entre os membros daquela paixão. Já o resto dos usos soa mais uma reiteração estética do que um retorno sincero a uma linguagem em comum, munida igualmente de renovação narrativa. O texto, ao mesmo tempo, é mais simples do que um poema costuma ser, sem passagens marcantes a diferenciarem uma conversa de outra. Pelas Ruas de Paris, portanto, parte de uma intenção respeitável, porém, se rende aos preciosismos, que tornam-se os reais fins.

Pelas Ruas de Paris (Paris est à nous) – França, 2019
Direção: Elisabeth Vogler
Roteiro: Rémi Bassaler, Paul Saïsset
Elenco: Noémie Schmidt, Grégoire Isvarine, Marie Mottet, Lou Castel, Mathias Minne, Margaux Bonin, Julia Kouakou, Alexandre Schreiber, Schemci Lauth, Theo Tagand, Clément Olivieri, Doria Achour
Duração: 83 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais