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Crítica | Pele de Asno

por Laisa Lima
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Se existe algo no cinema que é capaz de transpor universos por intermédio de uma fantasia pré-admitida pelo público, isto é o conto de fadas. Nem sempre com bases infantis mas eternamente capazes de exalar inocência, tais fábulas servem como uma “peneira” para o mundo humano; filtram toda maldade presente nele e a transformam em lições de moral. O teor com que essa essência é passada, entretanto, não se resume apenas a obras da Disney. Há quem ouse satirizar a natureza ingênua do estilo, à la A Princesa Prometida (Rod Reiner, 1987), e há quem seja capaz de construir e desconstruir a narrativa quase já estabelecida dos contos.  Pele de Asno (1970), de Jacques Demy, não só tem este atrevimento, como também confunde a realidade dentro do mais irreal dos cenários. 

Como pano de fundo inicial, um ato moralmente duvidoso é definido. Um Rei (Jean Marais) promete para sua esposa à beira da morte que apenas se casará novamente se encontrar uma mulher mais bonita que ela; nesse caso, sua própria filha. A Princesa (Catherine Deneuve), então, mais tarde será conhecida como Pele de Asno, já que a mesma irá ser aconselhada por sua fada-madrinha (Delphine Seyrig) a se vestir com o pelo do animal e fugir para longe do palácio. E é nessa fuga que o filme se destrincha. Como se não bastasse o estranhamento desabotoado naturalmente pela bizarrice quase indecente da trama, a obra ainda a trata com normalidade. Dentro do contexto citado acima, a brecha para canções de amor e flores animadas subside,  embalando um superficial combo de uma verdadeira história supostamente encantada.

Geralmente, o que caracteriza a diferença entre seres humanos e seres extraterrestres – em aspecto geral, não apenas OVNIs nos moldes de E.T ( Steven Spielberg, 1982) – são suas aparências. Em Pele de Asno, indivíduos azuis (alguns, anões) transitam pelo castelo, e o espectador é obrigado a assimilar estas e outras figuras incomuns, componentes de uma atmosfera extravagante, exótica, e até incômoda. Tal desconforto vem, aliás, do descostume de um olhar tão fragmentado quanto as partículas do longa-metragem merecem, levando em consideração as colorações exaltadas, os brilhos e as texturas presentes em um trabalho primoroso de ornamentação. O mérito da direção de arte, logo, é confirmado e afirmado nos cintilantes vestidos da Princesa, na rústica cabana em meio a floresta e em toda fração que necessitou de arte. Ou seja, o filme inteiro requereu um grau elevado de arte.

A beleza plástica, que ia do luxo do reino à sujeira do campo,  todavia, não foi suficiente para escorar toda a obra.  A frigidez com que Pele de Asno é conduzida impossibilita uma maior empatia e acessibilidade aos personagens, sem informações satisfatórias para o conhecimento de suas personalidades e sem interações convincentes para a torcida do público. Em vez disso, o roteiro, de diálogos expositivamente óbvios, entrega uma falta de nuances empedradas nos componentes do longa-metragem, tentando compensar a lacuna com estratégias e plots que, idealizadamente, poderiam oferecer maiores expectativas  na trama. Porém, o que acontece é a inferiorização de certos assuntos centrais e a sobreposição de conveniências narrativas mal formuladas, como a relação da Princesa com sua Fada-Madrinha, também mentora do escape da jovem para a floresta.  As explicações desta e de outras conjunturas, que talvez fortalecessem o filme no sentido de pertinência do enredo, não são fornecidas. São oferecidos somente dados eficazes para a localização da audiência, que, por vezes, ainda pode permanecer perdida.

Flutuante entre o tom de um trabalho com uma história sem malícia e entre uma tentativa de fábula com maior carga emocional, Jacques Demy assume, novamente, a importância de uma cenografia primorosa em seus filmes. Assim como foi em Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), na obra de 1970, o diretor dispõe, da mesma forma, das cores como uma maneira de valorizar o ambiente e trafegar com as sensações dos constituintes presentes nele. O cineasta, mais uma vez, conquista os olhos dos apreciadores de um cuidado mais detalhista com cada artifício de uma obra artística, mas não chega nem perto do musical de 1964, no qual transbordava subjetividade. Mesmo assim, as músicas do mesmo compositor, Michel Legrand, principalmente a canção tema de Pele de Asno, ecoam em harpas e em outros instrumentos quase a todo tempo, e, embora não haja tal profundidade em seu significado, a aderência é instantânea. Parte da responsabilidade da criação de um ar mágico, vem daí. Pena ter tido execuções que não as fazem jus. 

Embora as apresentações, às vezes sem ritmo e sem a dinamicidade propícia para um musical – talvez pela escolha de uma câmera paralisada nos intérpretes, sem movimentação – , um símbolo de carisma como Catherine Deneuve nunca passa despercebido. Além de Os Guarda-Chuvas do Amor, a atriz cooperou em outro musical com Demy em Duas Garotas Românticas (1967), duas produções com canções que inevitavelmente conflitam com as composições de respaldo preguiçoso em Pele de Asno. Não obstante, a artista catapulta a produção a uma menor frigidez, tornando a personagem, Pele de Asno, a mais próxima do público possível, ainda que o material base seja bem limitante.  A funcionalidade dos demais, sem expressividade o bastante para chamarem atenção sozinhos, igualmente não condizem com os dois longas-metragens de Demy citados, cujo havia mais de um divisor de atenção em tela. Atenção e, claro, afeição.

Pele de Asno paira em um ar etéreo, convincente para a entrada do espectador na mestria de um visual riquíssimo, digno de um conto, de fato, encantado.  O enfoque em cada detalhe faz perceber a cautela na construção daquela atmosfera, o que pode não ter sido priorizado para a confecção do enredo que embasaria tal ficção. Devido às suas mudanças de tom, categorizar o filme como um conto de fadas clássico pode ser errôneo, assim como enquadrar a obra em um estilo musical tradicional. De qualquer forma, a predileção pelo protagonismo ou do interior fraco da trama ou de um externo que preenche a tela com seu requinte, depende da direção do olhar do espectador. A continuidade do enredo, mesmo que existam obras nas quais a desconstrução é uma virtude, aqui peca pelo nexo de uma sequência da prosa contada, no caso, sem nexo. Ainda assim, a validez do filme para com quem o assiste se dá por meio de dois pesos distintos: será que a beleza de uma magia com um entorno vazio vale a pena ou é possível desconsiderar o contexto e avaliar unicamente a harmônica junção do cinema com a fantasia?  

Pele de Asno (Peau d’âne) — França, 1970
Direção: Jacques Demy.
Roteiro: Charles Perrault, Gitt Magrini, Ghislain Cloquet, Jacques Demy
Elenco: Catherine Deneuve, Delphine Seyrig, Jacques Perrin, Jean Marais, Micheline Presle, Fernand Ledoux, Sacha Pitoëff, Henri Crémieux, Louise Chevalier, Jean Servais, George Adets
Duração: 91 minutos.

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