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Crítica | Pelos Caminhos do Inferno

O homem em seu estado mais primitivo... ou natural?

por Iann Jeliel
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“Everybody likes The Yabba” Pelos Caminhos do Inferno

SPOILERS MODERADOS!

Pelos Caminhos do Inferno é citado por Martin Scorsese como uma das películas que inspirou seu cinema. Scorsese é um dos gigantes da Nova Hollywood, movimento cinematográfico que tematicamente buscava um olhar crítico e incisivo sobre a sociedade estadunidense. No mesmo período da década de setenta, o cinema australiano vivia também sua “New Have”, seguindo a mesma ideologia de trazer obras autorais que questionavam problemáticas sociais vigentes nas terras do Outback. Nesse contexto, o diretor Ted Kotcheff (conhecido tempos depois por dirigir Rambo: Programado Para Matar) adaptando o livro homônimo de Kenneth Cook, propunha um estudo comportamental específico do homem australiano e seu problema com alcoolismo, num retrato estritamente realista, cru, que aproveitava a atmosfera primitiva e naturalista para denunciar também a prática da caça esportiva no país.

Contudo, numa leitura mais ampla, Pelos Caminhos do Inferno traz uma denúncia mais atemporal e ríspida sobre a verdadeira face da masculinidade. Bundanyabba não é apenas uma cidade que representa a hostilidade do interior desértico da Austrália, mas  também é um recorte do mundo se os homens não fossem privados de seus instintos naturais: a ganância egoísta, o incontrolável prazer pela violência e o estado constante de busca a selvageria sexual. O álcool, como colocado por ditado popular, acaba sendo uma ferramenta para expor essa natureza, presente como verdade até nos mais intelectualizados e aparentemente “desconstruídos” dos homens. O protagonista John (Gary Bond) é professor, ou seja, uma figura detentora de conhecimento, imageticamente colocado à época como o maior exemplo de homem moderno. Sua jornada em Bundanyabba, num primeiro momento, parece retratar a transformação forçada pelo meio social.

A construção de suspense, inclusive, é toda pautada em como o personagem vai cada vez mais se afundando sob influência alheia (álcool e outros homens) a cometer diversas barbáries, uma pior que a outra (a crescente de tensão vai de acordo com a piora), que naquele local são normatizadas. Contudo, antes da primeira rodada nos jogos de azar, que condiciona o personagem a ficar preso na cidade, o acompanhamos no trajeto até o local pensando na namorada (Nancy Knudsen) que pretende visitar em Sidney. Há alguns pequenos flashbacks para representar sua saudade, todos com imagens da amada de biquíni, na praia, diante das quais ele devaneia algumas preliminares de sexo, intuindo que a maneira como ele a enxerga é meramente objetificadora. Visão que mais à frente se “confirma”, quando o personagem investe na filha (Sylvia Kay) do recepcionista do bar (Al Thomas), mesmo que faça isso sem forçar, dialogando, diferente dos outros homens ao seu redor que admitem já terem-na molestado.

Não importa o método, essas cenas acabam criando um atestado da existência constante do impulso à sexualidade, presentes pelo menos no subconsciente de todo homem, controlados por uma racionalização momentânea de seus impulsos, mas que no momento do ato sexual, trazem à tona o seu caráter selvagem. Um caráter que não resguarda gênero. Perto do clímax, há uma polêmica e intuitiva cena de sexo envolvendo dois homens, que aperta a ferida mais obscura da afirmação da masculinidade. Aquele pensamento “se precisa tanto afirmá-la é porque, no fundo,  gostaria de provar”, mas não prova por uma construção social opressora articulada pelo próprio modo de pensar. Não é à toa que durante a narrativa, os cidadãos de Bundanyabba levam a negação de um copo de cerveja como um insulto, pois para o homem é ofensivo enxergar outro homem que não quer ser esse “indivíduo em estado puro”.

Por isso aqueles que tentam se desconstruir ou os intelectualizados cedem facilmente ao meio, pela vergonha de não pertencerem a essa condição tóxica que não deveria ser natural, mas socialmente acaba sendo, trazendo o homem para um ciclo autodestrutivo, extravasado pela violência. As cenas de caça aos cangurus é um exemplo um tanto extremo para representar esse prazer sendo transbordado, mas são sequências que precisavam ser bastante viscerais para o filme comprovar seu ponto. No lado específico de denúncia à caça esportiva, parece hipócrita pensar que foram animais reais sendo mortos em gravação, mas era um período em que isso era normatizado e a intenção do diretor (detalhe importante: ele é, e já era, vegano à época) era ser o mais realista possível dentro de uma filmagem aproximada, para passar o sentimento totalmente repugnante dessa prática, pegando o maior símbolo do país e o matando em tela grande para mostrar que aquilo não poderia ser considerado normal.  No lado geral, o extremismo das cenas também serve para potencializar a ridicularização desse lado animalesco escondido (fora a não romantização das armas de fogo) no homem, ao literalmente colocá-lo para se sobressair aos animais selvagens no aspecto físico.

Contudo, é intrigante perceber que esse extravasamento da violência adquire outras formas não gratuitas também, tais como a revanche por culpabilização ou fuga por noção de culpa, que levam aos mesmos fins kamikazes aos homens. Estudos antropológicos atuais apontam que o gênero masculino possui um índice de suicídio mais alto que o gênero feminino. Os motivos são muitas vezes fatores relacionados entre linha tênue, da vergonha de não conseguir ou querer ser esse “homem” socialmente estabelecido como de verdade, com o arrependimento de desfrutar dos próprios desejos ou de não consegui-lo. Em sua conclusão, Pelos Caminhos do Inferno oferece as consequências dramáticas para ambos os caminhos, mas não esquece que a idealização de Bundanyabba como paraíso é mais que tentadora para os homens, é um destrave da sua essência repulsiva.

Pelos Caminhos do Inferno (Wake in Fright | Austrália, 1971)
Direção: Ted Kotcheff
Roteiro: Ted Kotcheff, Evan Jones (Baseado no livro homônimo de Kenneth Cook)
Elenco: Donald Pleasence, Gary Bond, Chips Rafferty, Sylvia Kay, Jack Thompson, Peter Whittle, Al Thomas, John Meillon, John Armstrong, Slim DeGrey, Maggie Dence, Norman Erskine, Buster Fiddess, Nancy Knudsen
Duração: 109 minutos

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