Home TVTemporadas Crítica | Penny Dreadful – 3ª Temporada

Crítica | Penny Dreadful – 3ª Temporada

por Guilherme Coral
248 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3

Obs: contém spoilers do ano atual e das temporadas anteriores. Leiam as demais críticas da série aqui.

Mal sabíamos, quando começamos a assistir a terceira temporada de Penny Dreadful, que essa seria a última. Infelizmente não é a primeira, tampouco será a última vez que tivemos uma série de ótima qualidade sendo cancelada – Roma e Utopia são dois exemplos evidentes disso. Mais que simplesmente nos privar de uma próxima temporada, contudo, o cancelamento traz um grande problema que deixa os produtores da série com duas alternativas: a primeira consiste em simplesmente continuar com o planejado, fechar a temporada sem um final para a série propriamente dito e rezar para que outra emissora “adote” o programa; a segunda, por sua vez, consiste em alterar o final do ano vigente para que o seriado tenha um desfecho, mesmo que um tanto apressado. Penny Dreadful adotou a segunda opção.

Ao exemplo dos dois anos anteriores, a temporada começou muito bem. Fomos apresentados a um dos principais antagonistas da série, Dracula, interpretado por Christian Camargo, que vivera Brian Moser em Dexter. A revelação do vilão ocorreu de forma prematura, poderíamos ter sido deixados no escuro ao lado dos personagens principais, mas, de um modo geral, isso não prejudicou muito o andamento da narrativa, principalmente pelo trabalho realizado por Camargo, que nos traz um personagem verdadeiramente carismático.

Em paralelo, tivemos jornadas bastante intimistas para cada uma das figuras que acompanhamos desde o première do seriado. Malcolm e Chandler nos EUA lidando com os problemas familiares de Ethan; John Clare retorna ao Reino Unido para se reencontrar com sua família; Frankenstein reencontra com seu amigo Dr. Jekyll e o ajuda em seus experimentos e Lily, ao lado de Dorian Gray, segue sua jornada feminista extremista que visa a submissão de todos os homens às mulheres.

Até o sétimo capítulo temos a forte sensação de que algo efetivamente está sendo construído. Todas as subtramas são cuidadosamente estabelecidas e desenvolvidas, algumas delas com uma estrutura que claramente visava um maior desabrochar somente no futuro, mais especificamente em um ano posterior. O cancelamento, contudo, evidentemente pegou a todos de surpresa e suas consequências foram sentidas por nós, espectadores. A subtrama de Ethan é um bom exemplo para isso, enquanto segue com calma por maior parte da temporada, ela é simplesmente finalizada de hora para outra, a queda do personagem para o lado sombrio é resolvida em instantes e gera um estranhamento imediato em nós. Além disso, todo o passado de John Clare com a srta. Ives é ignorado, resolvido em um simples diálogo, a condição especial do Dr. Jekyll jamais é explorada, desperdiçando o personagem completamente, Dorian permanece sem uma evolução de personagem digna de figura tão importante dentro da literatura. Nada, porém, se compara ao finale em si, cuja pressa é tão gritante que nos mostra um Dracula que simplesmente some de hora para a outra para nunca mais aparecer.

Dito isso, algumas coisas se salvam desse encerramento que mais soou como um vendedor ambulante que recolhe suas coisas rapidamente ao som da polícia chegando. O trabalho de direção jamais deixa a desejar e, em conjunto com a equipe de fotografia, nos traz planos verdadeiramente hipnotizantes – até hoje não me esqueço da cena final com Dorian, ao lado de seus quadros, sendo iluminado apenas pela luz acinzentada que perpassa a neblina, muito bem refletindo seu estado de imutabilidade ao longo dos anos – muito depois de todos esses eventos, ele ainda continuará lá. A morte de Vanessa é outro momento que nos faz chorar, parte pela maneira como foi retratada e parte pela ausência de um roteiro mais parcimonioso, que amplificaria todo o drama da sequência – evidentemente esse foi um momento trazido de muito adiante. Impossível não lembrar, também, que aqui tivemos um dos melhores episódios de toda a série, A Blade of Grass, um exemplo de atuação por Eva Green e uma aula de direção de Toa Fraser, que faz verdadeiros milagres em um ambiente enclausurado, nos trazendo diferentes perspectivas que perfeitamente refletem o estado psicológico da protagonista.

Penny Dreadful tinha muito a oferecer, mas não passou no teste da audiência e quem sofre somos nós que acompanhávamos essa série que, em condições normais, provava ser uma das melhores da atualidade. Apesar de seu ritmo demasiadamente acelerado, o desfecho do seriado conseguiu amarrar a maior parte de suas pontas soltas, pode estar longe do satisfatório, mas ao menos terminou de nos contar uma história. É triste constatar que essa se prova como o ano mais fraco da série, por mais que, se levássemos em consideração apenas os sete episódios iniciais, teríamos a melhor. Assim como ocorrera com Roma e Utopia, fomos deixados órfãos novamente.

Penny Dreadful – 3ª Temporada (EUA/ Irlanda/ Reino Unido – 2016)
Showrunner: John Logan
Emissora original: Showtime
Emissora no Brasil: HBO
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Eva Green, Christian Camargo, Timothy Dalton, Wes Studi, Harry Treadaway, Josh Hartnett, Douglas Hodge, Shazad Latif, Sarah Greene, Sean Gilder, Brian Cox.
Duração: 9 episódios de aproximadamente 55 min. cada.

Você Também pode curtir

10 comentários

Al_gostino 31 de maio de 2017 - 11:42

Série para mim estava até superando a segunda em termos gerais, pois tudo beira o primor, dando destaque para a fotografia e atuações/diálogos, porém, como bem observado na análise, os 2 últimos episódios, como forma de apressar devido ao cancelamento, deixou o final da série extremamente decepcionante…poderia muito bem ter um 10 episódio para trabalhar melhor e deixar o desfecho dos personagens mais digno….fora o destaque para a condução do núcleo chato Brona/Grey com aquele discurso extremamente feminista e o núcleo mais interessante que era o do John Clare (ator dá um show de atuação nesta temporada), que eu esperava um final feliz, ser extremamente mal conduzido em sua reta final (ele poderia salvar o filho, merecíamos algo feliz nesta série!)….não tem o embate final entre Drácula e Lobisomem, o vilão some do nada, ninguém sabe o desfecho deste personagem….enfim, uma pena, fiquei muito chateado pois esta é uma série que estava gostando muito mas que tem um dos piores finais que já vi em uma série….abs e parabéns pela análise

Responder
Bruno 31 de julho de 2016 - 18:17

Essa temporada estava brilhante pra mim até chegar nos dois últimos episódios, que foram ótimos, mas que, como dito no review, tiveram várias resoluções apressadas. No entanto, não senti essa pressa em relação aos protagonistas, Ethan e Vanessa, e sim em relação aos coadjuvantes.
De qualquer forma, o último episódio foi bem bonito, com excelentes atuações e interações.
Penny Dreadful JÁ deixou saudades.

Responder
SuzukaDriver90 24 de julho de 2016 - 21:47

Apesar do John Logan ter dito que esse sempre foi o plano, a impressão que ficou é que os roteiristas foram pegos de surpresa pela descontinuação da série e fizeram essa temporada as pressas. Só nos resta lamentar mais uma boa série que teve o mesmo triste destino de Deadwood e seguir em frente.

Responder
SuzukaDriver90 24 de julho de 2016 - 21:47

Apesar do John Logan ter dito que esse sempre foi o plano, a impressão que ficou é que os roteiristas foram pegos de surpresa pela descontinuação da série e fizeram essa temporada as pressas. Só nos resta lamentar mais uma boa série que teve o mesmo triste destino de Deadwood e seguir em frente.

Responder
Iris demetrios fyrigos 24 de julho de 2016 - 14:09

Eu realmente fiquei com a impressão de que alguma coisa ocorreu nas internas e por isso, tudo foi acelerado. Como se ainda não tivesse sido decidido de vez o encerramento e não pode ser inevitável. Conspirações! No final, concordo que os personagens tiveram seus finais resumidos de maneira urgente sem a profundidade que estava sendo levantada sobre eles. De toda maneira, fiquei bastante emocionada com os dois últimos episódios, talvez até pelo fato de saber desta despedida que não queríamos! Eu adorei a conversa final entre o Dr Victor e a “Frankestina” presa no laboratório, no diálogo que para mim, mostrou a intenção da série, quando ele diz à ela: “É fácil ser monstro, vamos ser mais humanos.” Outra cena bastante significativa para mim e representativa da série, foi quando, após a morte de Vanessa, Ethan sobe ao quarto dela na mansão, e fica sentado no chão olhando para a cama dela. Incrível! A série sem dúvidas merecia mais destaque nas premiações como o Emmy, por sua beleza técnica e atuações. Abraço!

Responder
Iris demetrios fyrigos 24 de julho de 2016 - 14:09

Eu realmente fiquei com a impressão de que alguma coisa ocorreu nas internas e por isso, tudo foi acelerado. Como se ainda não tivesse sido decidido de vez o encerramento e não pode ser inevitável. Conspirações! No final, concordo que os personagens tiveram seus finais resumidos de maneira urgente sem a profundidade que estava sendo levantada sobre eles. De toda maneira, fiquei bastante emocionada com os dois últimos episódios, talvez até pelo fato de saber desta despedida que não queríamos! Eu adorei a conversa final entre o Dr Victor e a “Frankestina” presa no laboratório, no diálogo que para mim, mostrou a intenção da série, quando ele diz à ela: “É fácil ser monstro, vamos ser mais humanos.” Outra cena bastante significativa para mim e representativa da série, foi quando, após a morte de Vanessa, Ethan sobe ao quarto dela na mansão, e fica sentado no chão olhando para a cama dela. Incrível! A série sem dúvidas merecia mais destaque nas premiações como o Emmy, por sua beleza técnica e atuações. Abraço!

Responder
JC 22 de julho de 2016 - 22:00

Então, o diretor disse que o plano sempre foi esse, de fechar com 3 temporadas.
Mas eu também senti as mesmas coisas que você descreveu no texto.
De repente pareceu uma corrida…a polícia chegando x ambulantes.

Matou o ritmo da série….Drácula ruim, Jekyl ficou péssimo, arco péssimo de Ethan.
Fora Dorian Gray que virou um mamão.

E o passado da Vanessa com John pior ainda.

Responder
JC 22 de julho de 2016 - 22:00

Então, o diretor disse que o plano sempre foi esse, de fechar com 3 temporadas.
Mas eu também senti as mesmas coisas que você descreveu no texto.
De repente pareceu uma corrida…a polícia chegando x ambulantes.

Matou o ritmo da série….Drácula ruim, Jekyl ficou péssimo, arco péssimo de Ethan.
Fora Dorian Gray que virou um mamão.

E o passado da Vanessa com John pior ainda.

Responder
Tiago Lima 22 de julho de 2016 - 20:48

Ótima análise!

Particularmente, eu daria uma estrela a mais, pelos trabalhos acima da média da direção, fotografia e atuações. De fato Penny Dreadful era uma série que tinha muito mais a explorar e a mostrar. Fará falta, assim como The Borgias, uma outra série que teve o seu cancelamento antecipado, deixando, neste caso, a série sem um final.

Mas voltando a PD, em minha análise a série conseguiu trazer várias abordagens em seus sub-textos. Desde da visão de, que e tirados os elementos sobrenaturais, Vanessa Ives seria uma mulher que sucumbi a depressão. Porém em uma outra análise podemos dizer que Penny Dreadful trabalhou uma gama de personagens que escolhem manter ou abandonar suas humanidades.

E este aspecto fica bem evidente tanto em Venssa como em John Clare. Ela não poderia mais negar quem era,porém em sua escolha mais desesperada fez o que lhe torna mais humana, morrer. Já John Clare, por conhecer a monstruosidade, o oculto e sobrenatural não quer negar ao filho que o mesmo na morte o mesmo mantenha sua humanidade.

Sobre o ultimo capítulo em si, eu gostei como utilizaram a personagem da Patti Lupone, mostrando que senhoras podem sim conduzirem cenas com maior exigência física e vigor.

Billie Pipper também não decepcionou em sua atuação, tanto nos momentos junto ao Victor, como no momento final com Dorian.

Preciso ressaltar também como ficou linda a cena de abertura do último episódio.

Penny Dreadful fará falta por conseguir unir uma boa narrativa, com cenas marcantes, bem construídas e com poesia,

Responder
Tiago Lima 22 de julho de 2016 - 20:48

Ótima análise!

Particularmente, eu daria uma estrela a mais, pelos trabalhos acima da média da direção, fotografia e atuações. De fato Penny Dreadful era uma série que tinha muito mais a explorar e a mostrar. Fará falta, assim como The Borgias, uma outra série que teve o seu cancelamento antecipado, deixando, neste caso, a série sem um final.

Mas voltando a PD, em minha análise a série conseguiu trazer várias abordagens em seus sub-textos. Desde da visão de, que e tirados os elementos sobrenaturais, Vanessa Ives seria uma mulher que sucumbi a depressão. Porém em uma outra análise podemos dizer que Penny Dreadful trabalhou uma gama de personagens que escolhem manter ou abandonar suas humanidades.

E este aspecto fica bem evidente tanto em Venssa como em John Clare. Ela não poderia mais negar quem era,porém em sua escolha mais desesperada fez o que lhe torna mais humana, morrer. Já John Clare, por conhecer a monstruosidade, o oculto e sobrenatural não quer negar ao filho que o mesmo na morte o mesmo mantenha sua humanidade.

Sobre o ultimo capítulo em si, eu gostei como utilizaram a personagem da Patti Lupone, mostrando que senhoras podem sim conduzirem cenas com maior exigência física e vigor.

Billie Pipper também não decepcionou em sua atuação, tanto nos momentos junto ao Victor, como no momento final com Dorian.

Preciso ressaltar também como ficou linda a cena de abertura do último episódio.

Penny Dreadful fará falta por conseguir unir uma boa narrativa, com cenas marcantes, bem construídas e com poesia,

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais