Crítica | Pennyworth – 1X01: Pilot

“Essa não é a sua arma. É a arma da Rainha.”

Contém spoilers.

O mordomo de Bruce Wayne enfim ganhou um espaço seu para ser protagonista no audiovisual, mesmo que ninguém estivesse realmente interessado nisso. Enquanto o ceticismo até parece ser o caminho mais simples de pensamento acerca de uma produção como essa – Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas usava justo tal possibilidade para criar uma boa piada -, várias oportunidades interessantes também surgem. Em uma Londres sessentista, mas com boas pitadas anacrônicas e alterações históricas, Pennyworth explora Alfred (Jack Bannon) muito antes do personagem servir aos Wayne. E justamente a servidão, estar a serviço de alguém mais rico e poderoso, é o tema do piloto. Como exclama cheio de pompa em uma das primeiras cenas do episódio, o garoto no auge dos seus vinte anos quer ser o seu próprio dono, o que seu pai, provavelmente um mordomo como se sugere, rapidamente contraria. “Ninguém é o seu próprio dono”, aponta ele, vivido muito bem por Ian Puleston-Davies. Dessa forma, colocar Alfred Pennyworth como centro das atenções, não mais um mero coadjuvante, rende possíveis caminhos instigantes, que podem estudar as suas características, ambições e obrigações de uma maneira complexa. Pois a quem ou ao quê deve o homem servir? Portanto, um bom desenvolvimento de personagem é principiado em vista do piloto.

Alfred Pennyworth, um ex-militar, está querendo ascender socialmente, questionando o seu futuro e sonhos, planejando o lugar que sua empresa de segurança privada irá chegar. Há, portanto, uma discussão acerca de onde ele pertence, o que vale a sua existência e qual é o seu papel. Vindo de um dos grandes coadjuvantes da cultura popular, esse tratamento ao personagem, que repensa profundamente a sua relação na sociedade, revela ser um dos pontos mais interessantes da série, o qual espera-se que seja mantido no decorrer da temporada. Isso certamente intensifica a noção de coadjuvante, a serviço dos poderosos, que classes “inferiores” possuem dentro do tecido social. Quem é que é protagonista da própria narrativa? O que é ser protagonista da própria narrativa? Antecedendo os eventos desse primeiro episódio, por exemplo, Alfred era um soldado britânico, justamente um dos ápices do anonimato. A sua apresentação ocorre logo em um funeral, de um parceiro, dos tempos em que serviu à Coroa, que acabou se suicidando. Mas ele servira a troco de quê, se os seus morrem, não enriqueceram e se angustiam com o passado? Pennyworth mostra ser, à primeira vista, um seriado que pensa, portanto, os contrastes entre os ricos e pobres. Assim, o personagem servirá à Rainha inglesa antes de costurar as roupas rasgadas do Homem-Morcego.

Como essa primeira hora do seriado sugere, o protagonista é quase um James Bond, vestindo um terno elegante, mostrando técnicas de combate eficientes e transmitindo enorme confiança – ao paquerar, demonstra controle. Contudo, esse é um 007 sem ter a despreocupação promovida pelo arquétipo, no qual cada episódio abraça enredos usualmente inconsequentes – aqui, matar dói. Em contrapartida, Alfie, como é chamado, possui pais que temem a sua situação atual, vide o seu relacionamento. Ele envolveu-se com uma garota em uma posição controversa, sem apoio familiar ou sustento necessário para construir um lar. O começo do episódio explora isso, rapidamente manejando tal vínculo para que, na segunda metade do piloto, o par seja raptado por aristocratas malignos. Esme, por sinal, é vivida bem por Emma Corrin, que possui mais química com Alfie, porém, por conta do charme de Bannon. Curiosamente, a interpretação do ator soa similar a do grande Michael Caine, em oposição a de Sean Pertwee, que viveu o personagem em Gotham. O mais esquisito é que, além do retorno de Bruno Heller, o criador de ambos os projetos, boatos conectavam Pennyworth com essa recém-concluída série. As próprias feições de Bannon, entretanto, remetem ao ator que viveu o personagem na aclamada trilogia O Cavaleiro das Trevas.

Bruno Heller, que igualmente escreve os episódios, mesmo assim consegue ser independente de muitas conexões com o universo do Batman. Como na redefinição do personagem do mordomo, a opção é por renovar, saindo do espetacular para abraçar a visceralidade – mostra-se um homem todo ensanguentado. Já a narrativa, na superfície, envolve conspirações e organizações secretas, que entram no caminho do protagonista por acaso. É que Alfred rapidamente conhecerá Thomas Wayne (Ben Aldridge) – única grande relação com os quadrinhos até agora -, colocando-o na mira de antagonistas genéricos que querem matar o ricaço que viria a ser pai do Cavaleiro das Trevas. Mas nesse ponto Heller é bem menos engenhoso, apresentando clubes misteriosos, personagens enigmáticos e tramas cabulosas que simplesmente não vingam. Somente a atriz Paloma Faith, que vive Bet Sykes, consegue marcar presença, na sua representação de uma vilã com personalidade. Por outro lado, é por meio deste enredo que Pennyworth consegue se distanciar enormemente do Batman enquanto um super-herói, ser por si especial. O desenho de produção é preciso: a Londres acinzentada contrasta com a sofisticação da elite. Com isso, a série parece assumir o gênero que propôs e trajar uma identidade sua e concreta – coisa que Gotham, por exemplo, nunca conseguiu.

Embora a trama em si não convença pelo primeiro episódio, com elementos confusos surgindo à rodo, Bruno Heller prova trazer conteúdo. O roteirista certamente criou essa curiosa série com mais intenções que apenas imaginar aventuras descompromissadas do mordomo. Uma das melhores cenas do episódio, no caso, conta com Esme gritando para uma mesa de engravatados, clamando por socorro, apenas para ser ignorada. Em uma estruturação hierárquica, nada de mais marcante para se encerrar o episódio, assim sendo, que Alfred jurando à Rainha, beijando a sua mão. Essa construção do personagem, enquanto alguém imensamente leal, conversa diretamente com a sua simbologia classicista, onde é provavelmente a pessoa mais confiável para um herói ter ao lado. O mito da servidão é respaldado em várias cenas, como a no parque, em que Pennyworth justifica à Esme o seu passado mórbido na guerra, por justo amar a Coroa. Mas existem provocações a esse relacionamento quase às cegas. Pois, ao mesmo tempo, Danny Cannon, responsável pela direção, insere vários trechos desse passado de Alfred para o confrontar. O uso de tais cenas é cafona e não se mantém constante o episódio inteiro, entretanto, intensifica-se um processo importante de questionamento e percepção de quem merece nossa lealdade; quiçá os heróis, símbolos de ideais.

Pennyworth – 1X01: Pilot (28 de julho de 2019) 
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Corrin, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies
Duração: 71 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.