Crítica | Pennyworth – 1X02: The Landlord’s Daughter

“Nós fizemos um pacto com Satã, Alfie.”

Contém spoilers.

A trama que ganha enfoque no segundo episódio de Pennyworth soa como alheia à premissa principal da temporada, que trata de um esquema conspiratório envolvendo organizações secretas e Thomas Wayne (Ben Alridge). É que, dessa vez, Alfred (Jack Bannon) aceita o pedido de um pai para que sua filha pare de ser assustada por um garoto que a persegue, supostamente intocável por conta do nome que carrega. Porém, o roteiro de Bruno Heller consegue amarrar estes novos personagens e este novo enredo com o arco subtendido para o seu protagonista: a sua tentativa de crescer no mundo dos negócios e a sua relação de servidão perante as pessoas. Após os eventos do episódio de estreia da série, Alfred não quer se aproximar de qualquer ponto a ver com o seu passado, como bem exemplifica no seu encontro com Wayne. A guerra o afetou – retomada novamente através dos flashbacks. Thomas tenta, entretanto, o persuadir para trabalhar consigo, pelo bem do seu país. Mas agora o personagem prefere ansiar o seu próprio bem antes de tudo. Essa é uma mudança crucial, compreensível em vista dos acontecimentos anteriores, contudo, que esbarra, em contrapartida, nas necessidades de sua namorada, Esme (Emma Corrin), e na trama apresentada nesse episódio. O que perderemos em nossas jornadas para sermos independentes?

Pennyworth, aqui, parece ter se submetido justo aos anseios do “Diabo”, personificado no rico John Ripper (Danny Webb). E sim, o seu nome tem a ver com Jack, o Estripador, assim como se espera que essa trama seja mais explorada em outras oportunidades. O próprio John aparece em cena estripando cadáveres, supostamente tratando-se ou de um médico ou de um cientista ou de um vendedor de órgãos. Compreender com precisão o que acontece não é possível – uma elipse separa o encontro do protagonista com o homem da sua próxima aparição, marcando como um mistério a negociação. Entretanto, todo o jogo de provocações e anseios, oriundo das interações entre o mocinho e o aristocrata, é instigante e bastante inteligente. Primeiramente, o modo como Alfred consegue transformar o seu papel inicial, meramente precisando impedir os avanços de Jason Ripper (Freddy Carter), para então se assegurar de derrubar de fato o garoto através de uma postura sua mais assertiva, mostra uma sagacidade enorme por parte do personagem – e, consequentemente, do roteiro. The Landlord’s Daughter ganha, assim sendo, camadas suaves de imprevisibilidade, que ultrapassam confrontos objetivos e simples para os tornar estrategicamente complexos. Os personagens passam por criações mais críveis com isso, pensando realisticamente.

Ao mesmo tempo, o episódio movimenta boas caracterizações, tanto de Jason, rebelde, covarde e bastante juvenil, quanto de John, a ameaça personificada. Danny Webb, que interpreta o personagem, não se intimida em momento algum com a aparição de Alfred, por exemplo. Do contrário, a sua atuação controla completamente as cenas em que participa, reconquistando o domínio de tais interações, ainda que aparentemente aceite os avanços de Pennyworth. Quando o capítulo se encerra e o personagem principal tem uma conversa com um dos seus parceiros sobre o pacto que acabara de fazer – que não é mostrado em cena -, a preocupação é compreensível. Por outro lado, Jason sofre nas mãos dos amigos do protagonista, sendo psicologicamente torturado por ambos. O destaque, porém, vai para o posterior embate entre os Ripper, que expõe toda a proficiência de Alfred em conseguir cumprir os seus trabalhos, não importa o tamanho.

Até quando trata de uma outra trama simultaneamente uma comunicação com as principais existe. O cotidiano de Sykes (Paloma Faith) e os seus sacrifícios em prol da sua independência espelham-se com o arco do protagonista. Como acontece com Alfred, a personagem precisa submeter-se, no caso aos impulsos de um guarda, servindo-o momentaneamente até que possa virar o jogo. Em paralelo, a mulher envia cartas para certas pessoas, o que inclui Esme, provocando a namorada do protagonista – novamente, traça-se uma costura narrativa. Com um ritmo muito coeso, que avança as temáticas da série em meio aos seus desenvolvimentos de personagem e de enredo, o único desvio reside na ponte entre o protagonista repensar esse seu relacionamento e enfim se entregar a ele. O pedido em casamento é abrupto e não passa por uma construção, nem uma conversa de Alfie com um amigo seu. Mesmo assim, a premissa da união matrimonial redefine as prioridades do personagem, que não mais servirá apenas a si, contudo, também ao seu conjunto com Esme. Nesse seu segundo episódio, a série prova, portanto, a sua maturidade, tanto visual – por conta da nudez e das tripas – quanto narrativa, concluindo-se com uma amostra das contradições sociais, que soam legitimar a violência em todos os seus níveis. Parece que o mal reside em cada esquina.

Pennyworth – 1X02: The Landlord’s Daughter (4 de agosto de 2019) 
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Corrin, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies, Danny Webb, Freddy Carter, Polly Walker
Duração: 54 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.