Crítica | Pennyworth – 1X03: Martha Kane

“Se ela te ama, ela ama o animal dentro de você.”

Contém spoilers.

De uma certa maneira, à medida que os episódios de Pennyworth avançam, mais a mitologia do personagem e da sua própria série parece não se importar muito com as noções clássicas que envolvem o Batman e seu universo. Com a introdução de Martha Kane (Emma Paetz), a mulher que viria a ser mãe de Bruce Wayne – e responsável por uma das cenas mais controversas do cinema – comprova-se uma licença poética tomada por Bruno Heller. Aqui, a personagem surge como parte da Liga Sem-Nome, uma oposição a uma outra organização secreta, a Sociedade do Corvo. Com esse episódio que apresenta Martha, os confrontos entre tais clubes misteriosos enfim ganham mais proporção, após o competente, mas não tão relevante para a trama geral, capítulo passado tratar apenas de enredos secundários. O terceiro episódio da série, contudo, traz muitos problemas em sua execução, tanto em um escopo maior, que toma tudo já exibido como ponto de partida, quanto em um escopo menor, em vista dos equívocos particulares a esse episódio. Heller parece não ter a mesma mão firme de antes para assegurar os impasses de Alfred em relação ao seu eu interior, o que o move de fato enquanto pessoa. Assim sendo, mesmo que questões sejam aprimoradas, a execução tarda para provar o seu ponto, de modo que não o constrói precisamente.

A começar, o desenvolvimento do relacionamento entre Alfred (Jack Bannon) e Esme (Emma Corrin) soa truncado, por conta de basicamente repetir o que antes já tinha se concretizado: o pedido de casamento. Agora, no entanto, uma outra temática entra em cena: a questão da violência intrínseca ao protagonista. Em uma reviravolta – pois antes uma desaprovação de Esme era explícita -, a vertente animal do personagem passa a ser uma característica que instiga a sua namorada. Mesmo assim, Heller teria sido mais preciso ao mesclar as discussões acerca de Pennyworth ou então dar mais tempo às ideias serem pensadas e repensadas, sem precipitar-se. Em contrapartida, o roteirista opta simplesmente por lidar com dois diálogos centrais, um que inicia o capítulo e outro que o encerra. No primeiro, Alfred tem um embate com o pai de Esme, descrente na possibilidade de um casamento entre os dois funcionar, ao passo que no último confronta o seu próprio pai, ainda cético da posição do seu filho no mundo. Ao menos, Bill Eagles, que comanda o episódio, consegue dar a camada necessária de tensão que tais momentos necessitam. Quando o protagonista vai pedir a mão de Esme em casamento para o seu pai, Eagles paulatinamente fecha mais e mais os planos, aproximando-se de seus rostos à medida que a hostilidade se evidencia.

Contudo, Martha Kane, a verdadeira estrela em cena, é uma personagem interessante demais para o episódio não ser resgatado por ela e sua presença promissora. Em primeiro lugar, a ótima performance de Emma Paetz promove personalidade ao papel, orquestrando objetivos precisos, assegurando-se de suas certezas e se movendo por essa precisão. Com isso, o primeiro encontro seu com Alfred, no bar, é justamente agilizado por essa objetividade, sem papo à toa – o texto colabora com o ritmo. Portanto, a maneira direta com que situa problemáticas e contextualiza missões é engajante. Um impasse é proposto, mas Martha sabe exatamente o que não pode acontecer, então suas estratégias rondam a ideia e prontamente se voltam ao auxílio do ex-soldado em campo: Alfred, que é tão esperto quanto. Dessa forma, quando ela, o protagonista e outros personagem precisam sair de um cerco, o controle de Martha se une ao controle de Alfred, formando uma química muito assertiva. Em termos narrativos, a resolução, no entanto, é excessivamente simples – não a que envolve o caminhão, e sim a que envolve a ameaça. Entretanto, as doses de entretenimento ainda residem em cenas como a que a personagem precisa fingir ser outra pessoa. Pennyworth consegue ser inclusive engraçado. A sua dupla com Alfred é talvez mais dinâmica que a icônica formada por Batman e Robin.

Enquanto a maior parte de Martha Kane encontra-se relacionada a esse primeiro encontro, já uma outra relaciona-se meramente consigo mesma. Dave Boy (Ryan Fletcher), amigo do protagonista, é o centro das atenções nessa trama paralela, que expõe bastante o seu alcoolismo e suas queixas internas. É certamente interessante a série estar preocupada com personagens coadjuvantes, entretanto, o enfoque atrapalha o ritmo e não possui uma justificativa narrativa para o respaldar. O que acontece com Dave Boy e seu parceiro Bazza (Hainsley Lloyd Bennett), pelo menos nesse episódio, mostra ser pouco importante. Heller, pelo contrário, rejeita costurar uma trama a outra, como conseguiria caso tornasse as consequências de uma determinada morte acidental menos cômicas. Dentro de sua estrutura, o que se evidencia é apenas a constatação da vontade de Dave Boy em viver, apesar do seu tormento constante. Confere-se, portanto, uma conexão acerca das cicatrizes terríveis da guerra, que é compartilhada vagamente com o arco do protagonista. A sua conversa com Martha, em que aponta o pai da personagem como mentiroso, traça um paralelo mais concreto nesse sentido. Porém, a ausência de uma objetividade maior nas amarras entre os propósitos torna o episódio inteiro mais vago em relação às questões que aborda do que poderia.

Pennyworth – 1X01: Pilot (28 de julho de 2019) 
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Emma Corrin, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies
Duração: 54 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.