Crítica | Pennyworth – 1X04 e 1X05: Lady Penelope e Shirley Bassey

“Pare de trabalhar contra ela ou você vai ser enforcado.”

Contém spoilers.

Dentro de Pennyworth e a jornada pensada para o seu protagonista, o episódio Lady Penelope começa um tanto despretensioso para provar ser, no entanto, um dos capítulos mais cruciais para essa série. O cenário pré-estabelecido pela temporada até então é revirado completamente. Ora, a missão que Thomas Wayne (Ben Aldridge) atribui à Martha Kane (Emma Paetz) nesse já quarto exemplar do seriado não envolve assassinatos, meramente a busca por uma informação: quem é o novo chefe em comando da Sociedade dos Corvos. Com isso, Alfred (Jack Bannon) aceita retomar a parceria iniciada anteriormente, contrariando tanto a sua vontade de uma vida pacata com Esme (Emma Corrin) quanto as ameaças do Inspetor Aziz, ciente das tarefas ilegais que o personagem anda aceitando. De certa maneira, o que temos é o triste início de um caminho vertiginoso para o protagonista, desobedecendo ordens da própria Rainha e aprofundando-se em um cotidiano de violência e mortes. Shirley Bassey, por sua vez, já conta com o personagem caindo de cabeça no fundo de um poço moral, ignorando quaisquer barreiras para conseguir o que anseia. Antes, pelo menos, existia uma mescla de recusa com interesse. Esses episódios, portanto, se complementam bem, apesar de terem sido exibidos separadamente – o quarto, entretanto, acompanhou o terceiro.

Os capítulos, ao passo que se integram como parte de uma cronologia coerente, também se contrastam perfeitamente. China Moo-Young imprime mais luzes às desventuras de Alfred e Martha por uma cidade pequena de interior, enquanto Rob Bailey aceita a lugubridade do episódio seguinte. Ao passo que a violência é uma constante em ambos – os dois capítulos contam com uma quantidade graficamente impressionante de sangue, embora pontual -, ela é vista de maneira completamente diferentes. A razão para essa ruptura é lógica: a morte surpreendente de Esme acontece justamente no término de Lady Penelope, colocando um fim nos sonhos do protagonista, desesperançado e acabado.

Ao mesmo tempo, as aproximações familiares com Esme respaldam os interesses dramáticos em cena, principalmente uma sensibilidade a mais para o pai de Alfred, interpretado por Ian Puleston-Davies. Não sabemos ainda, no entanto, as conversas entre os dois, pensando em casamento e revivendo o passado, são úteis para a desolação que inerentemente chegará. O clima é gracioso, sem trazer consigo as mesmas tensões de um momento posterior ou anterior – o pai parece já aceitar o casamento entre Alfie e sua noiva. Bruno Heller, por sinal, escreve uma das cenas mais simples e mais singelas da temporada ao pensar uma relação entre pai e filho renovada, após a tragédia referida se dar em Shirley Bassey. Com o Sr. Pennyworth apenas fazendo a barba de um Alfred quase catatônico, o roteirista tem a sensibilidade certeira para tanto nos aproximar da dor de Alfred quanto incrementar emocionalmente as dinâmicas entre personagens.

Mesmo assim, Lady Penelope consegue trazer camadas subjacentes da perversão, as quais se materializariam mais impressionantemente em Shirley Bassey, por conta da reviravolta dramática com Esme. O casal protagonista transando, para incômodo dos pais, é um começo ainda inocente de malícia, mas que logo ganha realmente uma força com a morte de uma das antagonistas, chocante, mas não marcante o suficiente para impedir Alfred de continuar fazendo piadas. Portanto, o episódio mantém uma espirituosidade – ao passo que Martha é a única que tem uma quebra de perspectiva -, antecipando os contornos mais sérios do seu fim sem necessariamente premeditar-los. Do contrário a um prenúncio mais previsível, a morte de Esme é um baque inesperado, especialmente porque a única conversa de perigo acerca dela tem relação com Bet Sykes (Paloma Faith), apaixonada pela garota, não odiosa. Na cena que Esme encontra o seu fim, dá para se esperar um sequestro passional, não um assassinato, o que incrementa mais peso ainda ao momento.

Quando o personagem principal relembra de um amigo do seu passado com uma de suas frases, exemplifica enxergar a sua vida como sendo uma comédia, ao invés de uma tragédia. Nesse sentido, Lady Penelope contrapõe Shirley Bassey, por ambas serem obras de gêneros um tanto quanto distintos. Se um capítulo traz uma visão mais leve e cômica, ainda que mascarando a sua perversão intrínseca, o outro consolida um drama trágico mais pungente, com os fantasmas do passado do protagonista ganhando forma e rosto, em oposição a serem meras sugestões. Em contrapartida ao beijo ansioso entre Alfred e Martha anteriormente – posterior a uma química notória -, a transa do protagonista com a filha do dono do bar é impessoal, ocorrendo basicamente em meio a mais violência e sangue: Dave Boy (Ryan Fletcher) à beira da sua morte, esperando um médico. Consequentemente, comprova-se como hediondas as ações de Pennyworth. Nenhum dos casos amorosos é, no entanto, puro – a traição continua a ser moralmente condenável -, mas o personagem, com as atitudes que toma em consequência ao assassinato de sua amada, passa a não se importar mais em fugir das tentações. Ou seja, o seu ímpeto por vingança se sobrepõe até mesmo à vertente mais mercenária de seu amigo Dave Boy. Já o protagonista é frio, em uma cena curiosa por conta das dinâmicas presentes serem exóticas; assim, a série pode instigar ainda mais.

Pennyworth – 1X04 e 1X05: Lady Penelope e Shirley Bassey (11 de agosto e 18 de agosto de 2019) 
Direção: China Moo-Young e Rob Bailey
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Emma Corrin, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies, Polly Walker, Danny Webb, Jessica Ellerby
Duração: 55 min. cada episódio

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.