Crítica | Pennyworth – 1X06: Cilla Black

Contém spoilers.

Pennyworth, pelo menos até este momento, mostrava ser uma série bem mais pé no chão em comparação a Gotham, também criada pelo mesmíssimo artista. No caso, os super-vilões icônicos do Batman permaneceriam no projeto anterior de Bruno Heller, enquanto as tantas desventuras de Alfred (Jack Bannon) seguiriam uma abordagem terrena, sem complicações fantasiosas a surgir. Do contrário a esse pensamento, o sexto episódio do seriado apresenta os primeiros elementos místicos – e, consequentemente, impactantes -, que redefinem os status quo de personagens e do próprio programa, agora mais amplo em oportunidades a aproveitar. Como surgem na segunda metade da temporada, tais pontos surpreendem as noções passadas, que envolviam confrontos políticos mais próximos da nossa realidade. Heller aproveita essa surpresa não-antecipada, porém, para também também colocar os personagens em contraponto com as suas próprias crenças, em paralelo aos declínios de caráter a que se submetem. O mágico, portanto – muito mais do que ser um mero adereço narrativo -, reitera perdições pessoais, porque serve como um impulsionamento orgânico aos conflitos morais vivenciados tanto pelo protagonista em si quanto pelos coadjuvantes.

Mesmo assim, a atmosfera do série sempre deu oportunidade para brincar com excentricidades peculiares – como é todo o ambiente onde Bet Sykes (Paloma Faith) reside atualmente, em que os empregados demonstram estar em condições de escravos sexuais. Aliás, um dos destaques do episódio é a recuperação – exageradamente repentina, no entanto – da memória do Lord Harwood (Jason Flemyng). Ele, o comandante anterior da Sociedade dos Corvos, é justo um dos elementos mais marcantes da série em termos “fantásticos” – a sua aparência, sem nariz e sem dedos do pé, remetia a um monstro de ficção científica. O místico, por meio da presença de uma clarividente e quiçá uma droga altamente manipulativa, assim sendo, enfim invade esse sexto episódio, mas já rodeava Pennyworth há tempos. O novo capítulo apenas coloca, de uma vez por todas, o pé na direção de um quê sobrenatural, o qual ainda assim permanece mais sórdido que lúdico. Logo, o universo proposto por Heller, essa Londres revisionista dos anos 60, ganha mais camadas e uma mitologia bastante particular, respaldadas, contudo, por uma condução que sempre entendeu a série por meio da pontuação de questões extraordinárias, que amarram-se a visões mais sombrias.

Ao mesmo tempo, Heller continua a aprofundar o protagonista, odioso por conta do assassinato de sua noiva, em uma jornada vingativa – ou seja, essa é a derrocada moral de Alfred. John Ripper (Danny Webb), prosseguindo com a narrativa, enfim conta ao personagem onde poderá saber da verdade acerca da morte de Esme, mas o preço a se pagar é a rendição ao testemunho anormal de uma espécie de vidente – vivida muito bem por Felicity Kendal. Nesse sentido, Bill Eagles, que comanda o episódio, não se precipita em retratar Alfred, pelo capítulo, passando por um embate pessoal, em relação ao místico que o é introduzido. Bannon, por sua vez, encarna o oposto da simpatia charmosa de antes. O pedido da personagem é excêntrico – uma mão de um assassino e uma rosa em troca da verdade -, porém, se outras séries implicariam no protagonista tendo que se submeter a condições exorbitantes, Heller traz uma carta na manga. O arco de Alfred se mescla a essa narrativa inédita de confrontação de perspectivas, que surpreende por conta da naturalidade como se resolve. E a resposta promete trazer instigantes desenrolares, apesar de reiterar o quão dispersa a série, soa no que tange a sua premissa – os grupos secretos têm ainda menos espaço.

Porém, embora o protagonista tenha o seu espaço místico para confrontar-se, é uma das tramas paralelas que merece a maior atenção do espectador. Do nada, o episódio embarca num caminho que lembra De Olhos Bem Fechados, clássico de Stanley Kubrick, trazendo Martha Kane (Emma Paetz) para adentrar, junto com a irmã de Thomas Wayne (Ben Aldridge), em uma festa secreta e demoníaca. Por sinal – em uma breve digressão -, Wayne também vive confrontações morais no episódio, assim como os demais personagens. Aqui, o revelado espião da CIA é obrigado a aceitar uma missão que possivelmente o condenaria enquanto assassino. Entretanto, o resultado, para sorte única e exclusiva de Thomas, é positivo, o que não acontece com os demais. Já Martha, por outro lado, se encaminha a um evento que se desdobra em alucinações. Conhecendo um anfitrião misterioso, a garota tem seus arredores transformados completamente. De uma festa encenada sem muitas malícias, o cenário logo torna-se ambiente de orgias. Eagles, nesse sentido, consegue capturar bem o desnorte da mulher. Mais enigmático, porém, é o término, quando Martha encontra-se pelada no meio do nada. Pennyworth, dessa maneira, continua a satisfazer a nossa curiosidade.

Pennyworth – 1X06: Cilla Black (25 de agosto de 2019) 
Direção: Bill Eagles
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies, Polly Walker, Danny Webb, Jessica Ellerby
Duração: 50 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.