Home TVEpisódio Crítica | Pennyworth – 1X06: Cilla Black

Crítica | Pennyworth – 1X06: Cilla Black

por Gabriel Carvalho
80 views (a partir de agosto de 2020)

Contém spoilers.

Pennyworth, pelo menos até este momento, mostrava ser uma série bem mais pé no chão em comparação a Gotham, também criada pelo mesmíssimo artista. No caso, os super-vilões icônicos do Batman permaneceriam no projeto anterior de Bruno Heller, enquanto as tantas desventuras de Alfred (Jack Bannon) seguiriam uma abordagem terrena, sem complicações fantasiosas a surgir. Do contrário a esse pensamento, o sexto episódio do seriado apresenta os primeiros elementos místicos – e, consequentemente, impactantes -, que redefinem os status quo de personagens e do próprio programa, agora mais amplo em oportunidades a aproveitar. Como surgem na segunda metade da temporada, tais pontos surpreendem as noções passadas, que envolviam confrontos políticos mais próximos da nossa realidade. Heller aproveita essa surpresa não-antecipada, porém, para também também colocar os personagens em contraponto com as suas próprias crenças, em paralelo aos declínios de caráter a que se submetem. O mágico, portanto – muito mais do que ser um mero adereço narrativo -, reitera perdições pessoais, porque serve como um impulsionamento orgânico aos conflitos morais vivenciados tanto pelo protagonista em si quanto pelos coadjuvantes.

Mesmo assim, a atmosfera do série sempre deu oportunidade para brincar com excentricidades peculiares – como é todo o ambiente onde Bet Sykes (Paloma Faith) reside atualmente, em que os empregados demonstram estar em condições de escravos sexuais. Aliás, um dos destaques do episódio é a recuperação – exageradamente repentina, no entanto – da memória do Lord Harwood (Jason Flemyng). Ele, o comandante anterior da Sociedade dos Corvos, é justo um dos elementos mais marcantes da série em termos “fantásticos” – a sua aparência, sem nariz e sem dedos do pé, remetia a um monstro de ficção científica. O místico, por meio da presença de uma clarividente e quiçá uma droga altamente manipulativa, assim sendo, enfim invade esse sexto episódio, mas já rodeava Pennyworth há tempos. O novo capítulo apenas coloca, de uma vez por todas, o pé na direção de um quê sobrenatural, o qual ainda assim permanece mais sórdido que lúdico. Logo, o universo proposto por Heller, essa Londres revisionista dos anos 60, ganha mais camadas e uma mitologia bastante particular, respaldadas, contudo, por uma condução que sempre entendeu a série por meio da pontuação de questões extraordinárias, que amarram-se a visões mais sombrias.

Ao mesmo tempo, Heller continua a aprofundar o protagonista, odioso por conta do assassinato de sua noiva, em uma jornada vingativa – ou seja, essa é a derrocada moral de Alfred. John Ripper (Danny Webb), prosseguindo com a narrativa, enfim conta ao personagem onde poderá saber da verdade acerca da morte de Esme, mas o preço a se pagar é a rendição ao testemunho anormal de uma espécie de vidente – vivida muito bem por Felicity Kendal. Nesse sentido, Bill Eagles, que comanda o episódio, não se precipita em retratar Alfred, pelo capítulo, passando por um embate pessoal, em relação ao místico que o é introduzido. Bannon, por sua vez, encarna o oposto da simpatia charmosa de antes. O pedido da personagem é excêntrico – uma mão de um assassino e uma rosa em troca da verdade -, porém, se outras séries implicariam no protagonista tendo que se submeter a condições exorbitantes, Heller traz uma carta na manga. O arco de Alfred se mescla a essa narrativa inédita de confrontação de perspectivas, que surpreende por conta da naturalidade como se resolve. E a resposta promete trazer instigantes desenrolares, apesar de reiterar o quão dispersa a série, soa no que tange a sua premissa – os grupos secretos têm ainda menos espaço.

Porém, embora o protagonista tenha o seu espaço místico para confrontar-se, é uma das tramas paralelas que merece a maior atenção do espectador. Do nada, o episódio embarca num caminho que lembra De Olhos Bem Fechados, clássico de Stanley Kubrick, trazendo Martha Kane (Emma Paetz) para adentrar, junto com a irmã de Thomas Wayne (Ben Aldridge), em uma festa secreta e demoníaca. Por sinal – em uma breve digressão -, Wayne também vive confrontações morais no episódio, assim como os demais personagens. Aqui, o revelado espião da CIA é obrigado a aceitar uma missão que possivelmente o condenaria enquanto assassino. Entretanto, o resultado, para sorte única e exclusiva de Thomas, é positivo, o que não acontece com os demais. Já Martha, por outro lado, se encaminha a um evento que se desdobra em alucinações. Conhecendo um anfitrião misterioso, a garota tem seus arredores transformados completamente. De uma festa encenada sem muitas malícias, o cenário logo torna-se ambiente de orgias. Eagles, nesse sentido, consegue capturar bem o desnorte da mulher. Mais enigmático, porém, é o término, quando Martha encontra-se pelada no meio do nada. Pennyworth, dessa maneira, continua a satisfazer a nossa curiosidade.

Pennyworth – 1X06: Cilla Black (25 de agosto de 2019) 
Direção: Bill Eagles
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Ian Puleston-Davies, Polly Walker, Danny Webb, Jessica Ellerby
Duração: 50 min.

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4 comentários

Cesar Gabriel 17 de maio de 2020 - 17:32

Gostei da série, bem diferente de Gotham do mesmo realizador, personagens bem desenvolvidos com atores de primeira.

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Roger Jr 6 de dezembro de 2019 - 17:13

Antes a série parecia que se passava no mundo de “V de vingança”, agora parece “Penny Dreadful”. Estou meio incomodado com a falta de realidade da série.

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Wilson Melo 3 de setembro de 2019 - 14:15

Essa série não pára de me surpreender.. esperava nada mas sua duração maior que o tradicional passa voando na hora que estou assistindo. Realmente está sendo um prazer acompanhar Pennyworth.

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Gabriel Carvalho 3 de setembro de 2019 - 15:38

De fato! Pennyworth é muito interessante.

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