Crítica | Pennyworth – 1X07: Julie Christie

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Com poucos episódios de distância para o fim de seu ano inicial, a série Pennyworth avança nos seus estudos de personagem, que ocupam mais espaço no roteiro de Bruno Heller do que as conspirações entre as duas organizações secretas. Dessa maneira, não apenas o protagonista, interpretado por Jack Bannon, ganha espaço no capítulo da semana, em vista de sua vingança contra o assassino de sua noiva, como também os coadjuvantes. Na verdade, Thomas Wayne (Ben Aldridge) e Martha Kane (Emma Paetz) possuem tempo de tela superior à Alfred durante o curso de Julie Christie – por sinal, outro episódio que tem, por razões ainda enigmáticas, um nome proveniente de uma atriz. De um coadjuvante que cede sua alma ao Diabo ao protagonista imerso numa jornada de vingança, cada um dos personagens da série opta por um objetivo para se acordar de manhã. Estes primeiros impulsos das figuras retratadas no seriado, portanto, retornam para passarem por uma provação, quer seja como reiteração, como manifestação ou então extinção. No caso do personagem principal, por exemplo, o seu código moral esvaiu-se diante da oportunidade de descobrir o assassino de sua amada. Já Thomas Wayne, à procura de sua irmã Patricia (Salóme Gunnarsdóttir), que encontra-se desaparecida há três dias, confronta justo um satanista, Aleister Crowley (Jonjo O’Neill), somente para ter a sua própria integridade questionada.

Como contraste entre os demais episódios da série, no entanto, pouco se avança no que tange o arco do protagonista. Alfred já possui um culpado pela morte de Esme em vista – um conhecido do tempo de guerra – e está atrás dele, simples assim. Heller, em termos de avanço nesse sentido, porém, basicamente tem a oferecer uma perseguição que acontece à troco de nada, porque o suposto assassino escapa. Contudo, em paralelo a essa correria, que é geograficamente confusa por sinal, Alfred, de repente, depara-se com Bet Sykes (Paloma Faith), vilã da série que também se machucou com a morte da garota. De certa maneira, a única novidade apresentada é a descoberta por parte de Alfred de que sua antiga arqui-inimiga não morreu, mas está viva e com tanta sede por vingança quanto ele. Entretanto, curiosamente, mesmo sendo um pouco vago, é nesse ponto que Julie Christie parece amarrar suas duas narrativas simultâneas: a investigação pelo protagonista de quem matou Esme, de um lado, e a tentativa de Thomas em reaver sua irmã, de outro. Nos dois casos, os personagens precisam entrar em acordo com representações malignas, que são quase como encarnações do Diabo. Mas se Alfred não se incomoda tanto com a aparição de Bet – existe uma naturalidade esquisita em cena -, por quiçá já estar muito próximo da antagonista em termos de corrupção, Thomas mostra-se resistente à proposta de Crowley, que está em posse de Patricia.

Do que serve essa resistência, no entanto, senão como máscara da verdade? Crowley quer que Thomas revele o seu animal interior e, para isso, o conduz a assistir trechos da experiência de sua irmã na festa satânica realizada, no episódio passado, pelo anfitrião. A cena que o personagem se choca com essa revelação, por sinal, é inteligente em conseguir refletir as imagens em questão com o rosto de Wayne. Ao passo que o primeiro episódio da segunda temporada de Titãs resolveu de maneira apressada demais os seus impasses com o demônio Trigon, Pennyworth mostra ser uma série muito mais cuidadosa em colocar os seus personagens em xeque contra o Coisa Ruim. Em comparação, na verdade, Crowley, possuído pela interpretação de O’Neill, é uma presença muito mais ameaçadora que a de Trigon, o Mal em si. E a série, se formos especular, pode nem de fato estar pensando em demônios e Diabo como existências concretas, mas metáforas, as quais se relacionam com o estado atual dos personagens, repensando as suas reais motivações. O conteúdo do episódio, contudo, vai além desse embate quase místico. Em contrapartida, Thomas não apenas precisa ter de se contrapor-se internamente em meio a noções mais clássicas de Bem contra Mal, pois também passa por outro conflito. Ele revê – e o papel de Martha auxilia essa desconstrução – suas prioridades: a dignidade do nome Wayne ou a dignidade da pessoa Patricia?

Tão interessado nos seus personagens que, ao invés de preocupar-se antes com a Sociedade dos Corvos propriamente dita, o seriado entrega uma reviravolta com visão direcionada, em primeiro lugar, ao pai do protagonista. A descoberta de que o Sr. Pennyworth (Ian Puleston-Davies) é um dos seguidores da organização secreta desponta no momento certo, no qual sabemos tanto de seu caráter complexo quanto de sua sincera afeição pelo seu filho. Bruno Heller, outra vez, faz questão de pontuar no episódio o carinho dos pais de Alfred pelo jovem, o que permite complicar e enervar o envolvimento em questão entre público e personagem. Os espectadores estão diante, como no caso de Thomas também, de um personagem multivalente. Essas cenas esbanjam verdade em termos de contextualização, mas também preocupação do roteirista em as costurar a situações posteriores, como essa da reviravolta, na qual mais nuances são atribuídas às construções de personagens. Ora, em um episódio que trata justamente do demônio dentro de cada um de nós, é justo colocar o pai do personagem principal em meio a uma seita bastante questionável. Quem não possui um parente que segue algo ou alguém que pensamos ser moralmente reprovável? Não apenas, portanto, rico em compor seus elementos, Pennyworth traça em meio a eles uma coesão, que promove um pensamento acerca da relação do homem com o dever, igualmente multifacetado.

Pennyworth – 1X07: Julie Christie (8 de setembro de 2019) 
Direção: Claire Kilner
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Dorothy Atkinson, Ian Puleston-Davies, Polly Walker, Anna Chancellor, Salóme Gunnarsdóttir, Jonjo O’Neill
Duração: 50 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.