Crítica | Pennyworth – 1X08: Sandie Shaw

“Olá, Inglaterra.”

Contém spoilers.

Mesmo nunca posicionando as suas camadas políticas, as quais relacionam-se a tramas secretas, confrontos ideológicos e conspirações gigantescas, em primeira instância, Pennyworth sempre as manteve perto. Elas atuavam como uma constante, mas subjacente, ao redor do restante das intrigas narrativas da série, provocando, consequentemente, pontuais reflexões enquanto demais tramas movimentavam-se com prioridade. Essas rixas entre dois clubes antagônicos que anseiam o poder na Inglaterra, contudo, conquistam um espaço mais especial na condução do oitavo e antepenúltimo episódio da primeira temporada da série. Logo, sua trama é tão importante quanto a do protagonista, que enfim encerra a sua jornada por vingança. Com o Lorde Harwood (Jason Flemyng) prestes a despontar ao público, o impacto da Sociedade dos Corvos na nação inglesa ganha umas evidências extras, fora o fato de, no capítulo anterior, ter sido revelada a participação do Sr. Pennyworth (Ian Puleston-Davies) nas reuniões do grupo, como um alguém convencido de que novos poderes são necessários para substituir os vigentes. De um único cidadão convertido pelo clube, a mensagem dessa organização, em vista dos acontecimentos retratados no enredo do episódio, parece se estender para além de nichos, procurando arrematar, porém, mais e mais popularidade entre o povo em si. Em contrapartida, o que a Rainha oferece a ele, senão opressão?

Com o grande comunicado que Frances Gaunt (Anna Chancellor) antecipa à população – e que revelar-se-ia a sua renúncia em prol de Harwood -, Jon East, diretor do episódio, procura transmitir o apelo que os discursos dispõem nas pessoas. Por um ponto de vista, as influências que essas organizações possuem na população da Inglaterra permanecem sendo exemplificadas de uma maneira pouco arejada, porém, simplória. Por exemplo, continua complicado compreender o real contraste argumentativo entre a Liga Sem-Nome e a Sociedade dos Corvos – a série não se interessa por as diferenciar de modo mais complexo, contudo, logo introduz uma confusão no bar envolvendo apoiadores dos movimentos que pouco se respalda narrativamente. Entretanto, com a execução do capítulo, abraça-se um clímax protagonizado por Jason Flemyng, ressurgindo das cinzas para todos – e com um nariz prateado -, que é preciso em sugerir uma disruptura nas relações até então vigentes. Pois a Corte se enfurece, a trégua com a Liga se encerra, e o povo percebe no homem uma figura contrária à brutalidade das forças governamentais. Em paralelo, porém, os personagens orquestram planos secundários preocupantes à ordem social. Por sinal, o crescimento de Harwood na temporada é um ponto positivo para o seu intérprete, que conseguiu construir um personagem mais autêntico que aquela representação do primeiro episódio, genérica.

Em meio a tantas conspirações e impulsos particulares – o protagonista é movido por uma sede por vingança -, é complicado manter-se leal a princípios, e esse tema permanecerá sendo o ponto de partida para as discussões que se intensificam no seriado, agora questionando ainda mais as autoridades. Fora o descontrole da cavalaria perante a aparição de Harwood – descambando para a violência à troco de nada -, uma das maiores reviravoltas até o momento é a descoberta por parte de Alfred (Jack Bannon) de que a polícia está escondendo informações acerca do abrupto assassinato de Esme, sua noiva. O Inspetor Aziz (Ramon Tikaram), assim sendo, torna-se outra peça corrupta de um tabuleiro sem heróis, nem vilões. Já Bet Sykes (Paloma Faith), movida pelas mesmas intenções vingativas que Alfred, pontua as suas peculiaridades, mais cínicas, frente a esta composição de degenerações. Consequentemente, o universo de sujeira que corrói as entranhas dessa Londres sessentista revisionista é ampliado, o que o roteiro acompanha com as conversas internas entre pessoas poderosas e oficiais de justiça. Ao passo que, antes, a revelação de que o assassino da garota era uma pessoa completamente aleatória – o Capitão Curzón (Charlie Woodward), com motivações simplórias -, virava uma conclusão um tanto decepcionante, novos conhecimentos sobre seu caso ajudam a sustentar os caminhos optados pelo criador, Bruno Heller.

É que a série consegue expandir a sua costura de elementos a uma só unidade temática, que é demonstrar o sistema imoral dos poderosos. O controle dos cidadãos londrinos, portanto, torna-se um cerne importante ao capítulo e coeso, continuando com o estudo do seriado sobre a corrupção dos homens, que são alienados por várias forças que os comandam – como a presença do Diabo, retomada em uma conversa entre Thomas (Ben Aldridge) e Martha (Emma Paetz), avulsos no capítulo de maneira substancial, mas com presenças tangentes coerentes. Nesse sentido, a cena em que a mãe de Alfred, vivida por Dorothy Atkinson, percebe uma arma escondida na roupa do jovem define tudo o que se perdeu na caminhada – ora, até um momento de afeto é consumido pela perversão que o norteia. Já no posterior, em que todos os membros da família se reúnem, um sentimento mais puro de confraternização, em vista da segurança de todos, tenta se sobressair sobre o veneno consumido por aquelas pessoas, que ainda guardam segredos entre si. Haveria realmente outra solução possível para o desgaste ideológico, portanto, senão a prisão de Alfred? Desse jeito, Heller, com o auxílio de Danny Cannon no roteiro, parece consolidar um pessimismo, enquanto encaminha o protagonista da série, longe de ser qualquer mocinho, pois nem mesmo possui uma permissão para matar – coisa que um outro espião britânico possui -, ao enforcamento.

Pennyworth – 1X08: Sandie Shaw (15 de setembro de 2019)
Direção: Jon East
Roteiro: Danny Cannon
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Dorothy Atkinson, Ian Puleston-Davies, Anna Chancellor
Duração: 50 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.