Crítica | Pennyworth – 1X09: Alma Coogan

“Quem está no comando aqui?”

Contém spoilers.

Depois de episódios e episódios avançando com cuidado as suas tramas, Pennyworth cada vez mais se aproxima do seu encerramento e, por conseguinte, do seu clímax. Dessa maneira, era urgente a necessidade de que as tantas tramas abertas no seu decorrer se unissem em uma só unidade – os confrontos entre a Sociedade dos Corvos e a Liga Sem-Nome, as desventuras de Martha Kane e Thomas Wayne pelo sub-mundo da espionagem, assim como a jornada vingativa de Alfred Pennyworth. Não apenas as artimanhas políticas ganham uma proeminência no decorrer do episódio em questão, portanto, como, em paralelo, ele articula participações relevantíssimas do protagonista e dos referidos coadjuvantes nos esquemas relacionados com a tentativa do Primeiro-Ministro (Richard Clothier) em reaver controle sobre a Inglaterra, em meio ao crescimento de grupos extremistas. Fora o primoroso trabalho de reorganização de tramas em uma só unidade – o que, antes, parecia desconjuntado torna-se coeso -, o auge da série de “super-herói” – eu sei que não é – mais surpreendente do ano termina sendo uma comprovação das enormes virtudes que antecipam um episódio executado de maneira igualmente virtuosa. Por isso, nada seria mais justo para o capítulo do que ter, em meio a uma premissa que une logo narrativas diferentes, o tema da reunião de pessoas como um dos cernes dos bons dramas continuados e boas histórias contadas.

Em vista de tantos acertos, é surpreendente, por isso, o que, no penúltimo episódio da sua primeira temporada, consegue-se se alcançar aqui. Essa injustiçadamente subestimada série – por carregar o peso de ser, para alguns, o mero spin-off estrelado pelo tal mordomo do Batman – , no caso, ao invés de se ater a uma mitologia pautada só em referências ao universo do clássico personagem e companhia, preferiu alçar um voo próprio, que cada vez mais parece comprovar a grandeza das suas asas, que arranha os céus. Ora, a sua criação de universo inteira soa original, com nome e sobrenome apenas seus. No que tange à atmosfera completamente nova pensada, que Bruno Heller, como criador da série, parece ser bastante apaixonado em averiguar, episódio a episódio uma mística impressionante é concretizada, que vai desde à aura misteriosa de John Ripper (Danny Webb), reiterada em um trecho pequeno do capítulo, para chegar na excêntrica prisão que torna-se moradia do protagonista – sua casa, ao menos, por pouco tempo. Quando Pennyworth (Jack Bannon) é preso pelo assassinato do homem que matou sua esposa, o personagem torna-se rapidamente parte de um sistema carcerário ímpar, que a série constrói em pouco tempo, mas com muita eficiência. Num capítulo em que muita coisa acontece, resta ao jovem cumprir uma missão para o governo em troca de sua escapatória, retornando, então, aos braços de seus pais e amigos.

Nesse caminho traçado pelo roteiro, permeado por acontecimentos com reviravoltas, o item mais importante que desponta é a elipse, avançando o tempo de modo a pontuar apenas momentos necessários para a progressão narrativa e também dramática. O episódio, assim sendo, progride sem sobrecarregar nenhuma trama, mas conjugando uma à outra com extrema competência. A maneira com que Thomas (Ben Aldridge) e Martha (Emma Paetz) terminam cruzando o caminho de Pennyworth é orgânica e, no fim, consequência da própria união entre estes dois, construída anteriormente de modo igualmente natural. Dessa forma, o que se observa na série é uma intriga política instigante, que consegue, ao mesmo tempo que se movimenta agilmente, combinar-se com os arcos pessoais dos personagens. No mais, isso orquestra-se à discussão geral da série: o que move as pessoas, a quem elas servem e quais são os seus ideais. Conversas tanto pontuam algo acerca desse cerne – Martha Kane continua a crer na Liga – quanto informações relevantes para o enredo – a mulher tendo interesse, por isso, em participar de missões com Wayne, vide os seus propósitos. Portanto, quando Pennyworth se recusa a cumprir ordens governamentais – assassinar o cruel Lorde Harwood (Jason Flemyng), mas também Martha e Thomas -, tanto uma mudança de paradigmas para o personagem é criada quanto a narrativa se encaminha a cenários empolgantes.

Mais importante que esses esquemas internos movimentados na Inglaterra, mesmo que no núcleo em questão a intimidade dos antagonista seja explorada – Harwood se reúne com sua esposa -, porém, o drama da série atinge um outro patamar. O espectador é aproximado ainda mais de uma relação entre os pais do protagonista e o próprio que se construiu por oito episódios até chegar ao ponto em questão. Em meio a uma encenação dramática impecável, com interpretações precisas, existe credibilidade durante as pausas que o episódio oferece para o garoto se reconciliar com os seus progenitores e encarar as consequências que as suas desventuras causam neles – o roteiro, contudo, traz um câncer ao pai dele que surge de modo previsível. No entanto, no que se refere à compromisso, a série mostra isso em relação aos seus personagens, por dar espaço para que nos mobilizemos não apenas no sentido deles viverem ou não – o que costuma ser o mote básico de séries assim -, mas deles sofrerem ou não. Logo, parece que Heller enxerga a união entre pessoas como um fim moral, acima de todas as coisas. Não só entendemos como verossímil a desistência de Alfred em assassinar seus alvos – em vista dos vínculos pessoais existentes entre eles -, como lamentamos o ocorrido por ele distanciá-lo ainda mais de seus pais. É complexo, portanto, o misto de sensações que a série promove, no ápice da constatação dos bons personagens que construiu.

Pennyworth – 1X09: Alma Coogan (22 de setembro de 2019)
Direção: Rob Bailey
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Jack Bannon, Ben Aldridge, Emma Paetz, Ryan Fletcher, Hainsley Lloyd Bennett, Paloma Faith, Jason Flemyng, Dorothy Atkinson, Ian Puleston-Davies, Anna Chancellor, Richard Clothier, Jessica Ellerby, Danny Webb, Polly Walker
Duração: 50 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.